Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

como ofender e humilhar pessoas (manual para colocar gente cretina no seu devido lugar)



Deixe-me apresentar: meu nome é Regina e eu tenho 1,50m e 40 quilos; tenho origem japonesa e aquele aspecto de bibelô zen meio débil que todas as japonesas de 1,50m e 40 quilos ostentam.
Minto. Eu não me pareço com um bibelô zen meio débil, minha cara está mais para aprendiz ninja de má-índole, mas como os ocidentais insistem que japoneses são todos iguais e adoram espalhar essa injúrio pelos quatro cantos, eles que se emendem e aprendam a distinguir cobra falsa de cobra coral para seu próprio bem e preservação da espécie.

A questão é que durante os anos em que habito este planeta, e não são poucos, tive que desenvolver algumas técnicas dignas de operação de guerra para não morrer ignorada ou pisoteada neste mundo cão. Atitudes de sobrevivência, à primeira vista, pouco cristãs, mas que com o passar do tempo revelaram-se redentoras e, por que não dizer, catárticas a ponto de eu receber dezenas de centenas de pedidos de conselho e aulas práticas de pessoas que se encontram na mesma situação que a minha quando eu era, vamos dizer, uma ameba.

Vale ressaltar que este não é um tratado bélico com o intuito de despertar o pior dos fracos e oprimidos e chamá-los para o ataque. A proposta deste livro é juntar munição para ser usada quando necessário, bem naquela hora em que somos bombardeadas sem motivo algum e, por alguma razão hormonal, não sabemos o que dizer ou fazer e tudo culmina numa crise solitária de choro horas depois.
Como rezam os preceitos das artes marciais: diga NÃO ao ataque e SIM ao contra-ataque.
Máximas milenares como “Não faça aos outros o que não quer que façam a você” ou “Quem com ferro fere, com ferro será ferido” tão apreciadas por nossas avós, me servem como mote, força motriz. Acredito tanto nesses ditados que minha missão é fazer com que gente menos esclarecida aprenda na marra a força e o poder de tais palavras.

Resolvi escrever este manual depois de um ataque de fúria ao assistir a uma adaptação moderna do “Conde de Montecristo” de Dumas, que vem a ser meu livro favorito com seus exemplos incríveis de vingança e aniquilação moral de todos os fracos d’alma pelo herói revanchista e fascinante.
Na nova adaptação, o politicamente correto impera e a obra vira um pastiche de bondade e lição de perdão. Vê se pode!
Isso é pior do que a versão nova do “atirei um pau no gato” que acabou virando “não atire o pau no gato-to porque o gato-to é bacana-na...”
Tenha santa paciência!

Para facilitar a consulta em momentos de urgência, este livro é separado por temas distintos.
Procurei priorizar situações e eventos nos quais as “avestruzes” (designação que adotarei a partir de agora para me referir às pessoas que têm o péssimo hábito de engolir sapos) se deparam com mais facilidade com gentalha disposta a ferir e magoar egos alheios sem como nem porquê.
Assim, caso a “avestruz” se veja em maus-lençóis no restaurante da moda ou na espera do ginecologista, ela poderá sacar seu Manual, procurar pela seção desejada e desferir impropérios em menos de um minuto. Ou seja, a tempo de não perder o bonde e responder à altura ao agente ofensivo “ab nicio ab ovo”, e não em casa solitária debaixo do chuveiro como de praxe.
Ou seja, reverterá a condição de coitada e sairá do recinto como vitoriosa, aplaudida por todos, deixando o “ser-humano menor” (designação que adotarei a partir de agora para me referir às pessoas que têm o péssimo hábito de achincalhar as “avestruzes”) roxo de vergonha e humilhação, como prevê a lei dos justos.

Com este Manual em mãos, não haverá mais “avestruzes” infelizes no mundo, nem “seres-humanos menores” impunes flanando por aí.
Dê adeus ao indesejado gostinho de sapo na boca e seja bem-vinda ao clubinho das mulheres temidas, respeitadas e felizes!
Viva!


No restaurante

Restaurantes são ambientes em que “seres-humanos menores” se sentem à vontade e proliferam a valer. Quanto mais descolado e moderninho for o ambiente, maiores as chances de contratempos e chateações.
Não que isto seja uma regra – há vida civilizada neste mundinho, mas é raro.
Em restaurantes requintados e caríssimos ou naqueles simplórios de beira de estrada quase não há chance de você ser mal-tratado, ou pior, ignorado. Pode parecer irreal, mas dinheiro em excesso ou a completa falta dele imprimem uma camada de gentileza (ou falsidade) bastante agradáveis aos que por lá circulam.
O problema mesmo são os moderninhos descolados. E olha que nem é preciso ser um “avestruz” para sentir na pele o que é tratamento hostil nesses estabelecimentos.
Música lounge intragável; decoração-padrão desconfortável; frequentadores falsamente bronzeados, exageradamente perfumados e impressionantemente “botoxeados” são até que suportáveis. O problema são as garçonetes-atrizes-modelos.
Esse tipo de “ser-humano menor” acredita piamente que está na função temporariamente e que daqui há algumas semanas estrelará uma campanha internacional milionária. Pobres infelizes iludidas.
Não conheço uma alma viva que não tenha tido algum tipo de stress com essa categoria.
Para esse tipo de situação, três conselhos:

1. Caso você seja ignorada pela garçonete escrota, não tenha dúvidas: estique o pé quando ela passar ao seu lado. È tiro e queda. Esses restaurantes são sempre tão apertados que elas dão rasante em todas as mesas até cairem estateladas no chão com a garrafinha de água fincada na boca sangrando. No mínimo cinco pontos e todos os dentes da frente engolidos.
2. Se seu nível de fúria não estiver tão assassino, banque a difícil. Uma hora, ela vai ter que te ver e anotar o pedido, e é aí que você entra sem dó nem piedade. Peça tudo modificado: hamburger sem carne, salada sem alface, refrigerante diet com um punhado de açucar no copo. Quando chegar o pedido, faça cara de “dai-me forças, pai do céu!” e diga olhando bem em seu rosto: “Querida, você errou tudo. Não foi nada disso que eu pedi”. Como a lambisgóia provavelmente não tem dom para “avestruz”, argumentará que a errada é você, que ela anotou o pedido direitinho e vai querer mostrar a comanda para garantir sua suposta inocência. Crasso engano. Diga, então, que não interessa suas anotações e que você exige a troca de tudo o que está na mesa. Caso ela baixe a guarda e acate, cuidado: não coma nada que chegar à mesa a partir daí. Tudo estará cuspido, escarrado e urinado, com toda a certeza. Mas, caso ela crie caso, vá para o conselho 3.
3. Pior do que uma “avestruz” com ódio de ser “avestruz” é um “ser-humano menor” desafiado por uma “avestruz”. Eles querem morrer de raiva e de vergonha. Quando o incidente toma ares de barraco, é melhor mergulhar fundo e partir pro tudo ou nada. Quando a garçonete resolver engrossar e cantar de galo, é a deixa pra você colocar os pingos nos ii definitivamente. Sem nunca mudar o tom de voz (que sempre deve ser macio e baixo, em todos os momentos da vida), chegue bem perto da infeliz e a ensine a diferença entre ambas (você e ela) naquele ambiente: enquanto você entra pela porta da frente, ela entra pela dos fundos, então é bom ela mexer aquela bunda flácida, ir até a cozinha e trazer tudo o que você mandou do jeito que você mandou. E fim de discussão.


No trânsito

Assalto
Não há nada pior do que ficar preso dentro do seu carro sob um sol de 40°C ou sob chuvas torrenciais típicas deste clima de monções que assola este pedaço de terra. Ou melhor, há sim: saber que há milhares de trombadinhas rondando seu possante sem que você possa fazer nadica de nada. Ledo engano.
Como ninguém é obrigado a portar ar-condicionado (apesar de ser item de primeiríssima necessidade nestes trópicos), aqui vai uma dica para você não morrer de calor com os vidros totalmente fechados enquanto espera o sinal abrir: deixe sempre uma fresta no tamanho aproximado de um punho de criança. No caso de alguma delas (as crianças) tiver a incontrolável vontade de colocar seu punho munido de canivete, caco de vidro ou qualquer outra arma branca para te assaltar, não tenha dúvidas: feche o vidro bem forte e saia andando. Primeiro bem lentamente para que o mini-meliante tenha a chance de se desculpar. Se isso não acontecer, aumente a marcha e saia em disparada até a via expressa mais próxima. Quando estiver no trecho mais movimentado, abra o vidro e deixe o pequeno “ser-humano menor” de menor se ver com os demais motoristas a 120 por hora.

Se o negócio for mais invasivo e a coisa descambar no “passa a grana senão te meto bala”, então é hora de sacrificar o resto de “avestruz” dentro de você e partir para artilharia pesada.
Pegue calmamente a carteira, abra, pegue as notas e as jogue ao vento ao mesmo tempo em que diz com todo o sarcasmo do mundo: “ Se é dinheiro que você quer, então ajoelha e pega!”.


Acidentes
Ser-humano que se preza tem horror a gentalha que pára o trânsito só para assistir de camarote ao acidente alheio.
Que raio de curiosidade mórbida é essa que faz com que as pessoas simplesmente se esqueçam de seus horários e compromissos só para verem de perto o estrago da desgraça dos outros? Eu não sei.
Para esse tipo de gente, eu sugiro que se faça um abaixo-assinado para que se aprove uma lei obrigando quem diminua a marcha ante um acidente grave a parar, socorrer e passar o dia inteiro à disposição da família da vítima.
Se o motorista oferecer resistência alegando compromissos inadiáveis, cem chibatadas serão aplicadas nele, na esposa e nos filhos, se existirem.
Essa lei garantirá, num futuro próximo, o livre escoamento de carros em cidades grandes e o melhor: a transformação de “seres-humanos menores” em pessoas de alma elevada que pensam no coletivo antes do individual e que respeitam a dor de estranhos como se fossem a sua.

Pequenos incidentes
Em muitos casos, envolver-se em pequenos incidentes de trânsito é muito mais danoso do que aqueles em que nosso carro vai parar em pátios de desmanche com perda total.
Tudo por conta dos “seres-humanos menores” motorizados que infestam as cidades brasileiras.
Como é que gente que não atina lé com cré pode dirigir sem causar danos aos mais esclarecidos? Não pode.
Essas criaturas lesam os transeuntes e os demais motoristas e ainda se acham no direito de xingar e tirar satisfações sobre suas próprias limitações.
Mas isso só acontece porque há muitos “avestruzes” como você soltos por aí. Pessoas de bem que não gostam de se envolver em discussões estúpidas e que sabem que comprar briga não vale a pena se o outro lado não estiver à altura.
Caso algum destes seres inacreditáveis cortar, ralar, colidir de leve com seu carro, não perca tempo. Olhe-o de cima a baixo, faça cara de pena e vá embora. Ah, não se esqueça de anotar a placa no caso do pilantra criar caso mais pra frente e resolver faturar algum às suas custas.

Saia-justa com policias de trânsito
Como não sou boba e não quero criar inimizades com a lei, pouco poderei discorrer sobre como humilhar e ofender policias aqui neste espaço. Mas como não sou mulher de baixar o rabo ante à lei, vou narrar um fato que vivi há alguns anos e que ilustra bem como podemos driblar a autoridade e vingar os homens de bem frente à estupidez dos “seres-humanos menores”.
Em frente à casa dos pais de meu marido, havia o consultório de um médico notório na cidade. Aliás, tanto o médico como sua esposa eram figuras conhecidas por todos. Acontece que o tal médido já atendia em outro endereço e mal aparecia por lá. Pelo menos em horário comercial, se é que vocês me entendem.
Quem lá ficava plantada, dia e noite, era a “secretária”, uma japonesa azeda (também casada, soube depois) que logo conquistou a antipatia da vizinhança que de tonta não tinha nada. E num odioso ato conjunto de moralidade, todo o bairro passou a hostilizar a pobre secretária-amázia. Ninguém a cumprimentava, ninguém a aturava, mas ninguém podia fazer nada de efetivo para externar a indignação geral. E no final das contas, sobrou pra mim (que de moralista não tenho nem as rugas) ser a porta-voz de toda uma comunidade contra a pouca-vergonhice vigente.
Numa tarde agitada, não conseguia arranjar vaga para parar meu carro para visitar meus sogros. O único espaço disponível era, justamente, a frente da casa da fofa. Ela me via todo dia e sabia de cor a cor e o modelo do meu possante.
Mas acontece que EU dei a brecha para a japonesa dos infernos se vingar de tudo e de todos e, quando ela avistou meu carro na sua fachada, não pensou duas vezes: chamou a polícia e disse que não conseguia entrar em sua própria garagem porque um vândalo parou o carro bem na frente.
Quando eu saio para ir embora, eis que vejo dois policiais, um caminhão de guincho e a vagabunda com ar de superioridade, todos cercando meu carro. Logicamente que fui soltando fogo pelas ventas dizendo que ela bem sabia que aquele carro era meu e que eu me encontrava na casa da frente; que ela havia feito de propósito, etc e tal.
Claro que eu estava totalmente errada por ter parado o carro aonde não devia, mas isso era irrelevante naquela altura do compeonato.
Então um dos guardas começou a me ameaçar dizendo para eu medir minhas palavras e guardar meus comentários porque senão eu iria apreendida junto com o meu carro e dormiria na delegacia por crime de desacato.
Aquilo subiu feito pimenta nos meus ouvidos.
Ah, não tive dúvida: olhei bem pra japonesa-vaca, depois mirei bem nos olhos do policial cretino e falei bem pausadamente: se o assunto é crime, ela também vai junto comigo dormir na delegacia, porque até onde eu sei, adultério também é crime.
Silêncio.
Então o policial cretino disse: “Você está acusando uma pessoa de uma coisa muito séria. Se isso for uma leviandade da sua parte, você pode se dar muito mal, garota”.
Foi aí que eu pensei: “Estamos fritos mesmo. Dependemos desses idiotas para garantir nossa paz, veja você. É claro que eu estava sendo leviana, sendo a japonesa adúltera ou não. Ninguém, em sã consciência, sai por aí denunciando pra polícia as aventuras sexuais dos outros. Mas eu estava mais enfurecida que uma amamba negra e precisava extravazar. Foi o que fiz e não me arrependo.
Final da história: a japonesa gaguejou e tentou despachar os policiais dizendo que um carro estacionado na frente da garagem dela não tinha tanta importância assim; os policias foram embora bufando e me mandando tomar medicamentos; e ninguém nunca mais viu a japonesa naquelas paragens.
Até hoje, todas a senhoras pregadoras da moral e do bom costume me adoram e me enchem de mimos.
Eu, devo confessar, aproveito ao máximo essas regalias posando de justiceira e paladina dos preceitos de Deus.
Amém.


Com vizinhos idosos

Uma dica preciosa: antes de se mudar para um apartamento ou casa, certifique-se de que não há vizinhas velhas num raio de alguns quilometros acima, abaixo ou em volta de sua nova morada.
Elas são pior que praga: estão por toda parte e são insuportáveis. E o pior é que, uma vez instaladas, elas só saem do aconchego de seus lares num caixão.
Implicam com seus amigos, com suas festas, com seus filhos e, pecado imperdoável, com seus sapatos de salto.
Para lidar com esse tipo de “ser-humano menor com o pé na cova”, alguns conselhos:

- Nunca as deixem entrar em sua casa e nunca entre na casa delas. Parece que esse é um código velado entre as provectas: se vocês passarem a se frequentar, automaticamente, passam a jogar no mesmo time, o das velhas chatas sem função na vida.
- Caso a vizinha velha implique com suas festas e vizinhos, banque a educada à moda antiga e a convide para o próximo rega-bofe. Ela vai ter que engolir o seu ato de fineza e não terá espaço para reclamar de algo que ela também foi incluída (isso em sua cabeça gagá).
- Se o alvo é seu filho, daí é hora de deixar a “avestruz” de lado e incorporar a “Nelore” que habita sua alma. Diga sem arrependimento que você não pretende repreender os seus porque quer que eles crescam com mais liberdade e carinho que os dela, pra que, num futuro remoto, você não acabar como ela: velha, chata e abandonada. Se, por um acaso, ela argumentar que tem filhos maravilhosos que não a abandonaram, olhe em volta, apalpe os bolsos e diga na maior cara-dura: “Cadê que eu não tô vendo?”. Caso ela ainda insista que sua (a dela) família é maravilhosa e que, além de filhos incríveis, ela também tem uma renca de netos igualmente incríveis e EDUCADOS, daí parta para o contra-ataque cego e diga: “Não me diga: foram adotados?”. A vantagem de tripudiar idosos é que eles não têm corpo nem espírito para vinganças sórdidas posteriores.
- Agora, se o mais grave acontecer e a vizinha reclamar dos seus saltos altos martelando em seus tímpanos, a vingança deve vir a galope e a pontapés. Nenhuma mulher deveria implicar com a vaidade de outra mulher. Mas como mulher não é mesmo leal nem confiável, faça com que ela, literalmente, perca a sanidade e lamba o chão em que você pisa. Como? Simples: deixe ela reclamar uma vez. Com toda a calma, diga que não é você a causadora desse desconforto e continue a martelar a paciência da velha com seus saltos-agulha. Deixe ela reclamar duas, três, quatro vezes. Repita a mesma resposta. Na quinta vez, combine com seu marido, namorado ou mesmo uma amiga o seguinte plano: você vai calçar uma pantufinha bem macia, vai descer um andar e tocar a campainha da cretina. Enquanto isso, seu cúmplice vai ficar de quatro com seus sapatos de salto nas mãos e vai caminhar pesadamente como se fosse um pit-bull por toda a extensão da sala. Então, você com cara de inocência dirá: “minha senhora, eu só ando de pantufas em casa e, olha só que coisa, eu estou aqui falando com a senhora enquanto esse barulho infernal continua em algum ponto deste edifício. Lá na minha casa, só está o meu marido que, até onde eu sei, não usa salto. Ou seja: NÃO sou eu quem azucrina a sua vida. Tá compreendido? Passar bem!”. Nesta hora, até vale entrar para um cafezinho como pedido de desculpas da vovó. É infalível!




Na repartição pública

Não há ser humano que nunca tenha se aborrecido com servidores públicos.
Aliás é normal e até um bom sinal. Isso quer dizer que você não é um deles.
Mesmo porque eles fazem de propósito; são preparados, fazem curso de como enlouquecer o cidadão de bem que, por uma desgraça, venha a precisar dos serviços de uma repartição pública.
Quando isso acontece, não há muito sobre o que elocubrar.
Pelos meus anos de experiência em como lidar com “seres-humanos menores”, posso dizer de cátedra que essa espécie é a mais diminuta entre todos os “seres-humanos menores”. Trocando em miúdos, aqui, mais do que em outro caso, não adianta lançar mão de estratégias subjetivas e/ou sutis. Tem é que afogar de vez o “avestruz” engolidor de sapo e meter o pé na porta.
Você, obviamente, chega com toda a delicadeza e finesse que lhe é peculiar. Em retorno, não vai encontrar criaturas grossas ou mal-educadas, e sim uma gente preguiçosa, indolente e, via de regra, incompetente. Incompetente porque nunca teve como exercitar suas funções por total falta de oportunidade.
Daí o serviço é lento, as respostas esdrúxulas e desencontradas e você terá a nítida sensação de que estão te fazendo de bobo.
Você vai tentar argumentar, formar um raciocínio razoável dentro da sua cabeça, procurar sentido naquilo tudo. Em vão. O interlocutor estará impávido na sua frente com aquela pecha de “Não posso fazer nada.”.
Conte até três e então você saberá que é a hora da barbárie.
Caso você esteja acompanhada nesta odisséia, vire para sua companhia e diga em bom tom: “Acho que eu vou meter a mão na cara deste (a) imbecil” e volte ao diálogo como se nada fosse.
O funcionário público, ou ficará mais paralisado ainda ou se chocará com o que acabou de acontecer e finalmente mexerá suas ancas enferrujadas em busca de uma solução para os seus problemas.
É tiro e queda.
Se você estiver sozinha, melhor ainda: diga a mesma frase para seu amigo imaginário.
O impacto será ainda maior.



Na loja

Ser ignorada por uma vendedora quando, na verdade, você está disposta a torrar suas economias naquele estabelecimento é, no mínimo, um ultraje.
Nestas horas, sempre me lembro das palavras sábias de minha mãe: “Se fosse esperta, não seria vendedora. Seria a dona!”.
Aqui vale uma observação: há uma diferença significativa em relação à natureza e à estirpe da loja.
Numa loja popular, convém relevar alguns embates, mesmo porque essas lojas sempre contam com compradores de mais e vendedores de menos. Mas caso o descaso tenha passado dos limites, a velha mímica em frente à vendedora resolve tudo: pegue a infeliz pelo braço, olhe bem em seus olhos, coce a barriga e bata na cabeça como um macaco e diga bem pausadamente: “Uga-uga…. Vendedora – fala – minha - língua?”
Pode escrever: seja uma geladeira ou uma blusinha de helanca, ela será sua com um desconto considerável.

Já numa loja metida a besta, não há nenhum segredo: depois de 15 minutos de total descaso por parte das vendedoras luluzinhas, solte um enfadonho e maldoso: “Ô balconista…por favor, você pode me atender?”.
Não garanto desconto no tailleur Chanel, mas que você será lembrada para todo o sempre naquele estabelecimento, isso sem sombra de dúvidas.


No telemarketing

Este item me dá urtigas só em pensar. Como são incovenientes essas vozes sem corpo que azucrinam nossas vidas, não?

Quando o telemarketing é de prospecção, nem me dou ao trabalho de dar trela. É muito fácil farejar quando uma ligação é de empresas ou associações filantrópicas de olho no seu rico dinheirinho. Pra esses eu digo que a Regina acabou de falecer e caio no choro ato contínuo.

O pior é quando o cartão de crédito, a tv a cabo ou o celular dão chabu e você precisa colocar em pratos limpos que você está em dia com suas obrigações e que o erro, óbvio, é deles.
Aí nem adianta colocar panos quentes. A “Nelore” deve ser incorporada por completo e fazer o serviço de “vaquice” de cabo a rabo.

Vale dizer que eu, inclusive, certa vez fui convidada a me retirar da lista de usuários de um cartão de crédito porque, segundo os advogados do referido, causei danos psicológicos irreparáveis à “profissional” de telemarketing, e que ela agora sobrevive a base de tranquilizantes.
Nem pude me defender dizendo que tal acusação era infundada porque estava tudo gravado e documentado.
Quer dizer: muito cuidado com o que vai falar pra essas vozes sem corpo porque são todos uns fragilizados que não aguentam meia dúzia de verdades jogadas na cara.

Bom, mas como de cada revés extraio lições para a vida, esse incidente me mostrou que não devemos atacar “a pessoa” e sim “a organização”.
Assim sendo, conseguimos retirar das próprias vozes sem corpo confissões desabonadoras a respeito da instituição. Todos têm reclamações a fazer. Mesmo porque são “profissionais” muito explorados, ganham salários de fome e são obrigados a falar com todo tipo de gente. É um trabalho ingrato e insalubre.
Uma vez quebrada a barreira, ter essas vozes como aliadas facilitam muito para que alcancemos nosso intuito de provar que todas essas empresas são capengas e incompetentes para, por que não, eventuais processos de danos psicológicos irreparáveis à minha singela pessoa!
Agora, não podemos ser polianas e achar que todo operador de SAC ou telemarketing é flor que se cheire. Tem muita gente grossa nesse ramo que merece ouvir umas poucas e boas! Quando for esse o caso, não seja burra e nem se faça de rogada. Use a ofensa certa, aquela que é como um crime perfeito, aquela que não dá brecha nem pro melhor dos advogados provar que você ofendeu a pobre voz sem corpo. Diga: “minha querida, você não tem culpa de ser o que é. Nem eu. Então baixe a bola, por favor”. Uhhhh!!!! É como um tiro à queima-roupa... e por legítima defesa, o que é bem melhor!

Bem, trocando em miúdos: olho vivo e língua afiada quando o assunto é telefone e serviços executados nas coxas.
Eu, particularmente, quero que todas essas instituições explodam pelos ares.
Bando de mercenários!

Na gravidez

O que deveria ser um período de plenitude feminina via de regra se transforma num pesadelo de nove meses com direito a prorrogação “ad eternum”.
A gravidez em si não costuma ser problema. O problema são os outros: marido, pais, sogros, amigos, enfim, a sociedade como um todo.
Você de repente se vê no centro de uma série de cobranças alheias, como se já não bastasse as suas próprias cobranças.
Senão vejamos:
1. existe a obrigação de ser uma grávida exemplar daquelas que só comem coisas saudáveis, não engordam além da conta e se mantêm radiante durante todo o processo.
2. existe a obrigação do parto natural com todas as implicações dolorosas que isso acarreta. Ai de você se quiser optar por uma cesariana programada e externar esse desejo aos chatos de plantão. Seu filho nascerá pela boca!
3. existe a obrigação de não entrar em depressão pós-parto, de não cair no choro e não fazer cara de dor enquanto dá de mamar, coisa que só quem já pariu sabe que é impossível.
4. Existe a obrigação de voltar ao peso normal em, no máximo, três meses porque senão você será acusada de desleixada, matrona e trubufu.
5. Existe a obrigação de voltar ao trabalho o mais rápido possível e se mostrar melhor profissional que antes, além de ser uma mãe exemplar (aos olhos do filho e do resto do mundo).
6. Existe a obrigação de criar magistralmente o rebento pra não ser acusada de ausente pelo filho e pelo resto do mundo.
7. Existe a obrigação de expandir seu repertório de assuntos pra não ser acusada de mulher bitolada e espantar amigos e eventuais paqueras.

Ufa!

Agora, se alguém vier te encher o saco além de todo o perrengue existencial listado acima, a sugestão é virar para o agressor com a cara mais alucinada do mundo e dizer em tom de desvario: “Toda mãe é louca, eu sou mãe, portanto eu sou louca, por isso vou te matar AGORA usando meu filho como munição!”
Dito isso, grite e pule no pescoço do ser desprezível que te deixou assim.
Depois acione o advogado para quaisquer possíveis processos de retirada da guarda do seu pimpolho.


Com gentalha preconceituosa e racista

Parece piada, mas a população iletrada do mundo não acha que chamar japonês de “japonês” seja um ato de racismo e preconceito.
Por alguma razão que me foge completamente a compreensão, pra essa gentalha japonês é japonês e ponto final. Não há o que discutir.
Concordo. Assim como preto é preto, alemão é alemão, judeu é judeu, viado é viado e gordo é gordo.
Então nem me avexo: se escuto algo como “Aí japa... vai pagar em cash ou no cheque?” ou então “Depois da japinha, ande 100 metros e vire à esquerda”, eu logo retruco: “O preto pederasta tem troco pra 100?” ou “Além de manco é disléxico? É à direita e não à esquerda, excepcional! ”.
Esta tática é infalível, afinal TODO mundo tem alguma característica peculiar e chamativa. (para as exceções existem os termos “mosca-morta”, “cafezinho-frio”, “songamonga” entre outros).
Ofensas não faltam, graças a Deus!


Ataques-padrão para qualquer eventualidade

Diariamente nos vemos em situações desagradáveis por conta da imbecilidade alheia. Não há como fugir dessa praga. Os idiotas são piores que os ácaros.
Nocivos até a alma, temos que eliminá-los antes que eles nos eliminem.
Mas existem armas simples e poderosas que são capazes de desestruturar até o mais resistente dos idiotas sem que, pra isso, tenhamos que fundir nossa cuquinha pensando numa resposta boa a cada ataque.

-gente burra: é o tipo mais irritante. Você pode perder horas e até dias em vão tentando fazer com que essas criaturas ajam com bom-senso e coerência. Não adianta gastar saliva, temos que atacar na mais superficial das camadas do ego: troque o nome do (a) infeliz.
Por exemplo: se a secretária burra se chama Sheila, insista em chamá-la de Shirley. Uma hora ela vai surtar e dizer: “Meu nome é Sheila e não Shirley!!!”. E você dirá: “Que seja! Quem se importa?” Cruel.

-gente escrota: é o tipo mais perigoso. Com esses, todo cuidado é pouco, mas existe uma fórmula que é tiro e queda. Todo escroto tem o rabo preso e teme que tanta escrotice respingue em seus entes queridos. Assim, dê uma de paranormal, aja sempre como se soubesse mais do que sabe e, no final, dê um jeito de colocar a mãe do sujeito no meio.
Por exemplo: o escroto quer te passar a perna e levar vantagem numa transação financeira. Lute limpo até onde puder e, quando a coisa ficar fedida demais, páre, feche os olhos, concentre-se e faça uma cara de preocupação. Então diga consternado: “A tua mãe tá doente? Não? Que estranho... eu tive uma visão tão clara...você sabe que eu sou clarividente, né? ...agora tudo faz sentido... esse dinheiro tem que ir pra você mesmo... logo, logo você vai precisar muito dele... pra comprar remédios pra tua pobre maezinha, coitada... puxa... tô péssima!”

-gente inútil: eles não são nem tão burros e nem tão escrotos, só inúteis até o rabo apitar. Gente que não sabe a que veio, que não diz coisa com coisa e fica parada quando a fila tem que andar. Tudo sem querer. Pra essa gente, só tem uma solução: dar um tapão e tirá-los da frente com se fossem moscas-varejeiras, antes que elas botem ovinhos na sua comida. Tudo sem querer.

-gente fofoqueira: se o peixe morre pela boca, tem muita piranha de 1,60m por aí que bem merecia acordar com formigas entre os dentes.
Portanto, falou de você, fale de volta.
Mas fale algo que seja matador. Algo que deixe a moral da piranha em questão mais afogada que as vítimas do Bateau-Mouche.
Por exemplo: a vizinha fofoqueira anda espalhando no condomínio que a tua vida sexual é, digamos, volúvel? Ah, não tenha dúvidas: espalhe que você já deu várias vezes pro marido da fofa, inclusive na frente dela que, apesar de frígida, adora tocar uma siririca vendo o marido rebolar numa bela cinta-caralha.
Detalhe: providencie uma cinta-caralha considerável antes de espalhar o boato e diga tudo isso com a dita-cuja em mãos.
Já que você criou a fama, aproveite! Aposto que o casal se muda em menos de duas semanas. Pra outra casa ou pro cemitério. Ou talvez, o marido em questão queira se mudar para a tua casa. Daí é contigo!



Contornando a gafe e dando a volta por cima

Todo mundo já se viu naquela incômoda situação de falar coisas que não deveriam ser ditas naquela hora e local.
Como por exemplo zombar de algum “ser-humano menor” que tenha acabado de fazer alguma bobagem e que, por azar dele, esteja no mesmo recinto que você.
Nestes casos, a clássica “Quem foi que fez uma merda dessas?” pode se tornar uma enorme saia-justa caso o cretino não se aguente em si e diga: “Fui eu, por quê?”.
A não ser que você tenha jogo de cintura para se livrar da vestimenta incômoda (não que não seja providencial e nem salutar ofender mesmo e fazer com que o imbróglio humano saiba que fez besteira e atrapalhou os mais elevados, mas sabe como é: um pouco de educação, às vezes, é bem-vindo). Assim, pra não perder a fama de implacável e nem baixar a guarda, olhe com desprezo o ser desprezível e diga somente: “Ah, entendi tudo.” E saia às gargalhadas.
O outro vai se matar pelas tuas costas.


Encontrando algum “ser-humano menor e esquentado” pela frente

Como tudo na vida tem consequências e é de bom-tom arcar com as que nos tangem, é importante saber que língua afiada atrai gente moralista e/ou esquentada.
O que mais tem neste mundo é gentalha politicamente-correta e aqueles que não podem ouvir umas verdades que já vão logo apontando um trabuco ou um facão na sua direção. Não sei qual espécime é a pior.
Em ambos os casos, saibam que a morte é acessório de série.
Quando nos deparamos com os moralistas politicamente-corretos, a morte vem em forma de suicídio. Porque não dá pra escutar sermão desses “seres-humanos menores” sem querer pular da varanda ou cortar os pulsos com caco de vidro.
Já com os esquentados, o buraco é mais embaixo. Uma dica: não esmoreça e nem baixe a guarda. Vá até às últimas consequências defendendo o seu ponto de vista, fazendo troça do tamanho do três oitão do sujeito, sendo cínico até o idiota não suportar mais e te meter uma bala nos miolos.
Daí é só colher os louros: nada melhor do que morrer com um risinho irônico no canto da boca sob a pecha de estóico, forte, de princípios arraigados, como um verdadeiro herói sabendo que o outro, o fracote, vai apodrecer na cadeia por conta dessa falha de caráter.
E do paraíso, você terá a eternidade para filosofar em cima das idiossincrasias do universo:
“Por que alguns são tão estúpidos e outros beiram o genial?” e “Por que, graças a Deus, faço parte da segunda facção? Por quê?”

Fim.

ficamos muito felizes com a sua presença, obrigado (romance camp-abusado)



1.
Algumas pessoas são feitas perfeitamente à imagem e semelhança de Deus.
Outras são visivelmente superiores.

No que tange à crendice popular, Miquelina Sanchez Matosinho é imbatível.
Noventa e sete anos de estudos empíricos sobre o tema a fizeram autoridade máxima. Pela vida, entre outras coisas, já curou gente de hepatite daquela que mata, fez mongolóide virar galã de novela e, feito dos feitos, reverteu o útero seco da filha Socorrinho e brotou lá dentro quatro bebês: Isolda, Isidoro, Ismênia e Izilda. Todos lindos, uns mais, outros um pouco menos, e inteligentíssimos. Exceto por Ismênia e Isidoro, os gêmeos do meio.

Nascidos de fórceps, até hoje não há explicação médica que convença a gente esclarecida da razão de um parto tão traumático para, no fim, virem a este mundo dois retardados mentais.
Dito assim, parece agressivo, mas não é: Ismênia e Isidoro quase não falam, quase não interagem, quase nunca são relevantes. Por essa razão, pouco falaremos deles dois no decorrer do relato, também em respeito à família Sanchez Matosinho que, para ultraje das ONGs em prol dos direitos das minorias físicas e intelectuais, sentem vergonha, sim, de terem dois filhos songamongas no seio de sua mui tradicional moral classe-média-alta.
Fazer o quê?

O fato é que alguns dos netos de Miquelina sempre foram bastante questionadores -a ponto de à certa altura da vida debochar dos dotes metafísicos da avó que sofre calada, já que jamais proferiu contra seus tesouros aquelas pragas todas que, os que são espertos sabem, são tiro e queda.
Porque, assim como já tirou muita corda do pescoço alheio, dona Miquelina também entrevou, cegou e aniquilou muita gente promissora por puro orgulho ferido.

Voltemos algumas décadas.
Quando Maria do Socorro Sanchez Matosinho, a filha mais velha de Miquelina e do respeitadíssimo advogado civil Doutor Darcy Matosinho, soube que não podia engravidar, foi um deus nos acuda.
O marido, Dagmar Solimões –“um pobretão sem berço que a Socorrinho achou no lixo” como diz a Miquelina em fúria- chorava de soluçar consolado pelo sogro, Doutor Darcy que, por incrível que fosse, estava calmíssimo, talvez antevendo que aquilo era pinto perto das escabrosidades que dona Miquelina já havia resolvido. Dito e feito: assim que soube do diagnóstico –útero seco- dona Miquelina primeiro riu, depois fechou a cara, os olhos, murmurou algo na linha de um mantra da Seicho-No-Iê por uns dois minutinhos e saiu comemorando: “Na falta de um, teremos três netos, Darcy!”
E não é que nove meses cravados a partir daquilo tudo, nasceram não três, mas quatro lindos beberrotes a berrar de cólicas! Esse tropeço de cálculo não agradou de todo dona Miquelina, nada chegada a margens de erro, mas como é sempre melhor pecar pelo excesso do que pela falta, a velha se juntou à turba e comemorou feliz os quadrigêmeos que teriam nomes todos começados por “i”. “I” de “Impossível não existe para Miquelina Sanchez Matosinho”, como gostava de repetir a própria.

Durante os anos que se convencionou chamar de infância, os quadrigêmeos diversificaram as feições e experiências. Cresceram felizes e alheios ao sufoco que foi para todos sustentar e limpar quatro bocas e quatro cus de uma vez, algo aparentemente fácil, afinal quantos já não passaram por essa experiência quadruplamente fantástica na vida e saíram vivos e felizes? Pois esse, em absoluto, não era o caso da Família Sanchez Matosinho Solimões. Pais cansados, pra não dizer arrependidos e um tanto revoltosos; avós educados demais pra dar o braço a torcer e admitir que existiam formas bem mais prazerosas de torrar as economias além da glória que era comprar fraldas a granel toda semana; e crianças insuportavelmente infantis sem nenhuma pausa providencial, por mínima que fosse, em algum segundo do dia.
Parece que a única a questionar a existência da tal infância foi mesmo Izilda, a quarta quadrigêmea.
Izilda foi a última a nascer e, por isso mesmo, a menos esperada. O carisma, também não era lá essas coisas, mas uma coisa há de ser dita: seus irmãos eram de fato umas graças, inclusive “aqueles” e concorrer neste quesito não era tarefa fácil, de modo que Izilda não era uma criança medonha de jeito maneira, só um pouco ofuscada.
Mas problema de verdade surgiu foi mesmo na adolescência. Ali, o que tinha alguma esperança de vingar, foi pro saco junto com os quilos de fraldas que todos eles, sem exceção, teimaram em usar até os onze anos. Izilda, apesar de ser aquela a desenvolver os traços mais finos e delicados dentre as três moçoilas (além do tenro rapaz), passou a cultivar um chocante, incoveniente e espesso buço lá por volta dos treze, quando as meninas viram mocinhas. Buço tal que chegou até a ser festejado por parte da família – a Matosinho, notoriamente lusa e adepta ao culto dos pêlos pelo corpo - antes de fazer derramar os rios de lágrimas que encheriam, fácil fácil, hidrelétricas de médio porte durante os anos negros que afundaram de vez a alegria de viver de Izilda Sanchez Matosinho Solimões.
A família, graças a deus muito bem de vida por crédito de uma loteria que veio bem a calhar e que quase enfartou o Doutor Darcy, tentou de tudo. Laser, cera fria, loção de nêsperas… mas nada demovia os folículos capilares da região central da face da Izilda.
Tudo isso somado à graciosidade de seus três semelhantes, minou a auto-estima da pobrezinha. Izilda cresceu à sombra de sua própria personalidade. Andava na rua fitando o chão e toda vez que algum estranho tentava aproximação com segundas intenções, elas nunca saíam das primeiras, pois o susto causado com o simples erguer de cabeça era tanto que muitos saíam andando sem olhar pra trás; outros tinham a delicadeza de se desculpar e uns poucos, felizmente dois ou três nestes anos todos, tentaram arrancar o mal pela raiz, transformando a fronte da moça em algo parecido com um pastel inchado, arroxeado e pincelado de fiapos negros recheado de dentes. Um horror.

2.
De uns tempos pra cá, Claudinho Souza Santos, partidão da região do Vale do Paraíba, incutiu na cabeça que é hora de sossegar o facho de solteirão convicto. Sua mãe, uma socialite que nunca teve cacife para brilhar em outras paragens a não ser o Vale do Paraíba, encontra-se em pânico com a decisão. Lourdinha B. S. Santos, sua alcunha, ensaia até umas noites de insônia pensando que pistoleiras dos quatro cantos da nação, sabendo dos milhões do clã S. S., lançarão mão de estratagemas dos mais baixos para fisgar sua cria.
Ouvindo falar dessa maneira, o leitor pode até supôr que Claudinho Souza Santos seja um homão desses irresistíveis e cafajestes, mas a verdade é bem outra.
Claudio Souza Santos, Claudinho como se instituiu chamá-lo, filho do maior usineiro do já comentado Vale do Paraíba, Plínio de Azevedo Souza Santos com a decoradora de interiores Maria de Lourdes Barbosa Souza Santos, mede pouco mais de um metro e sessenta e cinco. De estatura e estrutura franzina, Claudinho teve uma infância retraída (apesar dos esforços de sua mãe que, no fundo, preferia um filho autista a um feio) e só perdeu a virgindade aos vinte e três por isistência da mesma mãe. E nem foi pela vergonha de sua miudez. Antes fosse: quando o rapaz completou doze anos, Lourdinha o levou a um especialista a fim de lhe injetar uns quinze centímetros na altura a base de doses cavalares de hormônios masculinos. Não obteve resultado. Ou melhor, obteve sim: pêlos. Pêlos grossos, compridos e negros por toda a extensão de seu corpo: das sobrancelhas que se uniram acima do nariz, até o dedo do pé que, devido à pelagem, aumentou em um número o calçado do rapaz.
Por essas e outras, não é de se estranhar que, mesmo sendo um jovem pacato e tímido, Claudinho Souza Santos demorou tanto a querer se casar. Mas a questão é: apesar da facilidade em arranjar quem o queira acrescido dos milhões na conta bancária, terá Claudinho coragem de se entregar de alma e corpo a uma moça e acreditar que há amor ou, no mínimo, química sexual entre os dois? Quem será a escolhida? Uma zoófila?
Lourdinha já nem come mais remoendo essas idéias, como se, há trinta anos, não fosse ela a pistoleira da hora. Mas, como antigamente as coisas eram bem mais fáceis, pêlos não constava da lista de revezes do então jovem mas não menos trouxa Plínio de Azevedo Souza Santos.

3.
Quando criança, dona Miquelina tinha sonhos estranhos que não entendia. Sonhos turbulentos, malucos, que deixavam a cama ensopada e o coração acelerado. Pensava que ia morrer, mas se morrer fosse tão bom, já sabia o que seria quando crescesse: suicida.
Um dia, resolveu averiguar de onde saía aquele aguaceiro todo, percorreu o rastro no lençol e chegou até à boceta que na época respondia por “florzinha”.
Pensou que sofria de incontinência urinária e padeceu sozinha com a idéia de voltar a usar fraldas. Que nada. Mijar era bom mas não proporcionava aquela sensação de vapores e calafrios ao mesmo tempo que dava vontade de chorar de alegria. Era um mijo potencializado, mais encorpado, que parecia vir não da bexiga, mas da alma. Fosse o que fosse aquele líquido todo, Miquelina queria mais. Quando finalmente descobriu do que se tratava, era tarde demais: já estava comprometida com o jovem Darcy Matosinho.
Como advogado em formação, o noivo não tinha tempo para assuntos carnais. Resultado: a noivinha foi secando, secando até virar uma passa humana. O desejo continuava ali, mas sem ter por onde, Miquelina não viu outra alternativa a não ser pensar em outras coisas. Foi assim que virou essa sumidade do ocultismo que é hoje.
Se for contar nos dedos o número de orgasmos da Miquelina, além daqueles maravilhosos do tempo de menina, eles coincidem com o número de filhos que teve. Dois. Um orgasmo chamado Maria do Socorro, como sabemos, e um outro posterior de nome Modesto.

O que dizer de Modesto? Por hora, pouca coisa. Um sujeito discreto e que teve a sorte de ter um nome que diz tudo sobre sua pessoa. Modesto é modesto, mas, no seu caso, essa característica não determina qualidade. Modesto é modesto porque não tem mesmo muito do que se gabar. Não se sobressai na profissão, nem no físico, nem no intelecto e nem em outras categorias que fazem do homem comum, um ser especial.
Modesto não se casou por N fatores. Primeiro, porque não surgiram pretendentes. As poucas que esboçaram interesse, foram afujentadas por Miquelina que passava a ter visões desabonadoras de todas elas. Segundo porque é gay. Isso, até agora, é segredo. Modesto, por ser modesto, não dá pinta. Ninguém diz que um sujeito tão sem atrativos como aquele pode ser gay. Ninguém mesmo.
Tio Modesto, como é chamado em família, não gosta de festas de família. Não bebe, não fuma e quase nada tem a ver com aquela gente toda. Seu maior desgosto na vida, mesmo que não admita nem sob tortura, é ter uma irmã chamada Socorro. “Que tipo de mulher tem a infelicidade de se chamar Maria do Socorro e deixa que a chamem de Socorrinho?” Se fosse ele, já teria entrado na justiça e mudado de nome há muito. “Essa mania de colocar na mulherada esses nomes de lugares ermos onde a Nossa Senhora resolveu dar as caras nunca foi boa idéia”.

4.
Plínio de Azevedo Souza Santos já nasceu milionário.
Seu pai, um engraxate que virou o “rei do açúcar mascavo” em incríveis três anos, deu ao filho único uma vida de pachá.
Sempre o mais bem-vestido da escola, o do cabelo mais bem cortado do bairro, Plínio era o genro que toda sogra pedia a deus. “Um príncipe!”, repetiam as mães das coleguinhas do científico. O problema é que esse assanhamento todo só ficava no nível das progenitoras. As meninas não davam a menor pelota para o pequeno magnata e isso, obviamente, provocou um vazio que nem tudo o que o açúcar mascavo podia comprar preenchia.
Assim, Plínio cresceu com a sexualidade descalibrada. Aos vinte e quatro, virgem sem querer ser, só conseguiu furar o desbloqueio psicológico quando conheceu Lourdinha Barbosa.
Lourdinha Barbosa, paulistana do Tatuapé, era famosa na Zona Leste. “Miss Porca Dentada 1974” eleita pela “Associação das Retíficas de Motores de Grande Porte do ABC”, a moça era um pedaço de mau-caminho. Mau, muito mau.
De infância pobre e pais desajustados, Loudinha era realmente linda e nada confiável. Aos dezesseis, já havia visto e vivido mais coisas que muita puta velha dos tempos da Mãe Joana.
Esperta como poucas, sabia usar seu único trunfo –a beleza- com uma destreza exemplar. Conhecia de cor a ficha completa de todas as cinquenta maiores heranças do sudeste com menos de vinte e cinco, e não media esforços para armar um encontro tète-a tète com a maioria deles.
Depois de vinte tentativas frustradas com playboys desalmados que, sabendo da fama desabonadora da beldade só a queriam para o sexo, Lourdinha literalmente caiu no colo de Plínio de Azevedo Souza Santos.
De passagem pelo Vale do Paraíba em missão diplomática como “Miss Porca Dentada 1974”, Lourdinha virou a fixação erótica de Plínio. E, num evento cujo palco era bamba, a representante máxima da beleza operária do ABC prendeu o salto num sarrafo mal fixado e pum! caiu de boca em cheio na braguilha endurecida do ricaço.
Daí pra frente, a coisa deslanchou. De “Miss Porca Dentada” a “Princesinha do Açúcar Mascavo” foi um flash e, antes mesmo da maioridade, Lourdinha Barbosa Souza Santos já estava pronta para parir o herdeiro de todas aquelas toneladas de açúcar semi-refinado: Claudinho Souza Santos.

5.
Este é um dia triste na casa dos Sanchez Matosinho.
Doutor Darcy acaba de morrer. Morte estranha que, por conta da influência da família, será abafada por completo. Caixão lacrado e tudo.
Para todos os efeitos, o digníssimo Doutor Darcy morreu de mal súbito. Não deixa de ser verdade, mas o que anda correndo à boca pequena é que ele teve um peripaque em cima de uma sirigaita qualquer daquelas que ele empregava na “Matosinho e Matosinho Associados S/A”, o escritório de advocacia que ele mantinha com o irmão Durval, também advogado dos bons.
Essa “sirigaita qualquer” merece um parágrafo à parte. “Sirigaita” sim, “qualquer” não. Rosiclair Barbosa, vinte e cinco anos, sempre quis ser advogada. Apesar do intelecto a desejar, a moça era dada a devaneios idealistas -acreditava realmente na importância civil de um advogado no seio de uma sociedade saudável. Mas, devido à pouca sinapse, Rosiclair só conseguiu vaga numa dessas faculdades obscuras com nome corruptelado. É claro que a facção abastada da família teve que intervir para que conseguisse estágio em algum escritório de renome, caso contrário, não chegaria nem à porta da cadeia. Foi assim que a tia Lourdinha Barbosa, a irmã rica de sua mãe Luzinha, foi convocada para botar a mão na massa.
Lourdinha, nossa velha conhecida, apesar de brilhar apenas no circuito do Vale do Paraíba, tinha alguns bons contatos na capital dos tempos em que era apenas uma pistoleira à procura. É dessa época a ligação de Lourdinha com Doutor Darcy que a socialite tratou de reatar no ato, só para não importunar o marido rico com sua família jeca.
Não, Lourdinha e Darcy não tiveram um caso, apesar dos esforços deste em. Lourdinha já tinha alvo definido e, garota obstinada que era, não iria gastar energia em outro foco. Assim, Doutor Darcy foi apenas um amigo fortuito dos tempos de vaca magra. Depois disso, ambos prosperaram e nunca mais se cruzaram. Até a sobrinha Rosiclair precisar de um estágio há uns 5 meses.
Lourdinha, que de tímida não tem nada, nem se importou com as décadas em branco e ficou dando searchs na internet até descobrir o telefone do velho amigo.
Doutor Darcy, inesperadamente, se mostrou bastante receptivo e acenou com uma vaga na hora. Ficou um pouco reticente quanto à aparência da indicada mas no dia seguinte, quando a estudante se apresentou para a entrevista, Doutor Darcy ficou bastante aliviado, para não dizer aceso.
De modo que ninguém, fora a família e os asseclas, sabe que o respeitadíssimo Doutor Darcy morreu em cima de Rosiclair.
Pobre Rosiclair, nem imagina que esse incidente no currículo pode garantir a ela um futuro tão rosa quanto o de sua tia Lourdinha. Dentro de alguns dias, ao abrirem o testamento do Doutor Darcy, todos saberão que sua parte nos negócios irá parar nas mãos da estagiária aplicada sem pausa nem escala. Vontade do falecido.
A partir daqui, o respeitado Doutor Darcy se transformará no “filha da puta do Darcy, aquele ignóbil que cuspiu na cara da família depois de morto; aquele que trocou seus entes queridos por um rabo de saia barato de tecido sintético”. Doutor Darcy já era.

6.
Modesto e Socorrinho, além de órfãos, agora estão em maus lençóis financeiros.
Modesto nem tanto, porque nunca foi dado a luxo e ostentação. Pra ele, os cinco salários que ganha como auxiliar na mesma empresa de que fora herdeiro um dia bastam. Sua permanência na recém-rebatizada “Barbosa e Matosinho Associados SA” é encarada pela Doutora Rosiclair como amostra de sua benevolência e que mágoa é coisa que existe só do outro lado da história.
Já Socorrinho, que além de perdulária tem quatro bocas e quatro cus pra alimentar e limpar praticamente sozinha (uma vez que Dagmar está desempregado há uns bons seis anos), está descabelada de desespero. Mesmo com os filhos adultos, os gastos continuam altos. E para quem um dia foi criada a pão de ló, se acostumar com pãozinho sovado não é bolinho.
Socorrinho, desde o terrível acontecido, passa suas noites a arquitetar mil modos de levantar dinheiro enquanto Dagmar só faz roncar. Até que na noite passada veio a luz: vender o único bem que sobrou do espólio: a mansão dos Sanchez Matosinho. O único empencilho é Dona Miquelina, mas esta, supõe Socorrinho, não vai criar objeções de ir morar num confortável asilo. Afinal de contas, resta o quê? Dois, três anos de vida? Isso com otimismo.

7.
Dona Miquelina não se conforma até hoje por não ter antevisto a presepada que “aquele filha da puta” estava aprontando pra ela. Também pudera: sempre fora muito mais dada às causas alheias do que às suas próprias e, com quatro netos a atazanar as pestanas, nem mesmo a Zora Yonara farejaria uma sujeira daquelas.
Depois de algumas noites de desespero e descrédito total na raça masculina, Miquelina resolveu que já é hora de dar a volta por cima. Aos poucos, aqueles mesmos sonhos que sonhava na época do colégio voltaram a alegrar suas noites e, como já não há mais pra quem preparar a janta, a viúva pode cair nos braços de Morfeu mais cedo todo dia.
Isolda, a gêmea mais velha, resolveu morar com dona Miquelina desde a morte do “filha da puta”. Não conhece mesmo a avó que tem: acha que, se deixada sozinha, dona Miquelina pode cometer algum desbaratino.

Isolda é a perdida da família. Entregou-se aos rapazes em tenra idade e foi jogada no limbo também em tenra idade.
Dagmar acredita piamente que a filha é puta. Não diz nada porque não se sente no direito, já que não coloca um tostão dentro de casa e sempre foi um pai pra lá de ausente.
Os irmãos não têm tantos escrúpulos. Isidoro já quebrou os dentes de uns sete engraçadinhos que saíram contando pelo bairro detalhes da anatonia “símia” da garota. É débil, mas é homem. Isolda, inclusive, também não tem mais os dentes da frente devido a um acesso de moralidade do irmão biruta.
As outras meninas não dizem nada. Só ficam a imaginar como vai ser na vez delas, porque boceta peluda é marca registrada da família. Antes terem a mesma sorte da mãe que se casou com um banana discreto, do que cair nas mãos desses meninos sem coração que acham que boceta peluda não traumatiza quem as carrega.
Mas todo esse devio de conduta tem uma origem: aos nove, Isolda teve que escolher entre o cabaço ou a vida.
Ainda de chupeta e fraldas, numa bela manhã a guria surpreendeu ao menstruar no flocgel.
Aturdida, Socorrinho, prevendo o desconforto que seria o modess dentro do fraldão, não pensou duas vezes e enfiou um mini OB na criatura. Tudo parecia bem, mas no fim do dia, o OB simplismente desapareceu dentro da Isolda. Explicação médica: os movimentos peristálticos decorrentes do sugamento da chupeta, criaram um efeito tampão que, como uma mega-ventosa, engoliu o absorvente que ficou preso em algum lugar entre o hímen (infelizmente não elástico) e a garganta da infeliz. E, entre tirar por cima ou por baixo, optou-se por baixo. Assim, aos nove, Isolda Sanchez Matosinho Solimões já estava liberada para deitar na cama e criar a fama.

Voltando: Isolda está a morar com a avó e, é claro, notou os ruídos violentos que vêm do quarto da velha à noite e a surpreendente disposição desta a cada manhã despertada.
A princípio, ficou meio assim de perguntar o que é que rola, mas a curiosidade falou mais alto e, num belo dia, não se conteve.
“Vó, o que é que tá acontecendo?”
“Do que cê tá falando, criatura?”
“A senhora deveria estar de luto, não?”
“Ah…era só o que me faltava: uma neta vagabunda e moralista. Ai meu santo Padre Inácio!”
“Vó!!!! Eu só quero saber a razão dessa alegria toda. Tô te dizendo que se fosse eu, tava chorando embaixo da pia sem parar até hoje!”
“Pois é. Essa é a diferença. E eu lá sou mulher de ficar chorando em cima do corpo de salafrário que me chifrou e me deixou com uma mão na frente e outra atrás?”
“Vovozinha, meu amor. Então fala pra mim… o que acontece dentro daquele quarto? A senhora, por acaso, tá recebendo visitas noturnas pelas minhas costas?”
“Pelas suas costas? Essa é boa! Não te devo satisfações, Isoldinha. Nunca te perguntei sobre essa sua boceta laceada ou esse cuzinho despregueado que eu sei que você tem”.
“Vovó!”
“E não é verdade? Vai falar pra mim que é mentira? Vai, abaixa essa calça que eu quero contar as pregas”
“Chega! Não quero saber de mais nada. Faça o que bem entender. Dê enquanto é tempo, sua velha safada…nunca vi: noventa e sete anos na cara e agora resolve cair de paixão!”
“Que paixão?! Quem falou de paixão? É só sexo, minha princesa…paixão é aquela música da Rosemary!”
“Rose quem?”
“Rosemary, a nossa Dalida, a vedete da ditadura”.
“Quê que é Rosemary? Dalida?”
“Ai, iletrada…”

8.
“Mãe? Você não sabe: a vovó tá de caso”.
“Como assim, Isolda? Tá de caso?”
“É, tá dando toda noite no quarto dela!”
“O quê!?! Pra quem!?!”
“Sei lá, nunca vi o cara.”
“Ah, mas você é tonta mesmo, né Isolda! Eu te mando pra aí pra você vigiar a sua avó e você me diz que ela tá dando pra alguém que você não tem a menor idéia de quem é?
“De quem seja, mamãe…”
“Quê?”
“De quem seja. O correto é dizer ‘de quem seja” e não “de quem é”
“Ah, vá pro inferno, você! E vê se descobre quem é esse…esse…aventureiro!”
“Só mais uma coisa, mamãe. Quem é Rosemary que canta Paixão?”
“Rosemary…a nossa Dalida, por quê?”

9.
Claudinho Souza Santos resolve procurar uma agência matrimonial. Acha que essa é a melhor maneira de conhecer mulheres direitas que queiram se casar com ele pelo homem que é, e não pelos milhões de dólares que representa.
Acorda cedo, pega o carro do motorista (não o carro que o motorista dirige, mas o que o motorista possui, ou seja, um chevette horroroso 1985), e sai em direção à capital, bem longe do Vale do Paraíba, antro que, acredita, não há moça solteira que não conheça sua conta bancária.
Chega à “Loveland Matrimônios Inc.” pouco antes das 14h00 e preenche uma ficha detalhada sobre suas preferências e sobre o que não quer de jeito nenhum. Quando chega a hora de traçar um perfil sobre sua pessoa, esquece de citar seu problema hormonal; não fala um “A” sobre sua condição financeira e volta para casa bastante esperançoso.
Já em casa, sua mãe lhe comunica que, logo à noitinha, será servido um jantar para a prima Rosiclair, lá da capital, que subiu na vida e quer mostrar que agora faz parte da rodinha, “se é que você me entende”, e que seria bom se ele, Claudinho, estivesse de corpo presente porque, já que agora a jequinha faz parte da rodinha, por que não juntar o patromônio e fazer um casamento em família? Coisa que Claudinho, na atual conjuntura, até vê com bons olhos.
Aproveitando o restinho da tarde, o rapaz se empenha em parecer o mais apresentável possível. Até depilação no pescoço fez.
Na hora do jantar, com o coração a milhão, mãos suadas, Claudinho treme diante do mulherão que é a Rosiclair. Bem aparentada, ela sempre foi (vide o caso fatal do finado Darcy que não resistiu aos encantos da fofa), mas agora, com as roupas certas, o cabelo adequado, sem falar nas unhas lixadas , Rosiclair é mulher pra 300 talheres Christofle.
Lourdinha gosta do que vê, já vislumbrando netos lindos e altos; Plínio ainda mais, mesmo porque Rosiclair mantém no olhar aquela qualidade oblíqua de mulher não lapidada que ele tanto implica que Lourdinha havia perdido; já Claudinho, passada tensão inicial, também está inclinado a se engraçar com a prima. Só resta saber se por ela tudo bem.
O jantar corre dentro dos conformes: Janete, a criada, desta vez acerta o lado no serviço à francesa e não trouba com Tobias, o mordomo, e nem derrama molho pardo em nenhum dos convivas. Mas Rosiclair está um tanto trêmula porque percebe o teor da recepção, chegando a confidenciar aos seus botões de madrepérola que está se sentindo uma escrava branca negociada em praça pública. Até seus dentes são avaliados, com muita discrição é claro, pela prima chique. Pelo menos, pensa ela, passou no teste da finesse (que é o que mais importa). Ser aprovada pela prima Lourdinha e seus aparentados é uma vitória e tanto.
O ambiente austero “nouveau riche” da mansão Souza Santos também não ajuda a Rosiclair a relaxar.
Os sofás alvíssimos dispostos em V para as poltronas bergère igualmente brancas, tudo sobre o tapete extra large 4 x 4 de pele de carneiro albino, mais as paredes “antique white” repletas de arte abstrata predominantemente branca formam um interessante porém opressor efeito “ton sur ton” ou, como prefere a Lourdinha, “white on white”.
À mesa de mogno maciço passado por processo de oxigenação para ficar no mesmo tom embranquecido do resto do ambiente, e sobre as Bertóias de aço inox reluzentes que desfiam as Tri-Fil da convidada, Lourdinha parece especialmente disposta a mostrar todo o poder que o dinheiro confere às mulheres saídas do subúrbio como ela e a impressionável da Rosiclair.
Na hora do licor “Amarula, é docinho, uma delícia…dá uma bicada que você vai ficar de joelhos!”, finalmente vem o assédio.
“Rosi, minha flor, mas eu estou felicíssima em te ver assim tão bem! Nem parece aquela pobretona que veio me pedir um favor uns tempos atrás… Desse jeito, vou acabar ficando com ciúmes, não sou mais a chique da família, hahaha!”.
Rosiclair gelou. Sabe que isso tem uma ponta de verdade.
“Quê isso, prima Lourdinha! Você está nessa vida há muito mais tempo, deve ter tantas coisas pra me ensinar. Imagina você que eu fico até hoje insegura com bolsa e sapato. Uma vez eu li que se mede o quilate de uma mulher pelos acessórios, né? Depois disso, eu fico uma vara verde toda vez que tenho que combinar bolsa e sapato pra ir num evento chique como esse aqui”.
“Besteira, querida…o importante é ser você mesma. Se sentindo bem, pode andar até de Dunes”, replica a maldosa da Lourdinha. “Mas então, vamos ao que interessa”, introduz a ricaça, “vendo você assim tão encaminhada, com uma carreira de sucesso pela frente, fiquei aqui matutando se não seria uma ótima idéia se você e o meu Claudinho se conhecessem melhor…sabe como é: eu ficaria tão feliz, mas tão feliz se vocês se acertassem que eu acho que eu faria o casamento mais acintoso que esse Vale já viu na vida, não que isso seja um desafio…”.
“Mas prima…”
“Me chame de Lourdinha, querida”.
“OK…Lourdinha, eu mal conheço o Claudinho…essas coisas demoram um tempo…precisa rolar uma química, um elán…”
“E eu não sei? Por isso é que eu acho que vocês deveriam ir tomar um ar no jardim a sós, afinal está uma noite tão agradável, nem quente nem fria demais…nesta época não dá pernilongo…vão lá, vão, meus pombinhos!”.
Sem escapatória, os dois vão.

10.
Izilda Matosinho Solimões já está de pé antes das sete horas e vai até à “Loveland Matrimonial Inc.”, indicada pela amiga Jeruza Cabrera que “ouviu dizer” que lá se arruma marido até pra Belzebu.
Vestida com sua melhor roupa -o que não garante elegância, em absoluto-, Izilda não se faz notar no mundaréu de gente encalhada. Só consegue ser atendida três horas depois e, mesmo assim, vai ter que esperar na fila mais umas duas horas e meia para preencher todas as fichas necessárias. Fica um pouco indecisa na hora de listar as qualidades que espera de um marido. Só lhe vem à cabeça pedir que, fosse quem fosse, não pode ser muito peludo (de macaco, já basta ela); bigode, então, nem pensar. Tem ojeriza.
Volta pra casa um pouco desanimada porque a recepcionista não fez questão de disfarçar a cara de nojo quando viu de perto a selva de pêlos na face, até bonitinha, da portuguesa.
Quando adentra a sala, já quase noite, é surpreendida pela irmã Ismênia que, pasmem!, conversa animadamente com um amigo bem jeitosinho e, à primeira vista, lisinho de tudo. “É de um desses que eu preciso!”, suspira a peluda.
Com o rabo do olho, Izilda tenta abstrair o papo da irmã mas, não se aguentando de curiosidade, quer ser introduzida.
“Ismênia, sua mal-educada, não vai me apresentar não?”, ataca direta.
Ismênia, meio molóide e a contragosto: “Esta é a minha irmã Izilda. Izilda, Jussara; Jussara, Izilda”.
Neste momento, os olhos de Izilda atingem duas vezes e meio o tamanho normal. Pigarreando e gaguejando, Izilda diz: “Jussara!?! Muit…muito prazer”.
“O prazer é toooodo meu”, devolve sacana, a Jussara.
Depois de feitas as cordialidades, a colega “engana trouxa” de Ismênia, trata de comer a gêmeazinha caçula da amiga com os olhos, nariz e ouvidos.
Izilda, bastante constrangida, só concatena com clareza o esquisito da situação já na cama, com três doses de Amarula (o único goró que consegue engolir porque “é docinho, uma delícia!”) e o telefone da Juju (“me chama assim, eu prefiro”) no guardanapo. “Se a Ismênia sabe que a Juju me deu o telefone dela escondido…ela vai dar com a língua nos dentes e eu ainda apanho de cinta no meio da sala…mas também, a culpa é dela, quem manda trazer essas sapatas pra dentro de casa?”, conclui antes de cair no sono e sonhar coisas com as quais jamais, em sã consciência, sonharia.

11.
“É Jonnathan o nome do rapaz”, dispara irritada a Miquelina.
“Mamãe, tome tenência! Quantos anos tem esse…Jonnathan?”
“Não sei. Só sei que é mais novo que eu, porque mais velho não é possível”.
“Pára com isso, mamãe. Isso não é brincadeira. De onde você conhece essa pessoa?”
“Da vida, Socorrinho, da vida”.
“O que as pessoas vão dizer disso, mamãe? Até parece que a senhora não tá nem aí pra memória do papai”.
“Tô CA-GAN-DO pra memória do teu pai!”.
“Mamãe!”
“CA-GAN-DO!”
“Bom, tô te ligando pra dizer que eu e o Modesto estamos pensando em vender a mansão e…”
“O quê!?! Vender a mansão? Mas nem sobre o meu cadáver!”
“Mas mamãe, num asilo você vai ter condições mais propícias pra sua idade. Já pensou se você cai no banheiro e quebra a bacia? Além de tudo, a gente vai ter que cuidar de você entrevada numa cama. Você acha que isso é justo?”
“Olha, Socorrinho: eu sei lá que tipo de ser humano eu pari, mas uma coisa eu te digo: você pode se mostrar a crápula que for, nada vai me convencer a vender essa casa, porque eu ainda sou a dona dessa biboca. Portanto, se você e aquele apagado do seu irmão querem surrupiar meu patrimônio, vão ter que esperar a minha morte. Ah, falando nisso, lamento dizer, mas não pretendo morrer tão cedo. Quero viver até os cento e vinte, pelo menos, até porque vou me casar e vou trazer meu marido pra morar aqui comigo!”.
“Mamãe!!!!!!”
“Mamãe o caralho! Vai trabalhar, sanguessuga!”
Colerizada mas sem perder a opacidade do pó de arroz, Dona Miquelina desliga o telefone na cara da filha desnaturada.

Johnny, que ouve tudo e nada diz, então toma sua amada nos braços e tasca-lhe um beijo que, agora sim, faz sua tez brilhar de frisson luxuriante.

Um menino de família. Essa é a melhor definição para Jonnathan Azulanil. Ainda criança, viu os pais se matarem na sua frente no meio de uma discussão acalorada, enquanto o pai limpava as espingardas de sua vasta coleção.
No auge do bate-boca, a arma disparou, acertando em cheio o fígado da mãe. Esta, sangrando e contorcida em caretas bisonhas, ainda teve a presença de espírito de caminhar até às demais pistolas repousadas na escrivaninha, pegar a mais vistosa, mirar no cônjuge em choque, e atirar bem no centro de tudo. Resultado: dois mortos, um fígado e duas bolas a repousar no Aubusson séc. XVII de família, diante de um guri catatônico e extasiado ao mesmo tempo.
Como se isso não bastasse para aniquilar de vez a sanidade de qualquer ser existente, Johnny foi parar na casa da avó viúva, de quem nunca ouvira falar antes.
O que o juizado não imaginava é que a senhora em questão não era a mais indicada para criar criança alguma. Pedófila, Alzira Madureira usou e abusou do menor por anos a fio, mais precisamente até Johnny atingir a maioridade e pôr fim naquela festa do caqui. Entenda-se “pôr fim” como homicídio culposo, caso não fosse doloso; não chegou a ser julgado porque ninguém deu por falta do corpo da velha papa-anjo. Assim sendo, sob os olhos da justiça, Jonnathan é cidadão limpo e acima de qualquer suspeita torpe.
Todo esse histórico não determina que Johnny, o doce Johnny, seja um meliante ou um psicopata que vá fazer algum mal à indefesa da Miquelina.
Segundo especialistas em comportamento humano, é mais provável que Johnny realmente ame Miquelina, numa espécie de transferência da imagem erótica da avó que, vista sob esse prisma, só fez abrir os olhos do pequeno neto à luxúria mundana.
Assim que bateu o olho na figura maternal de Miquelina, Johnny soube que era ali que estava seu futuro. O cabelo com rinsagem, as pernas mapeadas de vigorosas varizes, os vestidinhos de “vó judia Park Avenue”…tudo era tão familiar e remetia a um universo nostálgico de prazer que tirou o jovem do eixo.
Aproximou-se com timidez, afinal não sabia como aquela meiga vovó reagiria e, fazendo a linha jovem burro, perguntou se o roxo do cabelo era natural. Miquelina achou graça na pergunta e, enlaçando seus braços na cintura do formosão, o conduziu pelo caminho de casa e, já lá dentro, pelo caminho do quarto, onde permanecem praticamente até agora.
Mas, ao que tudo indica, Johnny esconde algo sobre sua pessoa. Algo torto e bem fedido.

12.
Dois dias depois, o celular do Claudinho toca. É Cibele, a agente matrimonial da Loveland Matrimonial Inc.
Prestativa, Cibele diz que está ligando para informar que “uma jovem está sendo reservada para ele estar conhecendo ainda esta noite. A pretendente vai estar esperando por ele na porta do Bar Lombardi com uma rosa na boca. Ah, já ia esquecendo: a jovem vai estar se chamando Izilda. Tá anotando?”.

“Izilda. Que raio de nome é esse? Deve ser portuguesa. Puta que pariu: devia ter avisado que não curtia mulher peluda. Achei que fosse desnecessário, já que mulher peluda é exceção neste mundo. Mas pelo jeito não é”, Claudinho Souza Santos está de mau-humor. “Não sei não…será que vale a pena ir lá checar o material? A história com a prima Rosi tá indo tão bem, mamãe está contentíssima e isso é…aliviante!”.

Na hora e no lugar combinados, Claudinho vê suas desconfianças se concretizarem feito pedras nos rins:
“A tal com a rosa na boca tem pelugem. Ou será a folhagem da rosa que na penúmbra engana o olhar? Nada disso. Aquilo é bigode. E dos espessos! Será que eu vou até lá? Ou dou meia volta e peço a Rosiclair em casamento?”

“O que é que eu tô fazendo aqui com essa flor ridícula na boca?”, medita a Izilda. “Pelo menos deve disfarçar a porra do buço… Será que eles anotaram a problemática dos pêlos?… Ai minha Virgem Maria! Tem um mandril vindo na minha direção. Um mandril vestido de playboy! Não! É uma pessoa aquilo lá! Aiaiai, eles fizeram de propósito: eu pedi um cara lisinho e eles me mandam um homo-sapiens…Deus do céu! Será que já dá pra tirar essa rosa da boca? Estão me machucando esses espinhos…Acho que eu vou sair correndo e me declarar pra Juju. Puta que pariu!!!”.

13.
Surpreendentemente, passado o mal-estar inicial, Izilda e Claudinho se entendem perfeitamente bem. Ambos tiveram as mesmas dificuldades pela vida e, apesar da atração física ser impossível, estão em vias de ser tornar bons amigos e confidentes.
É amor fraterno à primeira vista e a conversa, em instantes, toma rumos picantes.

“Seu pinto também é peludo?”, quer saber a Izilda.
“Claro, quer ver?”, retruca o Claudinho.
“Não, não. É que a xereca não é a parte mais peluda da minha anatomia. Se fosse comparar com meus braços e meu bigodão, posso dizer que a minha prexeca é um bebê de tão lisinha.”
“Que engraçado né? Geralmente é na cona que a mulherada exercita o direito à liberdade de expressão”.
“Não é o meu caso. Mas ainda bem que as coisas são assim, e que a gente não vai cruzar, digo, transar. Já pensou? Se eu tivesse uma xavasca peluda e desse pra você me comer com o teu pau cabeludo, no fim do coito teria uma trança no meu útero. Terrível!”.
Claudinho não sabe o que dizer, então fica quieto.
Assim, se despedem e combinam de se ligar no dia seguinte para continuar a troca de experiências.

14.
Tomada de ódio e expelindo bílis pela casa hipotecada, Socorrinho quer, do fundo do coração, que a mãe morra. De câncer. No cérebro. Agonizando de dor.
Dagmar tenta contornar a situação, dizendo que é pecado pensar essas coisas. E, quanto mais a Socorrinho pragueja barbaridades, mais o Dagmar explica que aquilo é em vão, porque a Dona Miquelina, com certeza, já está com o corpo fechado e de trato feito com o demo pra reverter tudo em dobro contra ela, Socorrinho.
No auge da crise, toca o telefone. É a Jussara disfarçando a voz procurando pela Izilda. No que o Dagmar diz que a Izilda não se encontra, a Jussara engole o ar pela via errada e tem um acesso de tosse violentíssimo. Confusa, desliga o telefone.
“Só me faltava essa. Meus filhos envolvidos com esses viados. E é bichinha tísica e mal-educada, ainda por cima”.

Bem na hora em que a Jussara passava por esse papelão com o Dagmar, a Izilda tentava falar com ela pelo celular, deixando o seguinte recado na caixa postal:

“Juju, aqui é a Izilda, a irmã da Ismênia. Eu sei que é meio precipitado, afinal a gente se conheceu outro dia, mas é que desde aquele dia, eu não consigo pensar em outra coisa. Você tem que entender que isso vem me deixando confusa, porque ser lésbica nunca fez parte dos meus planos. Mas vamos ao que interessa. Faz um tempo que eu tenho tido vontade de me casar. Nunca levei essa idéia a cabo porque, como você deve ter percebido, eu tenho buço e outras pelugens consideráveis. Pode parecer descabido, mas isso impede que eu faça uma série de coisas importantes na minha vida. Casar é a principal delas. Primeiro porque os homens não querem ver minha cara nem pintada na frente, literalmente. Segundo porque isso me traumatizou num grau que eu não posso nem cogitar em fazer sexo com alguém que também tenha pêlos no corpo. O que limita meu leque de opções no que tange aos homens. Só me restam os índios e os japoneses. Quanto aos japoneses, existe a questão da altura. Eles são baixos e eu tenho um metro e oitenta e sete, patético; quanto aos índios, eu não conheço nenhum…”

Neste momento, o espaço de mensagens se esgota, obrigando a Izilda a fazer outra ligação para completar o raciocínio.

“Juju, sou eu, a Izilda. Retomando: …então. E hoje eu tive um encontro com o mais peludo dos homens, isso na minha concepção, porque, obviamente, eu não conheço todos os homens. Mas esse cara passa pelos mesmos dramas que eu e a gente conversou bastante à respeito e ele me fez enxergar uma série de coisas que, até então, estavam nebulosas pra mim. Ele me fez acordar pra questão de que se não pode ser índio nem japonês, eu vou ter que apelar às mulheres. Isso sem contar na opção das vítimas de alguma anomalia ou síndrome, dessas que fazem cair os pêlos e a pessoa fica que nem o Kojak. Então, eu pensei imediatamente em você. Que você anda me tirando o sono, isso eu nem preciso dizer. Agora, que você pode ser um marido em potencial pra mim, isso eu só concatenei agora. Por isso eu tô te ligando…”

Cai a linha de novo e, dessa vez, não tem mais espaço na caixa postal da Juju.

15.
Quando escuta a mensagem na caixa postal, Jussara urina de alegria.
É assim desde pequena: não pode receber uma boa notícia que mija mesmo. Um vexame. Por isso o apelido “Jussara Mijamija” como é conhecida no meio lésbico. De modo que, agora, molhada e feliz da vida, Juju não sabe se liga de volta para a amada, ou estoura uma champagne para comemorar. Concluiu ser melhor a primeira opção…“champagne é coisa de boiola”.

“Por favor, a Izilda?”
“Quem gostaria?”
“Jussara, uma amiga”.
“Jussara? Ah…a mesma de agora há pouco. Tá bom. Nome de guerra né? Vai meu filho, qual é o nome de verdade?”
“Como é que é?”
“Tá pensando que eu sou trouxa? Se o teu nome é Jussara, o meu é Watusi. Vai bicha de merda, desembucha…o que você quer com a minha filha?”
“Ah, o senhor é o pai da Izilda? Muito prazer: queria dizer que o senhor tem uma filha de ouro, aliás, duas: a Ismênia também é uma ótima garota!”
“Você conhece a Ismênia também?”
“Claro, estudamos juntas no Lar Escola Nossa Senhora do Alento às Querubinas Desprovidas”.
“Ué? Mas lá só entra menina. Você é mulher mesmo?”
“Sou, pelo menos por enquanto…”
“Puxa, menina. Desculpa a grosseria, mas é que você tem uma voz esquisitíssima. Parece viado falando!”
“Eu sei… já apanhei na rua por isso”.
“Não diga! Que horror! Esse mundo tá cada vez mais virado…espera que eu vou chamar a Izilda. Juízo hein! E muito prazer!”
“Igualmente!”

Assim, voz com voz, na intimidade via Embratel, as duas apaixonadas podem se declarar e fazer planos para o futuro. O que a família, a sociedade, os amigos vão achar desse amor que não ousa dizer o nome? Não importa. O que importa é que de agora em diante, nada vai separá-las, nada será páreo para esse idílio inominável.

No lado do Vale do Paraíba, as coisas não vão tão bem. Mesmo com tanta torcida à favor, o amor de Claudinho e Rosiclair não vingou. Rosiclair, agora profissional bem-sucedida, não é mulher de forno e fogão, como queria o Claudinho; e Claudinho, apesar de toda a fortuna, é quase um mandril, como bem expressou a amiga Izilda. Rosiclair, na atual posição, pode comprar homens muito mais aprazíveis do que aquele cavalheiro travestido de pré-histórico. De modo que, para lamento geral dos envolvidos, a coisa desandou.

Solitário, com o coração partido, cada vez mais disposto a fazer qualquer coisa para casar e procriar, Claudinho está se apaixonando pela amiga e confidente Izilda. Mesmo sabendo que isso é errado, Claudinho, quando viu, já estava irreversivelmente tomado de amores pela portuguesa de pêlos fartos. Como é a vida: pêlos, tudo o que Claudinho mais abomina numa mulher, é tudo o que Izilda mais possui naquele corpazil de quase dois metros.
É o pequeno mandril e a monga descomunal.


16.
Mesmo apaixonada, Miquelina não deixa de se ocupar com o bem-estar da neta favorita. E entre um sexo e outro com o rapazola que ela um dia catou pra chamar de seu, a velha tem visões pra lá de estarrecedoras. Primeiro elas não vinham assim tão nítidas: eram dois corpos grandes e curvilíneos a rolar na grama. Depois é que ela pôde ver que é a Izilda que rola com uma coisa que não dá pra ver se é homem ou mulher. Mas, como o amor tudo entende, Miquelina dá graças quando vê a xereca da coisa indefinida. “Ah, finalmente a Izilda pensou com a cabeça! Se ela não pode com pêlos, não adianta procurar homem por aí. Tem que ser mulher…ou algo parecido.”
Mas, ao mesmo tempo em que vê a aura rosa em volta da neta e da namorada, também vê uma aura marrom quase preta em torno do resto da família. “Ah, gente tacanha! Meu deus do céu: como é que toda essa gentalha saiu a partir de mim? Como Johnny?”
Johnny nem escuta as lamúrias de sua Miquizinha. Está concentrado em algo que deixa a amázia atônita: o rapaz assiste ao funeral da Rainha-Mãe da Antiga Tchecoslováquia com o pau na mão.
“Mas o que é isso, Johnny!? Você está se masturbando vendo o féretro de Sua Majestade?”
“É que ela lembra tanto a minha avó…”
“Mas não é possível. A tua avó abusou de você a vida toda e você presta homenagens a este…este…monstro!? É por isso que você está aqui comigo? O teu negócio é a mulherada com o pé na cova? Tudo bem ter atração por senhoras, mas bater punheta na minha frente vendo o presunto da rainha pela televisão é demais!”.
“Puxa Miquizinha, eu pensei que você fosse mais cabeça aberta! E, pra seu governo, eu tenho tara é por velhas mortas. E até onde eu sei, você tá bem vivinha, né? E eu digo isso pra você não pensar que eu te vejo como mero brinquedo sexual. Eu te amo! Mas tenho esse tesão por cadáveres de velhas . O que é que eu posso fazer?”
“Você jura que não está comigo só por capricho sexual?”
“Juro! E acho que já te dei provas mais que suficientes disso”.
“Isso lá é verdade. Mas, me diz: o que te dá tesão nessas velhas mortas?”
“Ah, tudo: a carne dura, a pele violeta, o geladinho de dentro…é como comer uma jaca congelada. Ui…já tô de pau duro de novo!”
“Mas aí pela televisão nem mostra o corpo da velha. Só esse caixão com a bandeira em cima.”
“Ué, é pra isso que serve a imaginação, ou não?”
“Ok. Mas, quero deixar claro que eu fico com ciuminho…”
“Ora, Miquizinha…Elas são só corpo. Você é corpo, alma e paixão!”
“Paixão…paixão…paixão…como era bonita essa canção, não?”

17.
Quando o dia nasce torto, é melhor voltar pra cama ou se intoxicar de aspirina.

Socorrinho Matosinho acorda com aura de enxaqueca, mas a ignora. Vai até o caixa eletrônico a cem metros de casa, cruza com alguém que pode jurar ser a Gilmara Sanchez, uma antiga jurada de calouros do Raul Gil que há anos não aparece no vídeo. Depois pensa bem e conclui ser impossível aquela ser a Gilmara Sanchez, porque a moça do caixa se parece com a Gilmara Sanchez de priscas eras e, a contar pelo seu próprio envelhecimento, percebe que, à essa altura do campeonato, a Gilmara Sanchez de verdade dever estar mais murcha que maracujá de gaveta. Logo ela, a Gilmara Sanchez que a Socorrinho cresceu achando que era a mulher mais linda do mundo e dizia pra todo mundo que era sua prima por conta do mesmo sobrenome, e que iria batizar a primeira filha como Gilmara, etc, etc. O tempo passou, a Gilmara Sanchez virou uma lembrança bem feiosa, a primeira filha nasceu e se chamou Isolda… Puxa, onde andará a Gilmara Sanchez?
Chegando ao caixa, a Socorrinho introduz o cartão magnético e quer sacar dois mil reais a fim de se livrar de alguns agiotas que, desde o dia em que seu pai fez o favor de morrer sem deixar um puto para a família, vêm ficando cada vez mais agressivos e mal-educados.
Qual não é a surpresa da Socorrinho, quando o caixa eletrônico se recusa a executar a operação acusando saldo insuficiente.
“Saldo insuficiente? Como assim? Vendemos os carros há menos de um mês e o dinheiro já evaporou? Ai…tá cada vez mais duro manter o padrão de vida neste país…”, diz em voz alta para todo o resto da fila, inclusive para a Gilmara Sanchez que ainda não cruzou a esquina; e, entre chocada e constrangida, Socorrinho esmurra o caixa eletrônico, dá meia-volta e volta pra casa. À essa altura, a cabeça da pobrezinha já lateja mais que pau de tarado.
Ao contar o dissabor da manhã para o marido Dagmar, este dá o golpe de misericórdia que há muito ensaiava dar:
“Eu só vejo uma solução: ou a gente interna a sua mãe num asilo bem em conta, ou dá um fim na velha”.
“Você tá dizendo matar a mamãe?”
“Sim…o destino natural de todo velho não é morrer? Que mal há em acelerar o inevitável?”
“Olha…dizendo assim, até parece bem plausível, mas acho que não teria coragem de dar fim nela não, Dag!”
“Não, minha flor, disso eu cuido. Concordo que dar cabo da sogra é diferente que dar cabo da mãe. É menos pecado, parece.”
“Mas e o Modesto? Ele não vai concordar com isso.”
“E desde quando o Modesto precisa concordar com alguma coisa?”

De trás da porta, Izildinha escuta a tudo perplexa. Primeiro porque não sabia que a situação da família era tão periclitante; segundo porque não é nada fácil descobrir que os pais são o cão em pessoa; psicopatas que deixam a Sicrane Von Bitchtoven com pecha de santa.
Desconsolada e em pânico, Izildinha concatena consigo mesma que sua felicidade sexual é pinto perto da salvação da honra da família Sanchez Matosinho Solimões. Para evitar que seus pais se tornem assassinos frios e monstruosos e, principalmente, que sua avó vire presunto roxo, só há uma alternativa: ceder aos galanteios do (segundo seu íntimo mais íntimo) asquerosamente peludo, porém gentil e milionário Claudinho Souza Santos.

18.
Do alto de seu escritório de 200m2 no quadragésimo andar de um dos Robocops da zona sul, a Rosiclair não está com cabeça para os processos em cima da mesa de mármore travertino. Está seca por sexo.
Desde que o Doutor Darcy morreu, Rosi se fechou para a libido. Toda vez que o pensamento resvala em pecado, a doutora canaliza tudo para o trabalho e, nesse ínterim, já conseguiu colocar três na cadeia e uns dezoito pra fora do país. Mas hoje, a coisa tá periclitante.
Nesse momento, entra o Modesto, misto de boy e faz-tudo de meia idade com o agravante de ter sido o filho do antigo patrão. Ou seja: um inútil encostado.
Sem ter alguém melhor para chorar as pitangas, Rosiclair decide se abrir “ab nicio ab ovo”, como se diz no jargão latino da lei.
Modesto, com a modéstia que lhe é peculiar, se atém a dizer: “Eu não tenho capacidade de resolver seu problema, doutora. Mas sei quem pode”.
Rosiclair, num salto, se põe de pé: “Quem!?!”
“Meu sobrinho Isidoro”, replica o funcionário.
“O retardado, neto do Darcy?”, quase cai pra trás a patroa.
“Este mesmo. Sabe como é a fama desses lesadinhos da cabeça né? Têm um fogo que dá gosto de ver!”
“Será que não é crime?”, indaga a Rosiclair.
“Crime é ver uma mulher assim tão bonita e poderosa sem ter quem dê jeito”.
“Isso é verdade. Chama esse menino agora!”.

Duas horas e muita lascívia depois, Isidoro –o retardado- é contratado como novo secretário particular da Doutora Rosiclair Barbosa após de ter passado com louvor no teste do sofá Chesterfield.
Fazendo juz à fama dos fracos das idéias, Isidoro se mostra um amante como a doutora jamais vira na vida. Deixa a performance do finado avô a ver navios no ranking íntimo da magistrada que, ainda arfante de tantos orgasmos encavalados, só tem uma preocupação: o que será quando a Socorrinho e a Miquelina souberem que mais um macho do clã Sanchez Matosinho foi abatido pela predadora Rosiclair Barbosa?
“Não esquenta. Qualquer coisa, eu passo o pincel nelas duas também”, encerra o prático Isidoro.
Rosiclair, pasma, decide que é hora do rapaz comparecer ao RH.




19.
Claudinho recebe o telefonema de Izilda com o coração floreado. Marcam um encontro e o rapaz sente lá no fundo que vem boas novas por aí e, sabendo da aversão da moça por pêlos em geral, veste sua melhor cacharrel e fica a postos até às duas da tarde, imaginando se, à época do nascimento dos herdeiros, a medicina já estará avançada a ponto de haver tratamentos indolores e definitivos para combater a abundância capilar corporal já na primeira idade.
Em meio a esses devaneios esperançosos, eis que a campainha toca e a criada anuncia a presença de Izilda no living.
Aqui, o coração de Claudinho bate a casa dos 200bpm.

Izildinha não está com o que se convencionou chamar de semblante esfuziante. Apesar de prestes a tomar a decisão mais importante de sua vida, Izilda é só melancolia.
Em contrapartida, enquanto escuta o que Izilda tem a dizer, Claudinho arranca dois tufos de pêlos dos braços de tanta excitação.

Cumpridas as formalidades da demanda e da oferta, os dois começam a planejar as bodas em si. Izilda não quer nada muito ostensivo, mesmo porque festa não combina com seu estado de espírito. Seu coração pertence a Jussara Mijamija e Claudinho sabe disso.
Do lado do noivo, as coisas são bem mais espalhafatosas.
O noivo não se contém de felicidade e passa a delirar cada vez mais com os preparativos; Lourdinha, apesar de perceber à primeira vista que a futura nora não diferencia sardela de alichela, muito menos Gucci de Pucci, faz questão de preparar a festa “comme il faut”. Ou seja: guiada pela filosofia do “não custa tentar tirar a moça do subúrbio, mesmo sabendo que o subúrbio nunca vai sair de dentro da moça”; Plínio, por sua vez, parece apenas aliviado com o desprovimento estético da noiva do filho, o que lhe evitará pensamentos escusos e nada católicos, algo que desestruturaria sua família de maneira atroz.

A família da noiva, apesar de exultante com o enlace, mal pode participar dos preparativos por conta da hostilidade com que a noiva recebe suas investidas. A única a ter livre acesso a todos os detalhes é a velha Miquelina que, desde o princípio, fez questão de ser a dama de honra da cerimônia.
Esse detalhe deixa a Lourdinha um tanto apreensiva, porque ela nunca vira um casamento com uma pagem velha. Só depois de consultar uma conhecida expert em etiqueta cerimonial que lhe garante que tudo que é feito com o coração é válido, a Lourdinha sossega.
Mesmo sabendo que o que a Izilda está fazendo é, única e exclusivamente, em prol de sua dignidade e bem-estar, a Socorrinho também não engole de bom grado tanta indiferença. Mas fica quieta porque é bem vendida, a safada.

20.
Com a proximidade do dia D, os ânimos gerais estão em polvorosa. Principalmente os de Dona Miquelina que está impaciente com sua participação como daminha. Depois de tudo combinado, a velha cai em si que talvez essa não seja tão boa idéia. Não quer ofuscar o brilho da netinha de modo algum e, uma velha coroca vestida de virgenzinha com flores de laranjeira na cabeça “não é algo pra se passar desapercebido, não é não Johnnyzinho?”
“Puxa Miquezinha, se era pra você ficar assim, nem devia ter sugerido essa idéia”.
“Eu sei, meu amor, mas é que pela Izildinha eu até entro pelada na Capela Sistina”.
“Falando nisso, Miquezinha…você pensou no que eu te propus?”
“Não sei, Johnnyzinho…é muito perigoso”.
“Que nada. É uma prova de amor que você vai dar pra mim”.
“Isso é chantagem mas…ok, eu vou”.
“É por isso que eu te amo, minha anciãzinha linda cuti-cuti!”

Dezoito horas depois, Johnatan Azulanil Junior e Miquelina Sanchez Matosinho são autuados em flagrante sob a acusação de atentado violento ao pudor, nus em cima de uma pobre indigente de idade aproximada de uns oitenta e oito anos, no necrotério municipal.
Um escândalo! No dia seguinte, os jornais noticiarão com os mesmos termos acima todo o ocorrido, acompanhado de fotos e depoimento de familiares, dentre os quais os reproduzidos abaixo:

“Ela sempre foi (desculpe a expressão) tarada. Uma velha tarada, falando um portugués bem chulo. Ah, e outra coisa esquisita é essa mania que ela tem de dizer que vê o futuro e outras coisas que a gente que é normal não vê: fantasma, gente atrás da porta, atrás do fio do telefone…sei lá. Pra mim isso é fajutagem porque se ela vê as coisas mesmo, porque não descobre o número da mega-sena, né não?” _ Samira Pimentel, 72, vizinha.

“Esse rapaz foi a ruína da vida da mamãe. Quando ela resolveu que iria anular sua vida sexual e canalizar tudo pro outro lado, todos nós saímos ganhando: ela via coisas, ajudava a coletividade e só fazia o bem. Depois que ela passou a se engraçar com esse moleque, ela só pensa em fazer esse tipo de sexo…como vocês chamam mesmo? Bizarro? Isso…escreve aí “sexo bizarro. Minha mãe trocou a clarividência pelo sexo bizarro!” _Socorro Solimões, 47, filha.

“Eu não vejo a menor graça nessa história. Eu que sou jovem e bastante ativo (tosse), me seguro e procuro não perder tempo com esse tipo de gente. Daí vem a mamãe, velha, paranormal, e se entrega a esses aventureiros que tá na cara que só querem o que temos na nossa conta bancária. Eu sei, eles entortam a nossa cabeça de um jeito! Quer dizer, a cabeça das mulheres (tosse)…”_Modesto Matosinho, 44, filho.

21.
Modesto está na delegacia assinando os papéis para libertar “o casal da pá virada”, como a mídia carinhosamente os batizou.
Preocupado em não esticar demais o olho pra cima do cacho de sua própria mãe, o rebento enrustido só mira os vergões vermelhos enormes que a velha Miquelina exibe no cangote. E através deles (os vergões), Modesto se perde em devaneios em base no tamanho avantajado da arcada dentária daquele potro em forma de homem que “por que raios achou graça na caquética da mamãe?”!
Sob fiança, Miquelina senta no banco de trás do carro, Modesto fecha a porta e sinaliza com a cabeça que o lugar de Johnny é na frente, ao lado dele.
“Johnny, que além de necrófilo tem um passado “curioso-pederasta” em suas próprias palavras, está sacando direitinho qual é a do enteadozinho.
Modesto dirige em marcha lenta para não escapar o câmbio de suas mãos suadas. A cada curva para a esquerda, a coxa de potro do Johnny esbarra “sem querer” na mão direita cada vez mais suada de Modesto.
A Miquelina, coitada, dorme feito um anjo aposentado no banco de trás.

Modesto sua em bicas e não vê a hora de saltar do carro e pular de alegria.
Nem a hipótese de trair a própria mãe o deixa menos histérico. De certo teme a reação da velha que, bem provavelmente, terá um surto e empacotará de vez. O que viria bem a calhar, uma vez que se isso acontecesse, o resto da família estaria tão, mas tão contente que o deixariam em paz para viver seu idílio romântico na plenitude desse amor proibido.
Mal sabe o Modesto que a Miquelina, em seu transe dentro do carro, previu tudo. Tintim por tintim.

A visão de Miquelina foi por meio de metáforas.
Primeiro vislumbrou um belo coqueiro com lindas folhas balançando ao vento. Nessas folhas, pousaram um canário e um beija-flor. Não se sabe bem como, mas Miquelina sabia que ambos eram machos e que, se estavam juntos e tão felizes em cima daquela folha tão longínqua, era porque estavam aprontando alguma. Prestando atenção na movimentação de seus bicos, Miquelina leu todo o diálogo sujo daqueles dois seres tão belos em sua singeleza:

“Eu sei que você me ama, meu canariozinho tesudo!”
“Isso é errado. Eu tenho esposa e em breve terei filhos que, por sinal, eu deveria estar chocando”.
“Essa vida familiar vai contra a sua natureza. Veja só: você escolheu a canário-fêmea mais velha da redondeza. Pra quê! Pra não ter que comparecer porque você sabe que daqui a pouco ela entra na menopauza e não vai mais querer se engraçar com você”.
“Você não sabe de nada. Ela já se encontra na menopauza e eu continuo comendo a minha senhora com muito gosto!”
“Sei…mas vive arrastando asa pra cima de mim que eu sei”.
“Eu…eu estou confuso. Não sei mais o que é certo ou errado…Mas eu tenho que admitir que a minha vontade agora é voar para baixo das suas asas e me acasalar com você e me perder entre suas penas sedosas e…ahhhhh”.

Neste ponto, Miquelina acorda assustada e com um terrível pressentimento.
Pelo sim, pelo não, finge dormir até chegar em casa.

22.
Dias antes do casamento, o improvável acontece: Izilda está perdendo os pêlos. Estressada como ela só, as unhas já haviam virado tôco há muito e, na falta de algo melhor, Izilda está comendo seus pêlos. Primeiro os compridos, depois os médios e agora os curtos. Izilda já está inclusive com as sobrancelhas na espessura ideal.
Quem está vibrante com esse stress todo é Lourdinha que começa a perder a vergonha de apresentar a futura nora nas rodinhas das quais frequenta no Vale do Paraíba.
O impasse atual é que sem os pêlos que tanto incomodam nossa pobre mocinha, ela nem se sente mais tão ultrajada com a aparência de carpete do noivo. Sim, meus senhores: Izildinha já olha Claudinho com olhos mais complacentes. E como mulher quando baixa a guarda é porque quer se apaixonar, já podemos afirmar que Izilda se casará por amor, por que não?
Pobre Jussara Mijamija.

Claudinho anda nauzeabundo com a novidade. Decerto está bastante alegre com o fato de que sua monguinha já não é mais tão vergonhosa e que seu coração agora pertence a ele. Mas auto-estima nunca foi seu forte.
Claudinho Souza Santos não sabe o que fazer com tantas coisas boas caindo no seu colo.

Os preparativos para as bodas andam de vento em popa. Buffet contratado, menu aprovado, as flores encomendadas, o vestido da noiva já adaptado para a novidade, agora será aberto no ventre e os braços estarão à mostra. Tudo anda bastante bem.

Dentro das instalações do clã Sanchez Matosinho, o caos se instalou.
Sem saber ao certo qual será o tema da cerimônia, as mulheres andam inseguras com o figurino. Além do já sabido tabu em relação ao branco, Isolda, Ismênia e Socorrinho estão a pular muidinho para preparar seus vestidos. Mesmo sem saber direito das coisas boas da vida, Socorrinho bem sabe que vestido de festa barato parece coisa de crente no domingo. E dinheiro é coisa de que elas, definitivamente, não dispõem no momento.
“Dagmar, a gente NÃO pode fazer feio. Aquela azeda da Lourdinha vai secar todas nós dos pés à cabeça e a gente vai virar pó de tanta vergonha. Quanto ao sapato, eu já sei: vou mandar fazer vestidos beeem longos pra não mostrar os sapatos que vão ser os mesmos de sempre. Agora…e a estola e o bolerinho e a casquete…essas coisas?”
Dagmar: “Hein?”
Na mesma noite, sentada no sofá assistindo “E o Vento Levou” pela enésima vez, Socorrinho tem o insight que vai salvar a pele de toda a sua prole e principalmente a sua: lembrou que as cortinas da mansão Sanchez Matosinho são da época da vaca gorda. Tudo coisa de primeira que, se a velha não vai mesmo para o asilo que é o seu lugar, vai ter que, ao menos, ceder as cortinas afinal, fazem parte de sua parte na herança.
E assim ficou decidido que todas as mulheres da família Sanchez Matosinho irão ao casamento do ano no Vale do Paraíba vestidas de shantung pêssego. Com direito a bolerinho e casquete no mesmo padrão.


23.
Com tanta pulga atrás da orelha, Miquelina não teve tempo de pensar no seu traje de daminha. Mas não é nada trágico, afinal de contas, ela sempre manteve todos os seus vestidos de festa desde os sete anos, quando comungou pela primeira vez. E, pelas suas contas de cabeça, seu corpo hoje em dia não é muito diferente do daquela época.
Enquanto faz suas meditações adicionadas de espionagem atrás da porta, Miquelina vê algo que não está querendo ver. Ao invés de materializar seu filho copulando com seu namorado, a velha vidente acaba de enxergar a ex de sua neta cortando os pulsos. Ela mesma: Jussara Mijamija nunca mais mijou de alegria e só chora pelos cantos desde que Izilda lhe pediu para nunca mais a procurar, afinal de contas ela havia encontrado finalmente o amor de sua vida.
Benevolente como poucas, Miquelina deixa seus problemas de lado e vai até o paradeiro da pobre lésbica do coração partido e lhe oferece uma mão amiga.

“Dona Miquelina! Eu agradeço sua preocupação, mas sua neta fez o favor de acabar com os meus dias. Hoje sou um espectro do que já fui. Já nem me chamo mais Jussara Mijamija. Agora, os que me conhecem, me chamam pela pejorativa alcunha de “Sapata Vaso Ruim”, tamanha é a minha vontade de morrer e não conseguir. Já pulei do oitavo andar, já tomei cicuta, já joguei televisão ligada dentro da jacuzzi, e o máximo que eu consegui foram esses arranhões aqui na canela. Eu sou uma negação! Eu quero morrer! Eu quero morrer!”

Partida em duas de tanta piedade, Dona Miquelina tasca um tapa bem no meio da face da pobre suicida.

“Minha querida, isso dói mais em mim do que em você, mas você está fora de si. Veja bem, pense friamente: a Izilda é um amor de pessoa, mas é muito feinha, coitada. E você, apesar de ser essa caminhoneira, é bonita de rosto. Você tem que procurar alguém que seja assim bonitinha que nem você, senão já viu né? A gente acha que pode amar o feio, mas o feio só pode ser amado se acrescido de algo bem valioso. E a Izilda, na atual condição, não tem nada de valioso pra te oferecer. Só um amontoado de pêlos que, se eu fosse sapata, ia vomitar de nojo. Pêlo é coisa de homem, e homem é tudo o que você não precisa na vida, não é mesmo, docinho?”

Contente de salvar mais uma alma do limbo, Miquelina volta aos seus problemas. Problemas estes, cada vez mais pungentes.
Ao abrir a porta de casa, Miquelina já sabe o que a espera. Os gemidos vindos do quarto de casal não a deixam ter esperanças brandas.
A cena a seguir é por demais chocante e justifica completamente a morte súbita da matriarca dos Sanchez Matosinho. Santa para uns, devassa desavergonhada para outros, Dona Miquelina morre sem sentir dor. Pelo menos fisicamente, já que seu coração se encontra dilacerado de tanto horror, pavor e traição.

Assim que o corpo de Miquelina se esvai no chão de carpete creme, Modesto é tomado de um leve arrependimento que dura até seus olhos cruzarem os olhos penetrantes cor de mel do amante Johnny.
Cabe a este pular da cama para cima do corpo já sem vida da velhaca e socar tão forte quanto possível o torax enrugado de sua Miqui, amada Miqui. Tudo em vão.

24.
A notícia chega como uma bomba aos ouvidos de todos. O incrível é que, independente do ocorrido suscitar alegria ou tristeza, nenhum desses sentimentos diz respeito diretamente à morte da velha Miquelina.
Socorrinho, filhos e marido falidos, obviamente, riem por dentro só pensando no quanto vale a mansão no mercado imobiliário de hoje; o Modesto, graças ao alívio n’alma por não mais viver em pecado, não consegue esconder o riso frouxo toda vez que lembra que a mãe empacotou; os Souza Santos, principalmente a Lourdinha, como não têm a menor relação emocional com a defunta, acham que foi providência divina seus convidados serem poupados do choque de ver a Miquelina subindo na nave vestida de daminha, pajem ou o que for; a Izilda parece ser a única a derramar alguma lágrima pela memória da avó querida. Mas mesmo ela, que tanto amava e, se não entendia, ao menos respeitava os atos tresloucados da velha, não dispõe de muito tempo para chorar o que não tem mais volta. Afinal, como dizem os letrados: “Inês agora é morta” e há muito o que fazer além de chorar, velar e enterrar a vovó Miquelina.
Pronto. Este é o ponto: não há tempo para parar tudo à essa altura do campeonato e fazer as pompas fúnebres devidas e obrigatórias.
“Já sei!”, diz a Ismênia, aquela que ninguém dava ouvidos por ser retardada. “Vamos embalsamar a vovó, depois da festa velamos, enterramos e fazemos a missa. O que acham?”, continuou.
“Ótimo!”, comemora a Socorrinho, já dentro de seu traje de shantung pêssego.
De repente toca o telefone e é a Izilda lá do Vale do Paraíba dizendo que não pode se casar rompida com toda a família e que depois da tragédia da Miquelina, ela ponderou que a vida é mesmo muito curta e louca e que ela não gostaria de perder mais nem um minuto com essas picuinhas materiais contra os entes que tanto ama. Socorrinho escuta a tudo com lágrimas escorrendo na sua cara já maquiada, mas ela nem liga. Afinal, a maquiadora ainda está lá no quarto tentando dar um trato na cara débil da Ismênia, pobre diaba.

“Que isso, minha filha. Eu sei que nós nos amamos muito e eu abençoaria esse matrimônio mesmo se você mandasse dez seguranças me botarem da igreja pra fora. Izilda, meu amor, desejo toda a felicidade do mundo pra você e o Claudinho…eu soube que você está belíssima sem pêlos e tal…não vejo a hora de te dar um abraço grande e ouvir a Ave Maria na voz do Agnaldo Rayol que eu sei que a tua sogra contratou só pra cantar quando você entrar toda de branco…aiiiii, tô arrepiada!”
“Mamãe…tem uma coisa que eu gostaria que você fizesse: queria muito que vocês trouxessem a vovó junto”.
“Como é que é?”
“Eu pensei que como ela está embalsamada, não custaria nada se vocês trouxessem ela junto. Tem lugar no carro, não tem?”
“O problema não é esse, minha filha. É que não é meio chocante a presença dela lá na igreja, na festa? Todo mundo sabe que ela morreu e você sabe como são as pessoas né? Tem gente que não gosta muito de ver defunto na frente. Principalmente em ocasiões festivas”.
“Mas é o meu casamento e eu convido quem eu bem entender. E a vovó desde sempre foi convidada de honra!”
“Olha, vou conversar com seu pai e nos falamos mais tarde, ok?”

25.
Duas horas para o grande momento.
Em toda a região do Vale do Paraíba, não se fala de outra coisa há semanas.
Os convidados, três mil ao todo, lotam os salões de beleza e as cabeleireiras se dividem em turnos para dar cabo de toda a demanda de mulheres enlouquecidas com a idéia de aparecer no Amaury Jr ou simplesmente dar de cara com um dos quatro astros da Globo contratados para dar o ar de suas graças e abrilhantar ainda mais o evento. Astro não é bem o termo. São dois pares de atores e atrizes que engatam uma novela na outra e nunca saíram nem em nota na Contigo. Todo mundo sabe das suas caras, mas não têm a menor idéia dos seus nomes e nem de onde exatamente eles são.

Como a depiladora se fez totalmente desnecessária, Izilda pôde tirar a sesta e acordar só agora.
Enquanto isso, os Souza Santos estão às voltas com os últimos preparativos. Plínio é bem catogórico com os garçons: “bem-vestidos = nossos convidados = Don Perignon; jecas e pobretões = família da noiva = Sidra Cereser”.

Entendido? Então repitam!

“Bem-vestidos = nossos convidados = Don Perignon!
Jecas e pobretões = família da noiva = Sidra Cereser!”


A igreja, toda revestida de hera e cabeças de anjo perfuradas nos cinco orifícios, de onde saem luzes de lâmpadas azuis, estava uma coisa indescritível. O padre, numa ação pouco católica, teve a mão devidamente molhada para que Lourdinha pudesse pôr em prática todos os delírios cenográficos com os quais sonhou desde que pariu Claudinho e que, com o passar dos anos, achou que jamais poderia concretizar.
No chão, tapetes com dizeres bíblicos perfilados até a altura do genoflexório em formato de coração almofadado para não machucar os joelhos dos pombinhos. No teto, uma grua que lembra de leve um trenó acomoda Agnaldo Rayol, um microfone de pedestal e, surpresa grata, Rosemary que Agnaldo chamou sabendo da admiração dos Sanchez Matosinho por este talento subaproveitado de nossa cultura popular. De lá, a dupla cantava, à capela, clássicos do repertório sacro como “Jesus Alegria dos Homens” e “Amigos Para Sempre”.

Quando os Sanchez Matosinho adentram o território sagrado, o silêncio grita. Três mulheres, uma delas visivelmente problemática, vestidas de shantung pêssego com casquete e bolerinho, mais um rapaz igualmente problemático em um terno de cor, corte e brilho suspeitos, mais um cadáver em forma de velha dentro de um vestidinho infantil todo rendado e amarelado, devidamente penteado, maquiado e perfumado, formam uma visão dos infernos.
Agnaldo desafina, Rosemary cambaleia e a grua range. Todos olham para cima, desviando (graças a deus) a atenção dos enviados de Proteus.
Com todos em seus devidos lugares, Agnaldo respira fundo e passa a evocar os primeiros versos da Ave Maria de Gunaud. Rosemary, ainda pasma, prefere se ater à coreografia religiosa que criara em casa para impressionar os convidados que, acreditava ela, seriam de categoria.
Quando a porta se abre, adentra o Plínio de braços dados com a Lourdinha e esta, espertamente, percebe nos rostos dos convivas, uma tensão misturada com nojo e escárnio que a faz fechar a cara no ato. Ao passar pelas Sanchez Matosinho todas de shantung pêssego a escorar aquela que deveria estar morta e enterrada, a socialite dos confundós do judas tem um acesso de asma que faz com que toda a primeira fila se levante de preocupação.
Por conta dos tapas especialmente fortes que Plínio desfere contra sua digníssima, tudo volta ao normal.
Claudinho caminha nervoso até o altar e seus pêlos não ajudam em nada para que ele pare de transpirar feito vodca no freezer.
Este é um momento de doce revanche para Socorrinho que, obviamente, percebe o ódio no olhar da Lourdinha em cima dos trajes de cortina velha em seu corpo e nos das suas: “Pelo menos não temos mais um macaco em nossa família. Isso agora é exclusividade do lado de lá. Hahaha!’, pensou maldosa.
E Agnaldo continua a judiar do gogó ao lado de uma Rosemary verde de labirintite prestes a vomitar em todos os que lá embaixo estão. Felizmente isso não acontece e a cerimônia continua.
Izilda surge na contra-luz da entrada da igreja, linda e lisa. Seu vestido parece ser a única coisa sensata do evento, mas toda a boa intenção é engolida pelo summer branco de seda e cetim de seu pai, aquele que sabiamente a falecida Miquelina chamava de “pobretão da boca do lixo”.
Bem. Como a Rosemary não tem o que vomitar porque está sem comer há doze horas, a noiva chega ao altar sã e salva. Entre uma pausa e outra para que Agnaldo faça juz ao cachê que, sozinho, custou mais que toda a festa, o padre que já demonstrara ser pouco católico, passa a flertar ora com o Modesto (muito bem apessoado num terno risca de giz, agora que encontrou a alegria de viver), ora com o Johnny (também muito bem apessoado num terno idêntico).
Em olhares cúmplices, o casal sorri já prevendo qual vai ser a farra da noite. “Será que o coroinha também participa?”, pensam os dois ao mesmo tempo.

26.
Entre um gole e outro, os noivos estão excitadíssimos com tantos entes queridos prestigiando o enlace. É certo que a maioria dos presentes nem um nem outro conhece, mas não importa: a festa está um sucesso.
Música ao vivo com a orquestra do Maestro Zezinho e seus metais em brasa embalam os casais de todas as idades. Toda a sociedade vale-paraibana está presente e com o queixo caído, como sempre desejou a Lourdinha que, por sinal, é a mais chamativa com seu vestido brocado dourado sobre a pele igualmente dourada, graças ao bronzeamento artificial intensivo incluso no dia da sogra que custou uma fortuna.
Um pouco menos chamativo, mas muitíssimo mais medonho, é o trio de desprovidas em shantung pêssego. Como bem previu a Socorrinho, não adianta postura e altivez; se o vestido é de quinta, o vexame é inevitável.
Humilhadas pelo esnobismo da elite caipira, as Sanchez Matosinho circulam pelos jardins só preocupadas em não mostrar os sapatos rotos e de péssima procedência. Ô dó!
Pior que os pisantes do trio, só o da bem-intencionada Rosiclair que faz o que pode para fugir das vistas da ressentida Socorrinho. Constrangida com os constantes encoxamentos do ficante Isidoro, Rosi não sabe se esconde o amante ou exibe orgulhosa os sapatos vagabundos. Ingênua a ponto de acreditar nas palavras da prima Lourdinha que, naquele mal-fadado jantar disse que uma mulher do porte de uma Rosiclair pode até calçar um Dunes xumbrega que estará fazendo bonito, a atual presidente da “Barbosa & Matosinho Associados S/A” vai mais além e, acreditando no seu taco, comparece à festa sobre um legítimo par de curvim da Romão Calçados.
Mas discutível mesmo é a presença discreta, porém incômoda de dona Miquelina, agora em rigor-mortis, o que faz o vestidinho de primeira comunhão cair melhor no corpinho arroxeado.
O cadáver embalsamado não passa desapercebido, mesmo estando a maior parte do tempo sentado e com o olhar parado no nada. Os menos avisados páram, cumprimentam e até beijam as bochechas da finada senhora sem notar nada de estranho. Nesta lista está a desmiolada da Jussara Vaso Ruim (née Mijamija) que desfila pimpona entre os convivas aos beijos e abraços com sua nova namorada travesti operada.
Só o fato de estar se relacionando com um homem de nascença dá uma segurança extra à atual ex da noiva, que só vendo para crer.
Os pais do noivo já estão bem mais soltos, depois de cinco doses de cowboy e nenhuma gafe imperdoável no cardápio, por enquanto.
O brocado dourado da Lourdinha já apresenta um tom mais ocre por conta do suor excessivo da anfitriã que simplesmente desbotou o Lacroix “autêntico” pago em duas de quinhentos numa boutique suspeita da capital.
Tio Modesto aproveitando o discurso aparvalhado do Dagmar, trata de sair de fininho com o namorado Johnny (este um pouco passado com a audácia dos Sanchez Matosinho em trazer o presunto da Miquelina vestida e perfumada) e o padre safado louco em levantar a batina e se refestelar em luxúria homo-erótica.
Três horas depois, Ismênia –a retardada- flagra o menage atrás das bromélias e sai aos berros: “Que mundo é esse? Que mundo é esse?”.
Um pouco antes da hora do bolo e do tradicional arremesso de buquê, Rosemary -que há tempos não era convidada para um rega-bofe daquele calibre e, por isso, se voluntaria para ser crooner do Maestro Zezinho, dá início ao ponto alto da festa.
Com os olhos semi-cerrados começa a entoar:

“Paixãaaao!
Leve a minha vida
E essa coisa linda
Que é viver só de …
Paixãaao!…
Melhor do que dizer se
É poder dizer sim
E viver só de…
Paixão, paixão, paixãaaao!!!”

Ovacionada pela multidão que havia se esquecido da delicadeza que é esta pérola de seu vasto repertório, Rosemary, agora tomada de uma força maior, gira no palco e muda de voz. Visivelmente mais aguda, a “Dalida dos trópicos” provoca risos em alguns ao se mover tal e qual a Miquelina dos áureos tempos.
Após segundos de puro suspense, o espírito de Miquelina se manifesta através da famosa e diz:
“Izildinha, minha flor! Pensou que eu iria perder esta festa linda? Mas nem por mil caralhos! Aliás, três deles estão na maior farra lá atrás das bromélias, mas isso não é importante. O que eu quero dizer é que o meu presente já está materializado e prontinho para ser servido. De modo que, antes de cortar o bolo, eu peço que os pombinhos se dirijam até o meu antigo corpo e, munidos de uma faca bem afiada, abram a minha antiga barriga. Lá dentro vocês encontrarão o mimo que eu preparei para vocês, meus queridinhos. Agora eu vou embora porque senão a Rosemary não vai aguentar o tranco, e eu quero que ela cante “Paixão” muitas vezes ainda esta noite. Até mais, meus amores, um beijo e muitas, mas muitas felicidades na vida nova que hoje se inicia. Adeus!”.
Dito isso, Rosemary cai para trás aplaudidíssima. Estrela que é, levanta num pulo e agradece comovida a multidão.
Curiosíssimos, os noivinhos se dirigem até o cadáver distintíssimo da velha e, um tanto constrangidos, abrem num só golpe seu ventre flácido.
Qual não é a surpresa de todos ao ver lá de dentro sairem docinhos reproduzindo os órgãos internos da matriarca: baços, fígados, duodenos, intestinos grossos e delgados, todos finamente confeitados no mais delicioso marzipã já degustado por todos da região.
Com lágrimas caindo no rostinho maquiado, Izilda se recorda dos bons tempos com a avó querida e manda um beijo para o céu.
De lá de cima, um pardal solta um trinado de alegria.
Na hora do buquê, as moçoilas que estão à procura de um amor como o de Izilda e Claudinho se postam à frente do palco. Ao som do terceiro bis de “Paixão”, Izilda finalmente arremessa o gordo maço de antúrios que vai parar no colo de ninguém menos que Jussara “Vaso Ruim” (née Mijamija).
De volta à velha forma, a sapata cai numa gostosa gargalhada suscedida de um longo jato de urina que forma um belo efeito de veludo molhado na sua calça cotelê. A noiva, num misto de saia justa e ciúme fora de hora, abre um sorriso amarelo e deseja à antiga amante boa sorte junto à namorada operada.
Com nacos generosos de bolo de damasco com cobertura azul na boca, os convidados se preparam para ir embora e tecer comentários maldosos no carro de volta para casa.
Na saída, uma longa fila de três mil burgueses com o bucho cheio espera sua vez de beijar e bater nas costas dos noivos que, apesar de exaustos e inchados, se despedem impávidos com um sorriso engessado na cara e uma cesta enorme de bem-casados à tiracolo.
Para cada um deles (os burgueses, e não os bem-casados), Claudinho e Izilda Sanchez Matosinho Solimões Souza Santos, agradecidos, repetem incansavelmente e em uníssono:

“Ah, já vai? Comeu o bolo?! Que bom que você veio! Ficamos muito felizes com a sua presença, obrigado!”



FIM

Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

ato de fé (conto tiririca)



1.
Tenho 35 anos, me chamo Henrique e não gosto da minha vida.
Há dez meses, tentei matar um cara. Não consegui e nem desisti. O cara era um idiota. Roubou minha mulher e depois meus filhos e minha casa. Tive que vender o carro pra pagar os advogados e me livrar do processo que o cuzão meteu nas minhas costas. Por conta disso, odeio minha mulher. Me trocar por um mentecapto? Ok. Me deixar sem os filhos? Caguei. Ser conivente com o pulha e armar uma arapuca pra mim bem dentro da minha casa da qual fui sumariamente expulso? Vagabunda!

Hoje foi um dia terrível. Não trabalho há uns 3 meses. Pedi as contas. Trabalho assalariado definitivamente não é pra gente como eu.
Passei horas deitado no chão, olhando pro teto, pensando em modos infalíveis de me vingar.
Estou doente, mau-humorado e com ódio no coração.

Meus filhos são pequenos. Tenho medo de que eles cresçam e se esqueçam de mim. Tenho medo mas isso não quer dizer que me importe de fato. Só não quero duas criaturas que me desprezam soltas no mundo. Só isso. Tenho pensado muito a respeito. A merda é que toda vez que tento me aproximar, a mãe entra em pânico e os nanicos choram. Surtam toda vez que olham pra minha cara. Dá vontade de esbofetear a cara de cada um deles só pra chocar a vaca parideira e mostrar de uma vez por todas quem é quem nessa história imunda. Mas me contenho porque também não quero duas criaturas com asco de mim soltas no mundo. Por outro lado, não posso parecer vítima demais porque realmente não saberia o que fazer com duas criaturas que dependem de mim soltas no mundo. Trocando em miúdos, ter tido essas duas criaturas foi um erro. Ter me casado com essa vadia, outro pior.

Quando a gente se conheceu, éramos dois estúpidos. A diferença é que com o passar dos anos, eu me transformei e ela não. Passei da natureza “estúpida” pra natureza “looser”. Adoro essa palavra. Estrangeira que sintetiza perfeitamente a nossa realidade mediana. Sou um estúpido que virou “looser”. Já a vadia em questão, apenas evoluiu. Como todas as estúpidas, cresceu e virou uma orgulhosa sub-burguesa. Amontoa tanto diploma quanto celulite, porque gente estúpida se entope de comida cara e gorda enquanto acha que pode aumentar o número de neurônios de suas cabeças fracas. E pobre terceiro-mundista não se relaciona com comida boa como os franceses, por exemplo. Terceiro-mundista quando descobre como é boa a comida gorda e cara, come tanto que tudo vai parar nas coxas em forma de banha molenga, mas eles acreditam piamente que tudo isso vá parar é no cérebro. Talvez vá mesmo. Isso explicaria o porquê de tanta gente estúpida reclamando de prisão de ventre. Essa gente não caga porque não sabe diferenciar as coxas do próprio cérebro e, provavelmente, o cérebro do próprio cu.
Retomando o passado: dois estúpidos recém-saídos das fraldas se conhecem e fazem o desfavor de se apaixonar acreditando que o amor pode tudo. Pode nada. Amor não é pra todo mundo. Gente feia, por exemplo. Pra que insistir em reprodução? Sim, porque amor na cabeça estreita dessa gente tem que ter reprodução. Se ainda fossem estéreis, aí sim, dava até pra acreditar que deus, ou o que for, é favorável ao amor indistinto. Mas não. Parece que gente feia, por se assemelharem naturalmente a ratos, têm uma facilidade tamanha de reprodução que beira o grotesco. Não dá pra aceitar.
Retomando de novo: nos conhecemos, nos apaixonamos e sim, nos reproduzimos. Não que fôssemos feios, longe disso, mas repito: éramos estúpidos de gritar de ódio. O que dá na mesma porque estupidez é tão perigosa e ofensiva quanto a mais medonha das criaturas.
No começo era ótimo, claro: a ignorância sempre foi o segredo da felicidade. A coisa deu pra degringolar quando eu comecei meu processo de transmutação, já que todo ‘looser’ é um cínico de mão cheia. E cinismo só brota em mentes brilhantes. Agora, o ‘estúpido evoluído’ é um limítrofe: transforma merda gorda em neurônios e se julga melhor que os outros por isso. E ai de quem discordar dessa superioridade: vai escutar um rosário de teorias fundamentadas no nada brotadas de seus neurônios mancos.
Com os anos, nossa vida foi se tornando um transtorno. Eu cada vez melhor e ela cada vez mais tacanha naquela ânsia de acumular experiências dispensáveis. Assim não teve jeito. Ela arranjou um amante. Aquele mesmo. O pulha, o mentecapto, o que eu tentei matar e falhei.

Hoje de manhã me encontrei com o advogado. Gosto dele. Sujeito bonachão que manda arrancar a unha dos que não colaboram, sabe? O que ele disse me deixou animado: “Esses filhas da puta vão se fuder tanto, mas tanto, que vão pedir pelamordedeus pra gente ter misericórdia e se contentar só com toda a grana deles”. Sacou?
Vou ficar rico e gozar o bom da “sub-burguesia laqueada escrota” sem ter que abrir as pernas. E ainda vou fazer um enorme favor àqueles dois escroques: vão virar gente, finalmente. De hipócritas a gente de verdade: um salto e tanto. Sou um poço de bondade, acabo de descobrir.

De volta pra casa, tomo um banho bem quente –um hábito salutar que adotei desde que fui obrigado a circular como pedestre nesta cidade de merda. Qualquer cidadão que mora em algum buraco que se julga cosmopolita em algum ‘paiseco’ subdesenvolvido sabe do que eu estou falando. É uma medida profilática que nada tem a ver com esnobismo ou qualquer outro adjetivo que os equivocados entendem como ofensa.
Como é feia a nossa gente, não? Nossa, não. Esse povo tupiniquim desdentado, achatado e mal-educado. É impressionante como a falta de civilidade chega a níveis impensáveis aqui neste cafundó. Como ignorar que a simples presença dessa gente nas ruas agride todo e qualquer direito do cidadão pagador de impostos? A postura, as vestes, o cheiro, tudo agride e ofende. Nada presta. Enquanto não baixarem uma lei que obrigue os que ganham menos de cinco salários mínimos a só circular de uniforme em locais públicos, as noções de respeito ao próximo estão suspensas. Quem anda nas ruas como o brasileiro anda deveria chafurdar no estrume até se dar conta de que o feio e o sujo atrapalham, sim, a coletividade.

No banho, imagino como seria recuperar o que é meu de direito e ainda lucrar um bom montante apenas mentindo no tribunal. Mentindo não, distorcendo. Sempre fico pasmo com o atalho eficaz que é a mentira. Tudo fica tão mais fácil e rápido quando se mente que é impressionante como ainda existem tantas pessoas reticentes em relação ao uso de uma boa lorota. Que mal há em modificar um pouco a realidade das coisas se a realidade em questão é a sua? E se, ainda por cima, isso resolvesse de uma vez por todas o negócio de vingança que atravanca minha vida? Ou alguém realmente acha que eu gosto de alimentar esses sentimentos vís? Eu lhes respondo: não me agrada em nada pensar mais nos outros do que em mim, mesmo que sejam pensamentos aniquiladores de meus desafetos. Portanto, acredito ser uma perda de tempo cultivar amigos. Quiçá inimigos.
Saio do banho com uma vaga idéia do que fazer pra matar meu ócio até que esse teatro infernal acabe e eu volte ao lugar de onde jamais deveria ter saído: minha tranquilidade monástica. Assim sendo, vou contar meu drama tim-tim por tim-tim.


2.
Nasci bem. Tive uma infância abastada e polida. Desde pequeno aprendi que contar vantagem sobre si próprio é falta de educação. Acho que vem daí a dificuldade em me decidir se quero que o sistema exploda ou caviar russo. É claro que eu quero caviar russo, mas tem uma chave dentro de mim que, nos revezes, faz com que eu mude o discurso e diga coisas em que não acredito.
Como agora, por exemplo, na minha atual conjuntura -abandonado, fudido e mal-pago.
Nossa família foi perdendo o poder de fogo até que, na última década, passei a comer o pão que o diabo amassou, literalmente. Só não passei fome porque o diabo amassa comida demais por aí, é só saber ficar de quatro e lamber o chão.
Frequentei bons colégios que me garantiram o embasamento que tenho hoje pras coisas fúteis e mesquinhas da vida. Acreditava que todos nascemos bons e generosos mas, uma vez matriculados em escolas medíocres, ficamos condenados a meia dúzia de valores duvidosos que só são bons pra essa gente que abre escola e têm a pretensão cretina de achar que podem formar cidadãos- eles que se atenham a seus filhos e brinquem de nazismo em família no aconchego de seus lares! Mas, enfim, meus pais falharam e agora é tarde demais pra lamentar o que quer que seja.
Nesses antros educatórios, criei amizades que me ensinaram muito sobre relações humanas. Aprendi que a teoria acima é furada e que tem gente que já nasce ruim, hostil e sádica. Crianças são todas ruins, hostís e sádicas, mas umas mais, outras um pouco menos. Eu me considerava exceção. Nasci bom, tenho certeza, mas fui tendo que me adaptar a essa realidade canina e, sem me dar conta, já era pior que todos eles. Percebi isso quando fiz chorar pela primeira vez um sujeito torto. Uma sensação de poder e controle extraordinários. A coisa do fazer chorar por si só não garante satisfação porque, convenhamos, tem uma subcategoria humana que só nasceu mesmo pra chorar. Agora, tirar lágrimas de uma criatura que não tem o dom pra coisa, é maravilhoso. A pessoa é pega de surpresa e, mediante palavras afiadas selecionadas a dedo para serem expelidas por nossa boca assassina, BUM!, desanda a chorar feito bezerro na fila do abate e isso, acreditem, é melhor que um orgasmo.
Nessa fase, andava muito com um indivíduo chamado Sérgio. O achava inferior só por ele se chamar Sérgio. Sérgio –quem em sã consciência coloca no filho o nome Sérgio? Quantos Sérgios a gente vê espalhados por aí? Chamar Sérgio é como ter um carro desses palio, chevette ou coisa que o valha. Nada te diferencia do ‘Sérgio Coisinha Feia de Jesus’ lá da Vila Paçoca. Quer dizer: qualquer um pode ser você. E isso é tenebroso.
Esse Sérgio era o que eu tinha de mais próximo a um amigo. Frequentava minha casa e até compartilhava algumas idéias acerca da vida. Com o passar do tempo, fui me enchendo dessa pecha de ‘Zé Povinho’ que ele, na verdade, não tinha, mas que eu não conseguia abstrair por causa do nome ordinário. Não o despachei totalmente porque era minha única companhia, mas fui esfriando, esfriando até que um dia ele disse: “eu também não gosto do meu nome, prefiro o teu. Aliás, eu só venho aqui porque a tua casa é melhor que a minha. Se não fosse, nem te olhava na cara. Você é meio idiota”.
Fiquei besta. Admirei a sinceridade, mas fiquei puto mesmo assim. Deixei de convidá-lo a colocar seus pés proletários nos meus domínios por uns vinte dias. O que me mata é que EU o procurei de volta. Senti sua falta, ou melhor, senti falta de companhia. Ele voltou mais humilde –o que não deixa de ser irritante, mas naquele caso isolado, até gostei. Ficou queito e engoliu a seco alguns comentários desagradáveis que fiz de propósito. Infeliz.
Isso durou uns cinco anos até que meus pais tiveram a pachorra de falir. Não sei como e nem me interessa. Me vi em maus lençóis, tive que baixar a crista e mudei de escola. Fui pra uma em que Sérgio era artigo raro, em compensação o que havia de nomes impronunciáveis terminados em “mar”, “ete”, “ildo” me reviram o estômago até hoje. Lá não fiz amizades e, por incrível que pareça, nem senti falta de companhia. O Sérgio, notem o desplante, deixou de me procurar. Cortou relações e nunca mais o vi.
Desse período de trevas, a única coisa que trago comigo é a vadia da minha mulher. Era pobre, descuidada e ignorante. Mas tinha um quê de fibra e uma inteligência bruta que me conquistaram. Pelo menos, por hora. Nunca teve nada e, pra quem que nunca teve nada, até que não era completamente chucra. Demorei um tanto pra engatar o namoro mas com o tempo concluí que não havia nada melhor naquele lugar. Seu nome, prefiro não revelar por vergonha.
Conversávamos sobre tudo e foi ela que me fez questionar pela primeira vez os conceitos da vida –a coisa do sistema versus caviar russo que já citei. À essa altura a chavinha já estava acionada e eu juro que estava convicto de que a pobreza era linda.
Nos casamos em um ano sob as bênçãos dos nossos pais, aqueles dois pares de pé-rapados que não tinham moral nem pra abrir a boca na tentativa de evitar a ruína que era aquele casamento.
Eu, em pleno juízo, jamais permitiria uma coisa daquelas. Casamento é muito sério, desperdiçá-lo com bobagem é pecado.
Os primeiros anos foram bons. Eu mais reclamava do que agia, mas ela não. Tinha uma gana de crescer que me deixava em êxtase.
Passávamos fome juntos e eu nem ligava. E tinha o sexo.
O problema surgiu quando ela começou a crescer de fato. Ela insistia na coisa dos estudos e da formação profissional e toda aquela ladainha de gente que não sabe direito das coisas; eu só dizendo que aquilo tudo não valia o esforço e que era melhor ela grudar em algum poderoso desavisado e virar uma espécie de “frasqueira”, sabe? Aquele ser que vive atrás de um outro mais estrelado e que não lhe deixa faltar nada: água, celular, modess… Daí vai conquistando a confiança, vai fazendo a caminha ao mesmo tempo e, quando menos se espera, nhac, vai e toma tudo o que é dele. Pra mim, isso sempre pareceu muito mais rápido e seguro.
Ela trabalhava em algum muquifo desqualificado de dia e estudava à noite em algum outro muquifo desqualificado. Comecei a ficar tenso com a situação e quase entrego os pontos quando a infeliz vira e diz que “acha que está grávida”. Ah é? Acha? Então que vá ter certeza primeiro e depois me amole. Fiquei possesso. E com razão.
Uma semana depois, a certeza. Lembro que pensei: “agora fudeu”. Mas os nove meses passaram e nem foram tão traumáticos. O bebê nasceu e, se não fosse o choro insuportável, nem me dava conta de que havia uma criança naquela casa.
Ah, a casa. Como notaram, não tinhamos a menor condição de morar em outro lugar que não fosse debaixo da ponte, mas havia essa casa que era do pai dela. O pobre. A casa era, claro, igualmente pobre, mas era deles e eles estavam dando pra gente. Olha como são as coisas: meus pais que sempre me cobriram de luxo, riqueza e sabedoria, não podiam me ajudar nem com um trapo velho; meus sogros, malditos velhos ogros, nos davam de bom grado aquele pedaço de subúrbio. Não sei como não esganeci de raiva. Ponto pra mim e meus nervos de aço.
Morávamos longe e muitas vezes tinhamos que ir a pé ao centro porque não havia dinheiro pro ônibus. Foi uma época difícil mas otimismo era meu nome naqueles dias. Se tem uma coisa da qual me arrependo na vida é ter sido tão patético em acreditar que felicidade era aquilo. Como é que levar a vida de maneira capenga pode ser felicidade? Felicidade é gente cheirosa, é chegar sentado à algum lugar e, principalmente, dormir em paz sem uma criança a atazanar os sonhos com gritos e choros sem fim. Quando o mais velho atingiu uma idade em que finalmente as coisas pareciam voltar ao básico do suportável, eis que surge mais um girino na barriga dela.
A carreira da ingrata tava indo de vento em popa. Estava feliz a cretina que dava até úlcera. Inclusive, por conta de tanto êxtase da parte dela, todos os enjôos e vômitos crônicos, quem teve dessa vez fui eu. Ela irradiava felicidade. E eu expelia bilis a cada minuto dessa gestação dos infernos. Inclusive, enquanto dei entrada no hospital duas vezes por problemas intestinais, duas vezes ela foi promovida. Agora atendia pela alcunha de GERENTE DA CASA DO CARALHO A QUATRO. Gerente, vulgo sub-chefe. Coisa intermediária entre o poder e a ralé! Recheio de sanduíche de quinta.
Ela voltava pra casa inchada, barriguda e eu bancando a ama seca do pirralho maior. Aquele espírito que todo mundo fala que baixa quando a gente vê a cara do filho, eu não recebi. Devo processar quem por isso?
Simplesmente não tenho o dom pra coisa. Os dias dentro daquela casa nos cafundós do judas com o pirralho maior e sem ajuda dos meus pais falidos e nem a dos pais horrorosos dela, eram o inferno na terra. As noites conseguiam ser piores. Brigas homéricas e choros completavam minha penitência por algo que não cometi.
Com o salário de GERENTE DA CASA DO CARALHO A QUATRO, ela milagrosamente conseguia manter a todos. Eu abominava essa situação, e não era nem pelo fato de ser sustentado pela mulher, afinal dinheiro é dinheiro, independente de onde venha-, mas pelo simples fato de que, a meu ver, não dava. Era pouco. Muito pouco, aliás.
A questão é que, apesar da miséria, ela conseguiu poupar. Não me pergunte como, mas ela fez um pé de meia.
E foi assim, no meio desse pardieiro, que meu segundo erro nasceu. Um menino gordo e pior que o primeiro. Histérico, gritava, mordia e não dormia por dias.
Na licença-maternidade, notei que ela recebia uns telefonemas estranhos e mudava de humor toda vez que isso acontecia. Ah, esqueci de dizer, mas o segundo girino era tão desagradável que ela teve depressão pós-parto ou arrependimento, como eu costumo dizer. Ninguém com juízo conseguia desenvolver ternura ou qualquer outro sentimento abnegado por aquela criança. O primeiro era chato, mas era simpático. Agora, esse segundo era o diabo. Não havia negociação. Protelei ao máximo as doses de vacinas obrigatórias pra ver se algo acontecia e ele empacotava. Pensava que se isso tivesse que acontecer, que fosse logo enquanto era irracional como um cachorro. Porque depois não ia ter coragem. A gente pega amor ou se acostuma com eles e pra despachar é complicado. Então, pelo bem de todos, fiz o que pude pra reparar o erro. Não deu em nada. Hoje eles têm idade suficiente pra não gostar de mim e o fazem sem cerimônia.

A suspeita de que ela me traía me deixou obcecado. Não pensava em outra coisa a não ser flagrá-los, agredi-los e me vingar de uma maneira bem sórdida. Suicídio me parecia a melhor delas. Todo mundo já deve ter pensado em se matar pra se vingar de alguém que lhe fez mal; a idéia da culpa eterna sem solução pra quem fica é excitante, mas sempre gostei demais de mim mesmo pra levar a cabo uma coisa dessas. Homicídio também não era má idéia, a não ser pelo fato de que teria que ser um crime perfeito pra não apodrecer na cadeia. Isso seria impraticável. Por enquanto, só pensava no flagrante e na agressão física. A lei estava do meu lado, a coisa da honra manchada me protegia de qualquer desatino que pudesse cometer.
Num belo dia, resolvi: os dois têm que morrer. Pra isso, tinha que ter paciência e sangue-frio. Duas coisas que nunca me faltaram.


Do dia pra noite, mudei radicalmente a postura. Vesti a carapuça do corno manso e até estimulava a vadia a se encontrar com o amante que, até então, eu não conhecia.
Só fui ver a sua cara no dia em que houve uma festinha mequetrefe daquelas de seção de firma cheia de gente de terceiro escalão: secretárias, auxiliaries, supervisores e toda a demais corja que leva essas empresas horrorosas nas costas. A razão da comemoração? Outra promoção da vaca que agora atendia pelo nome de guerra de GERENTE SÊNIOR DA CASA DO CARALHO A QUATRO. Bando de infelizes trajando crepe de seda em tom pastel; deselegantes a beber vinho de garrafa azul como se fosse o néctar dos deuses. A famosa ‘máfia classe-média branca’ que consome tomate seco, rúcula e acha que tá fazendo bonito.
Pois eu fui à tal festinha, bebi da garrafa azul em copo de plástico, comi canapê de tomate seco e agrião comprado por engano e fui falso até à alma. Sorri, cumprimentei um por um e dei parabéns à vadia. De repente, eis que surge ele: a besta do adultério. Mais baixo que eu, mais gordo que eu, incoparavelmente inferior a mim. Certamente que ficou constrangido com a minha presença, mas disfarçou bem e até me cumprimentou, me parabenizando por tabela. Tinha a voz um tom acima do suportável daquelas que a gente tira o sarro na época da escola. Com certeza foi uma criança irritante. Aliás, ainda mantinha traços infantis: bochechas proeminentes e rosadas, além da franjinha APAE. Fiquei me perguntando “que tipo de mulher se interessaria por um homem que tem cara de criança retardada? Praticamente uma aberração? A minha mulher, é claro. Por isso eu digo: não basta melhorar de vida, se você não tem berço, seus critérios pela vida ficam irremediavelmente comprometidos. É a única justificativa que eu encontro pra ela ter fornicado comigo e com aquele ser demente na mesma encarnação.
De longe fiquei a observar os dois. Não queriam, de forma alguma, evidenciar nenhum tipo de intimidade. Casais em pecado deveriam saber de uma vez por todas que disfarçar é pior que assumir. Tá na cara que estão apaixonados e ficam trocando olhares de cumplicidade, o que só serve pra irritar quem está de fora. Principalmente se o de fora em questão é o marido traído.
À primeira suspeita de que a vaca não estava sendo correta comigo, eu já sabia que o que sentia por ela não era e nem nunca foi amor. Era mais uma conjunção entre a minha solidão e a disponibilidade dela num momento de fraqueza. Caí em mim porque nunca a enxerguei com a cegueira de quem ama de verdade. Sempre fui muito lúcido a respeito de seus defeitos, principalmente os físicos. A achava feia e desengonçada quando a conheci; continuei achando enquanto éramos uma família unida e feliz, por que não?; e ainda hoje a considero feia e desengonçada, agora com o agravante de ser também velha e filha da puta. Eu a odeio.
Voltando à festinha dos horrores. Uma hora eles se entregaram e trocaram um selinho atrás do arquivo morto. Eu vi. Se eu tivesse uma máquina, meu álibi estaria garantido e eu teria passe-livre pra cometer todas as atrocidades a que um marido traído tem o direito de cometer. Mas não, não levei máquina e o episódio só serviu pra aumentar uns gramas a mais de bílis no meu fígado.

Como foi que esse caso evoluiu para algo sério a ponto dela querer se separar de mim e me despachar pra fora do casebre do pai-ogro, eu não sei. Estava tão absorto em minha maquinação de vingança que não vi o amor dos dois merdinhas florescer. Na época eu trabalhava como fiscal do imposto de renda e me garantia extorquindo favores sexuais de umas sirigaitas que deviam dinheiro pra receita. Era um bom trabalho: ganhava bem e despejava meu stress em cima de umas vagabundas que não valiam nem o sabonete que perfumava suas bucetas azedas.
Com essa grana, comprei muitos ternos, sapatos italianos e um carro condizente com minha pessoa. Apesar disso, evitava revelar em casa a minha renda pra evitar inveja ou outra coisa negativa que eu sei que viria. Também não passei a contribuir com as despesas porque não me sentia inspirado a tal. Como a casa não era minha e não me agradava morar naquele buraco, concluí que investir dinheiro no cortiço seria desperdício. Portanto, também fiz meu pé de meia por um tempo, mas em prol de mim mesmo.
Com dinheiro no bolso e o saco esvaziado de porra, até pensei em me separar da vaca e não ter contato com ela e meus dois erros pro resto da vida, mas isso frustraria meus planos de flagrante, vingança e morte.


3.
Hoje foi a audiência com o juiz. Respondo pela tentativa de homicídio e nem alegar que eu estava sendo traído e por isso perdi a cabeça, eu posso. Não sei o porquê, mas o advogado disse pra eu ficar calado. Só respondo o que me perguntarem e, nem assim, poderei falar o que realmente penso. Ele tenta alegar que sou limítrofe ou algum outro adjetivo mentiroso e me garantiu que isso será bom pra mim. Apesar de, às vezes, achá-lo incompetente, foi o único que consegui pagar. Não creio que isso vá funcionar, tenho cara de esperto, não convenço ninguém como psicótico, sociopata ou a bosta que for.
Ordens do advogado: não se vista bem (ok, fiz o possível e, cá estou eu com um paletó que mais parece uniforme de segurança de loja popular); curve sua coluna para a frente e ande com os ombros caídos (passei uma tarde inteira fazendo de conta que era o amante da vaca); faça fisionomia de coitado, daqueles que apanham e não revidam (que nem você, pensei, mas engoli o pensamento).
Pronto, estou pronto pra esse juiz.
O juiz me pareceu de confiança. Pelo menos, altivo ele era. Relógio bom, cabelo bem cortado e cheirava a perfume caro. Fiquei mais tranquilo. Confio muito mais na parcialidade dos que sabem das coisas, do que na justiça daqueles que não têm por onde.
Fiz a minha parte. Respondi a tudo com um fiozinho de voz que mortificaria até uma mamba negra. Sou bom nisso. Disse que jamais seria capaz de matar um pernilongo que fosse e que, se agi violentamente, foi por conta de uma chavinha que gira quando estou sob pressão e me faz fazer coisas nas quais não acredito. Viu como uma mentira pode ser bem próxima da verdade? Dito isso, não me senti desconfortável nem tampouco criminoso.
Voltei pra casa e resolvi atazanar meus desafetos mais um pouco. Liguei pro cortiço deles e disse que queria falar com meus filhos. A vaca entrou em pânico e despejou uma série de desaforos que eu sorvia como se fossem balinhas de menta. Claro que ela desligou o telefone na minha cara, não sem antes dizer que eu não tinha mais filhos. Achei de uma audácia, aquilo. Oras, meu sobrenome aqueles bastardos vão carregar pra todo o sempre e ela me vem com essa de que eu não tenho direito sobre eles? Responsabilidade sobre eles, eu dispenso, agora meus direitos de pai exigo que sejam mantidos e respeitados. Ou ela acha mesmo que eu vou deixar aqueles equívocos que carregam o meu sangue nobre chamarem o molóide inferior de papai.

Enquanto pude, mantive meu cargo de fiscal. Era perfeito pra mim. Todos levantavam o rabo na minha presença e eu cada vez mais rico. Mas como tudo que é bom, isso também durou pouco. Logo vieram denúncias de abuso e outras baixarias, de modo que resolvi debandar antes que espirrasse alguma porcaria em mim. Continuei a morar em Calcutá –como era o apelido carinhoso que dei àquele subúrbio do cão, e voltei à minha vidinha de sempre: a de corno manso pronto pra dar o bote.
Me recusava a cuidar das crianças, então uma babá gordíssima dividia o teto comigo durante o dia. Imaginem como seria uma babá contratada com o dinheiro micho que a vaca ganhava como GERENTE SÊNIOR DA CASA DO CARALHO A QUATRO. Não pensem que insisto nessa tecla por despeito do dinheirinho honesto da minha digníssima ex. Não é do meu feitio esse tipo de sentimento. Posso ser um looser, mas nobreza nunca me faltou. Não perderia meu tempo a difamar a renda mensal da putana se não achasse realmente que aquela quantia beirava à esmola.
Aguentei a babá estoicamente e nem me incomodava com o fato da gorda falar errado com minhas crias. Na verdade, pouco me importava. Se o exemplo torto não viesse da balofa, com certeza viria por outra fonte, já que aquele lugar estava infestado de gente desqualificada que só mexeu num livro pra espanar o pó na estante da casa da patroa.

Numa noite, a vadia voltou pra casa e me comunicou que desejava se separar porque descobriu que amava outro homem. Eu disse que sabia de tudo e que não daria o divórcio nem sob tortura. Ela ficou besta. Falou que eu era um bosta e que se arrependia amargamente de ter me conhecido e se apaixonado por mim. Retruquei que sua memória estava capenga porque o seu passado não lhe dava outra alternativa. Era eu ou era o caritó, já que nenhum outro macho olharia duas vezes pra sua figura a não ser pra se certificar não se tratar de assombração. Ela partiu pra ignorância. Estalou um tapa na minha cara e eu respondi com um sorriso cínico. Ela ordenou que eu saísse da casa dos seus pais no ato. Casa dos seus pais! Hahaha! Barraco de gente desprovida, isso sim!
Fui parar num quarto de hotel cinco estrelas. Meus fundos de fiscal ainda estavam recheados e me garantiram alguns dias de gente, bem longe daqueles animais que graças aos deuses deixaram de ser meus co-parentes. Isso era um alívio! Praticamente um descarrego.
Bem tratado e bêbado como há muito não era, resolvi colocar meu plano em prática: invadir o barraco de Calcutá e passar bala em tudo que se mexesse. A vaca, meus erros e o amante incluídos.
Mas deixemos o dinheiro acabar primeiro pra tirar minha bunda daquelas almofadas sedosas em direção ao pulgueiro dos ogros suburbanos.
Não demorou a acontecer. Luxo é algo realmente pra poucos. E nem acho isso absurdo. Caso eu fosse rico de fato, odiaria ter que dividir meus mimos com gente flutuante como eu, por mais que minha essência grite que sou um esnobe de berço.
A arma eu já tinha; restava a coragem. Alguns goles de bourbon depois, lá fui eu com a cara, a coragem e o revólver em direção à família trapo.
Estava tudo escuro e, como já não andava em linha reta, tive dificuldade em entrar no casebre sem me fazer notar. Não enxergava um palmo na frente e acabei atirando em sabe deus lá o quê. Até hoje não sei em quem foi porque essa gente tem tanto rabo preso que, se leva um tiro, sabe porque levou. O que sei é que minha família e o amante continuavam vivos porque assim que escutaram o tiro, desceram em roupas puidas munidos de paus, cacos de vidro e outras armas brancas. Agora me digam: que tipo de gente têm essas coisas em casa pra numa urgência usarem contra seus inimigos?

Alguns sopapos além e fui levado de camburão até à delegacia mais próxima e, com prazer, mostrei meu diploma comprado que sempre levo dobrado na carteira pra uma eventual emergência. Noratam a diferença? Alguns carregam paus e cacos de vidro pra se defender, outros diploma universitário.
O delegado teve que engolir o documento e me encaminhou a uma sala que, se não era a vip de Heathrow, também não era a cela 2x2 cheia de crioulos estupradores lá do fundo do recinto. Chamei meus pais, os falidos, que pelo menos tinham poupado o suficiente pra minha fiança.
Me instalei no germinado dos meus progenitores que, comparado ao caos de Calcutá, mais parecia um resort e fiquei lá até o cafoninha-cara-de-bebê-mongolóide descobrir e mandar seus advogados atrás de mim. Estes eram tão patetas quanto seu contratante e me informaram, num discurso obscuro e entrecortado, típico de gente aparvalhada, que havia um processo contra mim por conta de tentativa de homicídio.
Aqui, uma pausa para esclarecimentos: o bebê sindrômico entendeu mal. Não invadi a casa da vaca pra matar o cidadão ‘bebê sindrômico’ especificamente. Queria matar alguém todos sem distinção. Isso já denota um equívoco da sua parte e uma raiva ainda maior dentro de mim. Agora é que quero mesmo que o infeliz faleça.
Mas como isso não me serve de defesa legal, vamos em frente.

Assim que souberam da natureza da minha prisão e do maldito processo, meus pais –outrora tão próperos e civilizados- parece que foram contaminados pela moral católica desse povinho medíocre e me expulsaram de seu germinadinho.
Restaram-me os trocados dos tempos de fiscal e meu ódio pra continuar em frente.
Custou mas achei um pardieiro menos desqualificado que Calcutá pra morar.


4.
Odeio admitir, mas um dia já me apaixonei. Uma daquelas paixões que a gente vê nos outros e sente asco, sabe? Não foi uma experiência que eu pretenda repetir, mais perdi do que ganhei e sofri mais do que me diverti. Uma perda de tempo.

A Silvia.
Era alguém à minha altura. Pensávamos igual, falávamos as mesmas coisas e não tínhamos aquele constrangimento típico de quando nos vemos obrigados a dialogar com gente que não sabe do que estamos falando. Ou vice-versa. Conhecimento pode vir de cima ou de baixo na mesma medida. Já aprendi muito escutando os serviçais. Nada que vá mudar a vida, só experiências desagradáveis que nos fazem repensar e parar de achar que bife de segunda é o fim da vida, por exemplo.
Com ela, eu até imaginava um futuro belo. Imaginava casamento, festa, viagens e até filhos. Todos lindos, ricos e esnobes.
A questão é que ela era pior que eu, em todos os sentidos, e me tratava que nem capacho. Juro que não me importava com os desmandos e até gostava. Quanto mais atrocidades ela fazia, mais eu me apaixonava e assim nossa relação caminhava pra um aparente final feliz. Isso foi na época gorda da minha vida. Meus pais ainda eram alguém e eu nem imaginava que pudesse haver vida aquém da minha existência.
Foram meses de amor até que ela morreu de overdose. Não sabia que ela se drogava e fiquei chocado com a notícia. Mais do que perder o amor da vida é a pena que dá quando alguém bonito morre. Dá uma sensação de desperdício, de ‘bem que podia ser outra pessoa menos interessante’. Todo mundo deve sentir isso quando alguém bonito morre, eu acho. Eu pelo menos não consigo manter a indiferença.
Levei algum tempo pra superar a perda. Estava tão acostumado à Silvia, éramos quase a mesma pessoa, unha e carne. Acho que morri um pouco junto com ela.
Nos dias seguintes, mal saía da cama. Passei por diversas fases: da completa prostração ao ódio irrestrito. A culpava pela minha dor -jamais havia sentido um desconforto tão grande, nem quando a filha da criada cuspiu na minha caneca de ouro. A sensação de agora era mais agoniante, a coisa da impotência, de não poder recorrer ao dinheiro do pai e subornar alguém que fizesse a diferença. A morte é revoltante e não havia alternativa a não ser odiar profundamente o cadáver que me deixou nessa sinuca.
Com o tempo fui melhorando e, algumas semanas depois, mal lembrava da cara da Sílvia. O que havia era uma sombra de lembrança, um sopro de memória que me garantia que ela era, sim, o grande amor da minha vida, apesar de não me lembrar do seu rosto.
Continuei a citar Silvia em rodinha de amigos e isso também começou a perder o interesse até que, finalmente, a esqueci completamente; a não ser quando esse assunto de grande amor da vida volta de vez em quando. Aí o nome Silvia vem à minha mente e eu repito essa história meio que por osmose.
E a cada vontade de matar a vadia e seu bebê-sindrômico, rezava pela alma da Silvia.


5.
O mundo que me perdoe mas eu fui criado pra hostilizar a classe média, não posso fazer muita coisa à respeito. Talvez essa ânsia da vadia em melhorar de vida devesse ser encarado com uma prova de amor. O fato é que se fosse essa a intenção, o intento flopou e jamais tal hipótese passou pela minha cabeça. Ela que tentasse ser um pouco mais convincente e perseverante. Desistiu muito cedo e arranjou um amante de quinta categoria. Acho até que parte do meu ódio vem dessa escolha equivocada de amante. Ser trocado por lixo não é nada lisonjeiro, baixou minha auto-estima e, juro por deus, isso tudo justifica completamente a minha obcessão por vendeta. Pura e cortante.


6.
Todos os dias escuto algum estranho dizer que devo me aproximar dos meus filhos. Que a infância passa rápido e que logo vão virar adolescentes e aí o sossego acaba porque eles vão nos odiar independente do que se faça. Filhos devem ser enganados desde cedo; sempre incutir nas suas cabeças que os amamos e que eles são a razão na nossa existência. Só assim eles terão um mínimo de consideração no nosso leito de morte. Na verdade, nós mesmos somos os culpados do futuro de merda que nos aguarda. Fazemos filhos que não queremos e criamos a expectativa de um amor incondicional da parte deles e é claro que isso não acontece. Como é que gente escrota vai parir filho decente? Eu não tenho essa ilusão, não bajulo esses cretinhos e não desejo piedade na velhice. Quero morrer só, sujo e faminto se essa for a minha sina.
Nunca quis ter filhos. Nem eu nem a vadia, e aborto só não chegou a ser uma hipótese real por causa do horror que a vadia tinha por cirurgia; assim, tivemos as crianças e até hoje não sabemos o que fazer direito com isso.
O modelo de pais que tinha em casa, se não era o melhor também não me fazia um sentir humano menor. Eles eram ricos e amorosos na medida que isso era possível. Trocando em miúdos, fui uma criança carente e mimada na medida certa. Recebia presentes pra calar a boca e sofria estímulos variados pra parecer inteligente na frente das visitas. Nunca os desapontei, pelo menos até eles me desapontarem primeiro. Fui um bom filho e o que recebi em troca foi privação e a lamentável incursão ao mundo dos remediados.
Por isso e muito, muito mais idiossincrasias do mundo cão, estava decidido a não ter filhos. Como é que um looser, cínico e pernóstico poderia educar satisfatoriamente uma criança sem prejuízo psicológico pra criatura? Sabendo disso, só tive a lamentar a paternidade. Não os odeio, talvez os despreze por antever que, no futuro, os dois serão tão ou mais odiosos que eu e que, por isso mesmo, também não evitarão a paternidade e serão responsáveis por mais outras tantas criaturas mal-amadas que infestarão esse mundo até que ele exploda.
Não nasci pra ser pai e não vejo isso como uma característica própria -ninguém nasceu pra ser pai ou mãe. A diferença é que sou honesto.

7.
A vingança só cresce dentro de mim. Tenho que machucar alguém.

Volto a tentar o homicídio; desta vez, com mais calma e parcimônia. Não sou bom com violência, armas, sangue, fluidos. Tem que ser algo limpo e de meu pleno domínio; se conseguisse fazê-los se matar seria ótimo; o crime perfeito que tanto busco nas minhas divagações -tortura psicológica, maldade extremada sem uso das mãos, altamente intelectual. Testar o limite da estupidez, fazê-los conviver direta e intensamente com a própria mediocridade. Fazê-los escutar a si próprios e nada mais. A morte viria sem dúvida. Fulminante e libertadora, como um prêmio pela proeza de se suportar por toda uma existência. Fabuloso. Acho que consigo.


8.
Jantei e fui meditar. Listei seus pontos fracos, um por um, e armei a utilização de cada uma dessas pequenas adagas da maneira mais certeira.
A questão da mediocridade que, ao meu ver, é o que mais gastura dá neste tipo de gente, infelizmente não é problema deles. Mediocridade é invisível pra quem a ostenta. O foco é outro. Talvez a cultura capenga, os valores rasteiros, a hipocrisia grosseira. E pra quem tem o telhado de um vidro tão fino, fica fácil ser agredido. Morte agonizada, indignante e sem um pingo de sangue. Assim deve ser com os estúpidos, assim será com aqueles todos. A vadia, o bebê sindrômico e meus dois errinhos.


9.
O embate.
Meu nome condiz com minha pessoa. Henrique é nobre sem soar pedante. Ninguém é repudiado por se chamar Henrique. É o que eu chamo de nome digno. Tenho orgulho e ostento meu nome como um brasão de família.
Toda vez que preciso ser apresentado, faço questão de dizer em bom tom: “Henrique, muito prazer”.
Mandei que me anunciassem, mesmo sabendo que não era bem-vindo. Caguei pro que eles pensam de mim. Têm medo do meu nome, já que asco nunca terão porque me chamo muito melhor que eles.
Henrique subirá de elevador social; Henrique entrará pela porta principal; Henrique pisará no tapete; reservem o melhor sofá para Henrique; Henrique deseja café e água nem morna nem gelada. Temperada; calem-se que Henrique se pronunciará:

“Por anos tive a delicadeza de me calar pra uma série de fatores por educação e piedade de vocês dois.
Tive até a generosidade de querer acabar com suas vidas pra que esse momento fosse poupado, mas vocês, obviamente, ignoraram meus gestos interpretando-os como grosseria ou desvario. Pois bem, chega de benevolência. Sou bom até certo ponto.
Você já foi minha mulher, não valorizou essa posição e me trocou por um ser notoriamente inferior, não sem antes me magoar e achincalhar a minha virilidade e honra. Teve o privilégio de parir dois filhos meus e nem assim se deu por contente; queria me ver por baixo, espezinhar os meus valores e ainda tirar algum por fora com essa idéia esdrúxula de processo por tentativa de homicídio. Aqui ninguém tentou matar ninguém, que fique bem claro; o que houve foi, como já disse, um ato misericordioso. Colocou meus filhos contra mim, mas lamento dizer que, cedo ou tarde, filhos se voltam contra pai e mãe invariavelmente, o que pressupõe que você acabou por me fazer um grande favor: jamais pegarei amor por aqueles dois, ao contrário de você que cuidou feito uma empregada dia após dia, desenvolvendo essa patologia chamada amor maternal e que te custará caro a partir da primeira decepção que aqueles dois certamente causarão. Vai sofrer em dobro todos os desaforos, desrespeitos e vandalismos como se fossem cacos cravados no coração. E eu, graças à sua leviandade, vou rir disso tudo, sem mácula e sem o menor arrependimento.
Quando eles te largarem na sarjeta ou, pensando com otimismo, num asilo fétido e decadente, que combinará perfeitamente com você, tente rememorar essas palavras de agora e pense em todas as atrocidades que você cometeu. Contra mim e contra seus filhos que ficaram sem a opção de escolher em quem praticar o sadismo inerente. Morra com essa culpa no coração e torça pra que o inferno seja bem quente pra aniquilar de uma vez essa sensação ruim de quem errou feio na vida. Adúltera.

E você, seu paquiderme desprezível: foi boa a sensação de roubar a esposa alheia, não foi? Ainda mais de um cara petulante e cheio das verdades como esse aqui com cara de otário, não foi? Concordo. Eu, no seu lugar, faria o mesmo. Só teria um pouco mais de amor próprio e escolheria alguém melhor, que realmente valesse o esforço e não esse arremedo de fêmea parideira que só atinge o êxtase quando coloca postas de salmão na boca.
Vocês se merecem. Vocês merecem cada característica desagradável um do outro; cada comentário raso embasado em nada sobre esses assuntos irrelevantes da semana; vocês merecem dividir as despesas do supermercado, o condomínio e a poupança dos MEUS filhos; merecem absolutamente tudo o que têm. Tudo!
Vocês já perceberam a insignificância dessa felicidade de vocês? Já se deram conta que essa vidinha ordinária vai se arrastar até o fim dos dias, caso vocês não tomem uma providência? Caso vocês não cortem o mal pela raiz e abortem esse futuro lamentável? Mas se a covardia prevalecer, também não há o que temer. A pobreza de perspectivas, vocês conhecem bem. Engordem muito, encham o cu de trocados, comprem uma casa “boa” no centro expandido, poupem pras crianças irem àlguma merda de faculdade paga e brinquem de serem felizes. Que eu, daqui de longe e do alto, vou rir tanto quanto meus pulmões aguentarem.
Sinceramente, HENRIQUE
Querem que eu repita?
HENRIQUE, HENRIQUE, HENRIQUE.


10.
Recebo a notícia de que os dois acabaram de morrer. Não por causa das minhas palavras, que superestimei, mas por uma piada do destino: se espatifaram dentro de alguma classe econômica em algum ponto turístico do fim do mundo. As crianças foram para os braços dos avós-ogros-malditos, mal-trajadas e mal-educadas a falar coisas de corar as professoras enfadonhas das escolas-butique por onde flanei. Caguei mais uma vez pra eles e pra essas bruxas velhas. Queo me ver livre de meus pequenos erros e da pensão. Não posso pagar e não pagaria mesmo se pudesse. Se é pra me odiar, que o façam com real motivo: não dou mais um tostão pra esses dois bostinhas.
Mas apesar de tudo, agora sinto um aperto no coração. Inimigos são melhores vivos do que mortos, agora eu sei. Penso até em ir ao enterro, seria simpático da minha parte.

11.
As coisas nunca são do jeito que a gente quer; pior, as coisas são sempre muito aquém do merecimento. A imagem dos dois patetas perdendo o viço, caindo em desgraça e explodindo no ar me alimentará os sonhos por anos até que eu esqueça de seus rostos.
Sempre gostei de fazer chorar os que não sabem chorar. Sem querer a Silvia e seu espectro me vieram à cabeça; nunca mais vou saber como ela era, mas não importa. O que eu preciso continua fresco na memória, que é a ciência de que um dia eu fui feliz, fiz troça da felicidade, abracei a desgraça e matei quem eu amava e quem eu odiava, mesmo sem ter a menor lembrança de quem foram. Tudo ficou pra trás; tudo é morto e enterrado.
Agora posso relaxar e ser verdadeiramente bom.

mini-bestiário para crianças cínicas e/ou sádicas (versinhos infantis ecológicos)



O patinho
O patinho nasceu defeituoso,
biquinho não abria,
peninha não nascia,
patinha não mexia.

A mãe-pata, essa urrava de raiva:
‘Que inglória parir uma ave da escória!’

Do patinho, ninguém se afeiçoava.
E o pior: uma galinha sempre o caçoava:
‘Pato do cão, como pode ser tão feio,
miserável sujeito!
Te olho na cara e tua feiúra me cala.
Vai pro teu canto e te mata,
infelizinho de patas!’

O feioso não se rogava,
estufava o peito e dizia:
‘És uma ave estúpida,
ó galinha calhorda.
Olhe-se no espelho
e veja a besteira que és:
bicha demente, atrofiada nas asas
cloaca doente a expelir ovos
de onde não nascem pintos,
só matam a fome dos povos
em nada confiáveis, em nada distintos
que te comem grelhadas
porque não se suportam nas ancas avantajadas,
gordas e mal-amadas.’

A galinha, então, ficou profundamente magoada:
‘Sou burra sim,
mas sou tão inglória
quanto a tua mãe,
patinho da língua afiada
e do coração duro.’

No que pato retrucou:
‘Até aí levo vantagem entre os seus,
galinha coroca.
Nunca ouvi dizer
de coração de pato enfiado no espeto.
Já de galinha...
nem dez, nem vinte, nem cem
das suas irmãs mortas e mutiladas
matam a fome daqueles homens horrorosos
humanos de patas.’


O Rinoceronte
Do alto da ponte
Pulou o rinoceronte
O rio era fundo
Agora ficou raso
Tudo em volta inundou
A terra molhou
E sujou o vaso

O rinoceronte nada sofreu
Só um pouco d’água bebeu
Os demais animais adoraram a cena
“Bis, bis”, gargalhava a hiena

Quem não gostou do ocorrido
Foi o pitu que não foi socorrido
A tempo de evitar o mal maior
Mal maior?
Mas que mal maior?
De ser confundido
Com uma lagosta ao thermidor

A vaca
A vaca é um bicho gordo,
Tetudo e rabudo
Se espelho tivesse a leiteira
Saberia por que, além de tudo,
Continuava solteira

Que boi vai querer tal trubufu?
Fêmea peluda não tem vez
Mesmo que macia seja a sua tez
Nem touro, nem nada que tenha peru
Vai se engraçar com tamanha insensatez

À pobre vaca só resta uma saída digna
Ir ao abatedouro por livre vontade
Já que não há quem a coma em provecta idade
Terá uma morte lenta, horrorosa e maligna.

O porco
Quando a gente morre
A gente fica fedido
Não é diferente
Com o porquinho querido

Não que em vida
Ele já não cheirasse mal
Mas é tão simpático o diabo
Que ninguém liga
Pro desconforto nasal

Um dia tentou passar perfume
E o soneto ficou pior que a emenda
O gambá, morrendo de ciúme,
Ligou para a França
Com a seguinte encomenda:

“Tragam-me colônias e extratos!
Se o porco pode se livrar do budum
Nós também seremos perfumados
Nisso não vejo problema algum!”

A Lagartixa
Ela vive trepada na parede
Só os tolos dela têm medo
Povo que tem joanete
E um humor pra lá de azedo

A lagartixa é nossa amiga
Come pernilongo com sua linguona
Não adianta matá-la com pesticida
Só vai fazer mal pra essa gente bundona

Aqui vai um apelo de militância
Deixem as lagartixas em paz!
Elas estão fartas de tanta ignorância
Enquanto você tá mais pra pagode
Elas são ladies em clube de jazz

dote de mulher feia é um caixão envernizado (conto romântico)



‘Vamos colocar da seguinte maneira: odeio sangue, mas nem por isso evito derramá-lo. O sangue dos outros, diga-se de passagem’.

A Carmem vivia a falar essas coisas, assustando as pessoas, mas não tinha coragem de matar nem um mosquito.
Ficava a preparar um quiabo na chapa que era divino e foi assim que ela me conquistou. Um bom coração e boa de forno e fogão. Mas tinha essas coisas que ela falava e as pessoas achavam um horror. Não sei. Tive que aprender a lidar com isso e não me arrependo. A Carmem tem me feito muito feliz.

Outro dia mesmo estávamos nos divertindo à beça com essas coisas todas -ela diz que fala sem querer, que é assim meio no instinto, auto-defesa, mas eu não acredito muito não. É como se ela - ao invés de vomitar, arrotar, peidar, esse tipo de comportamento - saísse por aí ofendendo as pessoas. Opção, talvez. Uma válvula de escape.

Carmem: ‘Hoje alguém precisa morrer! E se deus se demorar, eu mesma mato!’

eu: ‘Ó Carmenzinha, vais te fuder tanto na vida que tu não vais crer! Sempre fostes mal-criada, caprichosa e feia, devo dizer aqui. Vai, cão da peste! Vai amolar o boi, vai!’

Injuriados se amontoam no decorrer da vida da Carmem, mas Carmem não se incomoda. Para os desafetos ela diz:
Carmem:‘Se burra eu fosse, mataria-me agora. Mas como o burro és tu, o azar é teu’.

Certa feita, de acordo com minha fraca memória, um rapaz de fora –formoso, viril, sedento- veio conhecer a Carmem.
Carmem: ‘Mate-o por mim, mãezinha, mate-o sim?’
A mãe: ‘Ah, mas onde foi que erramos Cabral? Essa guria não presta, creio’
Cabral: ‘Não diga asneiras Josefina, se essa infeliz é indigna, a culpa é tua, Josefina, afinal, quem tem pai viado nessa família?’
A mãe: ‘Ai minha virgem Cristina! Será que nunca esquecerás desse episódio?’
Cabral: ‘Claro que não, ó Josefina, fui eu quem comeu o cu de teu finado pai, não foi? Como hei de esquecer?’
A mãe: ‘Mas o que é que a nossa filha tem com isso?’
Cabral: ‘E tu ainda me perguntas? Ela tudo viu, tudo ouviu e sorriu no final do coito’
A mãe: ‘Nivele suas palavras, Cabral!’
Cabral: ‘Foda-te, animal!’

A mãe não matou o rapaz e nem por isso a Carmem se deu por vencida. ‘Calma que tudo vem a seu tempo’ mentalizava a moça enquanto escolhia qual insulto deferir ao novo pretendente.
Quando indagada sobre suas preferências nas horas de folga, a Carmem se saiu com essa:
Carmem: ‘Mato porcos. Faço-lhes um talho no pescoço e então arranco o couro a dentadas’
O rapaz: ‘Ah, mas a senhorita é mesmo uma cousa, não?’
Carmem: ‘Sim sou’
O rapaz: ‘Então passar bem’
Carmem: ‘Isso mesmo, passarei!’
O rapaz: ‘Jumenta!’

Jumenta, jumenta...
Carmem: ‘Mas como é isso?’
A mãe: ‘Jumenta minha filha, aquele animal feio e gordo’
Carmem: ‘Ai, ai, ai, jumenta é a mãe’
A mãe: ‘Não minha flor, jumenta não sou não, mas que tu saístes feito o cão do inferno, ah disto não me resta dúvidas’


Doralice era um encanto. Fomos apresentados pelo pai da Carmem, o Cabral –o que comeu o sogro às vistas da filha problemática.
Doralice vinha a ser a nora do Fragoso, o sócio do Cabral. À época, fazia eu inúmeras negociatas junto à ‘Fragoso & Cabral Ltda’, uma empresa escusa, porém aparentemente solidíssima.
Os negócios não iam nada bem, então me ofereceram aquele encanto de mocinha como parte de pagamento.
Fragoso: ‘Ah, mas faço muito gosto nessa aquisição, viu Cabral?’ Cabral: ‘Eu sabia que a Doralice não nos decepcionaria’
Eu: ‘Mas o marido não vai estranhar?’
Cabral: ‘Quem? O Eduardinho? Imagina, ele nos deve tanto que a Doralice foi hipotecada tantas vezes até que resolvemos dar um lar melhor pra essa preciosidade’
Eu: ‘Ah, assim fico mais confortável, então levo a Doralice e ficaremos quites, certo?’
Cabral: ‘Como lhe agradecer por tamanha generosidade, senhor Antero!’

Uma vez em casa, Doralice se mostrou de uma eficiência ímpar: costurava, dava ordens na criadagem e ensinava o fagote para mamãe Minha mãe:‘Puxa, meu filho, desta vez acertastes em cheio! Que moça agradável essa Doralice! Acho que agora posso morrer em paz pois saberei que estarás em boas mãos’
Eu: ‘Deixe disso mamãe, tens ainda uma eternidade pela frente’ Minha mãe: ‘Nem tanto, Anterinho querido: já estou velha e o fagote está acabando com meus pulmões; logo, logo vou embora e tu ficarás com a Doralice aqui em casa e vais herdar minha cama de viúva que desde que seu santo pai se foi, nunca mais soube o que é diversão’

Eu: ‘Docinho, mamãe nos prometeu a sua cama quando nos deixar’
Doralice: ‘Ah, mas cama de defunto dá azar, amorzinho’
Eu: ‘Acreditas mesmo nisso? E se eu dissesse que fui concebido e parido nessa mesma cama?’
Doralice: ‘Ora, Antero amor, isso vem reforçar minhas convicções. Em tal cama não me deito e tenho dito!’
E assim foi feito. Mamãe nos deixou e a Doralice se foi. Nunca sequer tocou naquela cama de mogno maciço, escuro e de formas tão imponentes. Foi-se.

‘Em semanas terá seu dinheiro de volta, senhor Antero’- falou-me um Fragoso desconcertado e falido.
Eu:‘Como, senhor Fragoso? Como se não tens aonde deitar esse corpo fétido, horrendo e pobre?’
Fragoso: ‘Puxa, senhor Antero, entendo que estejas ferido por dentro e que a Doralice se mostrou uma vadia em todas as letras, mas isso são modos de tratar a minha pessoa? Assim falando, lembra-me a estranha da Carmem’
Eu: ‘Ora, agora és tu que me ofendes, e a troco de quê, senhor Fragoso?’
Fragoso: ‘ Pois saibas que é riquíssima a Carmem assombrosa!’ Eu: ‘Mas é?’

Nada de dinheiro em notas, nada da Doralice, mas uma Carmen acena no horizonte
Eu: ‘Não pode ser assim tão horrorosa, a insuportável’
Meu anjo da guarda: ‘Não, meu caro, eu diria: não pode ser tão insuportável, a horrorosa’
Eu: ‘Uia, meu anjo da guarda: pensei que anjos não emitissem tais comentários’
Meu anjo da guarda: ‘De onde tirastes essa teoria?’
Eu: ‘Teoria nada, fui dogmatizado, fui ludibriado: os anjos são belos, as mulheres que se aproximam de mim é que são medonhas’
Meu anjo da guarda: ‘Pobrezinho! Não sei que coisas andaram botando na tua cabeça mas eu lhe digo que minha língua é minha aliada: se não gosto, ela trata de afastar o desgosto de mim’
Eu: ‘Puxa, como faz a Carmem!’
Meu anjo da guarda: ‘Sim, por isso insisto: essa Carmem é um anjo que vaga por aí sem asas e nem cachinhos’
Eu: ‘Cachinhos? Cachinhos? Já reparastes, Querubim, o quão ruim é aquele cabelo? O quão constrangedor são as palavras entre os dentes daquela vadia?’
Meu anjo da guarda: ‘Ó sim, Anterinho dos olhos sensíveis, essa será sua missão na terra’
Eu: ‘Qual? Não entendo’
Meu anjo da guarda: ‘Vais cavar o orgulho, amaciar o nojo, fazer brotar amor e te forçar a ser feliz com essa cadela das trevas’
Eu: ‘Não sei se topo...’

Os dias seguintes foram impossíveis. O Fragoso, o Cabral, a mulher do Cabral – todos seres desprezíveis. Mas que zombeteiro é esse Nosso Criador! Enche o mundo de escroques e faz brotar no meio dessa gente a Carmem!
Ninguém faz uso do infortúnio estético tão bem quanto a Carmem – acho que foi isso que me encantou.

Fragoso: ‘Acorda doutor Antero, hoje é o grande dia! Irás desposar aquela que ninguém jamais ousou... és um bravo! Um herói! E serás recompensado com a Carmem –como uma cabeça de alce na sala; como uma piranha gorda na mesa de trabalho. Parabéns, doutor Antero!’

Enfim me casarei, é finda minha trajetória de solteiro farejador! Hoje a Carmem será minha! A cadela desbocada finalmente terá um dono, um nome gravado na coleira, um lar para voltar sempre que conseguir.
Fiz tudo o que costumo fazer em meus dias de rotina: comi fartamente, bebi fartamente - um Baco de tão bêbado no fim do dia.
Fragoso: ‘Ora, ora, bêbado não vale: tens que consumar o ato são pra valer a pena; depois não me venha reclamar que a caceta da noiva lhe abusou! Nessas infelizes não devemos confiar nunca!’

Casamentos existem para ser praticados. Eu que sei, né Carmen?
Eu: ‘Confesso que estavas até linda no vestido branco, de frente ao padre’
Carmem: ‘Eu sei, querido Antero...’
Eu: ‘Até sermos expulsos da casa de deus por suas palavras hereges, querida’
Carmem: ‘Mas foi com essa que aceitaste se casar; não iria eu lhe trair a confiança, meu amor’
Eu: ‘Pois sim, tu és boa, Carmen, cada vez tenho mais certeza disso’

Da boa parte da vida guardo ótimas lembranças. Da ruim, apenas a Carmem.
Bato na boca, isso é blasfêmia!

No coração das pessoas existe um buraco que vai crescendo com o tempo e, na idade adulta, alguns chegam a ostentar pêlos no lugar. Depois de muito me interessar por esse povo com o coração peludo, descubro que desses, apenas três ou quatro ainda vivem –os outros morreram de doenças pouco usuais e que fazem o indivíduo padecer no azedo de suas existências e procurar outras paragens para perpetuar seus órgãos internos –todos peludos, sebosos e desgrenhados; esses órgãos se proliferam nos ambientes áridos dos desertos e por lá ficam, porque a carcaça que os locomovia há muito já virou pó, detrito seco, inodoro. Que pena, porque eram gente boa até começar a nascer pêlo em seus corações.

Um dia, outro dia, olho ao lado e vejo a Carmem –ela tão pândega, tão maluca como nenhuma outra no mundo (eu que não conheço ninguém mais desbaratada que a Carmem!), que jaz aqui ao meu lado. Bonitinha, dormindo. Ontem mesmo, acordada, jurou que havia tido desejos fortíssimos de vociferar contra quem a fez assim. Concluiu ser o próprio pai e contou a quem quisesse, de fato, ouvir, que não foi o avô o enrabado da família, e sim o pai –seu Cabral- lá de pernas pra cima, recebendo com sorriso nos lábios a vara do vovô.
Dona Josefina gritava que não era assim que ela havia aprendido e que não era possível ser o marido –e não o pai- o grande viado da história. Coitada, a Josefina; mas antes que o estrago fosse maior, fizeram-na inalar clorofórmio, trancaram-na no sótão e negam até agora que tal fato realmente aconteceu. De nada sabe a Josefina, e o Cabral, pobre pederasta desmascarado, tentava recolher um pouco de dignidade perante à Carmem, ao Fragoso e a mim, jurando se tratar de misoginia e não de pederastia, e que aquilo tudo não passava de antiga vendetta contra quem colocou no mundo tal assombrosidade que agora era obrigado a reconhecer como filha.
De fato, misoginia e pederastia, naquele caso, não podiam ser confundidos. Virgílio, o pai da Josefina era um homem e tanto –muitíssimo indicado àqueles que querem passar ao largo de qualquer mulher. Já seu Cabral, sinceramente, não me parecia ser pederasta. Mas agora, quem se importa? A Carmem dorme ao meu lado.
Faço o desjejum e me sirvo antes dela; que delícia de desjejum! Adoro ovos e suco de laranja, mas a Carmem não acorda e o ovo esfria. Meu pai, quando a mamãe decidiu não colocar mais ninguém na cama de imbua, disse assim:
Meu pai: ‘Meu tesouro, e quem vai comer meus ovos pela manhã? Hã?’
Minha mãe: ‘Mas estás morto agora, Antero! Não fazes mais ovos como em vida’
Meu pai: ‘Você que pensa, Matilde’.
Tal incidente com os ovos frios me fez lembrar da infãncia e do delicioso sabor do passado.

Eu: ‘Carmen, acorda! É tarde e meus ovos endureceram’
Carmem: ‘Não me importo, afinal não os como há tempos...acho que não aprecio mais’
Eu: ‘Comê-los-ei sozinho então, se me permites’
Carmem: ‘Claro, como não? Coma e sacia essa tua fome matinal’
Eu: ‘Então aproveite para dormir mais um tanto de hora pois hoje é sábado e lhe farei uma surpresa’
Carmem: ‘Vais me matar, meu marido?’
Eu: ‘Como sabes?’
Carmem: ‘É só um palpite’
Eu: ‘Certeiro, eu diria’.

a rola (conto gay interiorano)



‘Essa é pra matar’. Toda vez que alguém passava debaixo da nossa janela, a gente proferia essas palavras e rezava pra ser mesmo. Mas nunca conseguimos matar ninguém (o que era terrível, porque a gente tinha que provar de algum jeito pra mamãe que aquele dinheiro todo que a gente pedia pra comprar vaso de barro, não era dinheiro jogado fora; só que não adiantava: a gente não tinha pontaria e a mamãe botou na cabeça que éramos todos ‘lúzers’ e não havia santo que fizesse a desgraçada mudar de opinião).

A gente então foi crescendo e descobrindo outras coisas pra preencher nossas tardes. Uma dessas descobertas aconteceu de forma inusitada: estávamos eu, o Tomé e o Geraldo a pensar na vida numa tarde modorrenta de verão, quando passou a Tetéia toda vaporosa pela rua (porque era verão, afinal de contas) e piscou pra gente.
‘Olha lá, Tomé seu filha da puta! A Tetéia piscou procê!’
‘Magina, qual o quê! Cêis tão tudo lôco! Má nunca que a Tetéia ia piscá pra mim!’
‘Oxe! Té parece que num sabe da fama que ocê carrega na cidade!’
‘Que fama? Fama di quê?’
‘Ói Tomé: num se faiz de tonto não porque num adianta. Todo mundo aqui sabe que ocê é mais pintudo que jumento de Itu. Mostra aí pra gente, ô Tomé’.
E foi assim que a gente viu pela primeira vez na nossa vida uma jeba daquele porte –mais parecia um minhocoçu adulto! Mas antes que o caro leitor faça mal juízo de mim mais o Geraldo, a gente não se divertia com o instrumento do Tomé. Não diretamente. O que a gente descobriu naquela tarde era que podia ser muito divertido presenciar (de fora) aquele bife do demo em ação judiando da Tetéia e de quem mais quisesse ser judiada. Tá certo que não era muito justa a nossa posição, afinal de contas o que antes era uma atividade democrática entre nós três (o hábito de tentar matar os transeuntes) agora passou a ser uma ação que privilegiava apenas o Tomé. Segundo o Geraldo, essa divisão era mais do que justa porque se a gente juntasse o cumprimento de nossos pintos, não chegava nem na metade do do Tomé.
‘Puta Geraldo, como ocê é conformado na vida não? Assim num vai rolá é nada procê nesse mundo’
‘Ara, me deixa!’

Ao mesmo tempo que a gente se divertia com as peripécias da jeba do Tomé nas donas em fogo alto, minhas orações ao pé da cama toda noite eram pra Jesus Cristinho ter piedade de nós e aumentar as nossas medidas em alguns centímetros (eu incluía o Geraldo nessas súplicas porque sabia que se, por acaso, Jesus resolvesse atender aos meus chamados, o Geraldo não ia suportar ser deixado pra trás e muito provavelmente cometeria uma loucura), então eu rezo toda noite por mim e pelo Geraldo.
O tempo passava bem devagarinho –como pra todo mundo nessa idade- e o Tomé ia ficando cada vez melhor no judiar das donas. À essa época, o leque de opções do rapaz havia aumentado tanto que a gente só via a Tetéia de quinze em quinze dias mais ou menos. O que era uma pena porque nenhuma das novas beneficiárias era tão graciosa quanto a doce Tetéia.

Um dia resolvi que também era hora de me aventurar pelas artes do amor carnal. Óbvio que não poderia ser com nenhuma das titulares do Tomé porque eu seria humilhado e achincalhado em praça pública, e todos saberiam da piada que deus pregou em mim quando eu nasci assim todo garboso (e em nada parecido com o bestalhão do Tomé). Saibam todos que eu passei boa parte da minha vida tentando me convencer de que, no final das contas, eu era muito mais abençoado e sortudo que o Tomé, porque deus me deu inteligência e beleza pra compensar a falta daquela tora descomunal que o asno e horrendo do Tomé ostentava no meio das pernas. Mas toda e qualquer auto-estima ia pro saco quando me dava conta de que era o asno que traçava a Tetéia e não eu, com toda a minha graça e formosura.

Então, fui tentar a sorte no puteiro da Ermengarda. A Ermengarda é daquela cafetinas de meia-idade que já viu de tudo na vida e não se impressiona mais com nada. Obviamente que isso não me aliviou o sofrimento e resolvi esconder minhas partes pudendas o máximo que pude. Pedi que apagasse a luz e disse assim no ouvido dela: ‘Ermengarda, Ermengarda, eu sei que tamanho não é documento mas você prefere pintão ou pintinho?’
‘Olha minha criança (era assim que ela se referia aos seus clientes, independente da idade do cidadão), eu, na atual conjuntura da minha buceta, vou te dizer que prefiro os pintudinhos porque se for muito modesto o patrimônio do rapaz, eu não sinto mais é nada!’ Ai, aquela sinceridade toda me tirou o chão. Não consegui pensar em mais nada e o que já era pequeno ficou menor ainda. Voltei pra casa derrotado e, pior, virgem!
Mas esse revés teve seu lado positivo: fiquei muito mais firme nas minha orações e pedia, cada vez com mais devoção, pra que deus me presenteasse com alguns centímetros a mais.
‘Olha meu Jesus Cristinho, vamos fazer assim: sempre pratico o bem e gostaria que isso se revertesse em centímetros pro meu pau, parece razoável?’
Puxa vida, queria tanto que Jesus respondesse ato contínuo às nossas preces... Seria tudo tão mais agradável e garanto que não haveria o número de descrentes que há nesse mundo!

Numa manhã de inverno, o Geraldo bateu à minha porta todo eufórico com uma notícia pra lá de bombástica:
‘Cara, cê num sabe! O Tomé descobriu que ele é fruta e vai fazer a operação!’
‘Fruta? Que que é fruta?’
‘Fruta, ara! Fruta, boiola, que atende pela porta dos fundo, viadão!’
‘Ah vá!’
‘Tô dizendo!’
‘Mas que negócio é isso de operação?’
‘Ele vai entrá na faca, vai tirá a jeba fora!’
‘E o que vai ser da jeba?’
‘E eu sei? Deve ir pro lixo!’
‘Judiêra sô!’
‘Pois é’.

O Tomé de fato tinha virado a casaca. Descobriu que tava cada vez mais difícil deixar aquela preciosidade em posição de ataque e, pior, descobriu que a causa do problema não era física, mas mental. Era só substituir a imagem da Tetéia embaixo dele pela do Serafim (que vinha a ser o borracheiro da nossa cidade) que tudo ia às mil maravilhas. O problema era que o Serafim era totalmente contra esse negócio de boiolagem e disse que ‘essa tal de jeba pode fazer muito sucesso com as dona em brasa do bairro mas que no rabo dele aquilo não ia entrar nem fudendo, aliás, nada ia entrar no rabo dele nem fudendo!’. E assim, o Tomé se rendeu ao seu novo amor e resolveu cortar o mal pela raíz. Literalmente.
‘Puxa Tomé, mas que decisão corajosa ocê tomô né?’
‘É, pelo Serafim eu corto tudo fora...é só ele pedir’
‘Mas, vem cá, o que cê vai fazer com essa carne toda que cê vai tirar de ocê?’
‘Ai sei lá, se eu pudesse eu guardava num vidro de maionese mas o Serafim é contra. Então eu acho que vai pro lixão mesmo’
‘Judiêra sô!’

Ah mas aquele tesouro não ia apodrecer no lixão nem a pau! Como burro eu nunca fui, já tinha um plano arquitetado na minha cabeça quando saí da casa do Tomé. Mas eu precisava de uma ajuda que viria obviamente do Geraldo.
‘Geraldo, seguinte: eu tenho um plano que vai deixá tanto ocê quanto eu bem feliz. Eu sei que ocê também acha uma judiação deixar aquele pedação de carne, que tanto faz falta pra gente, apodrecer num lixão pros urubu comê, num acha?’
‘Ah é né? Eu acho que é até pecado desperdiçá um troço daqueles enquanto a gente num tem nem pro gasto’
‘Ai que bom que ocê pensa que nem eu, Geraldinho! Então eu tenho um plano pra livrá o Tomé das garra do demo e também pra fazê um favorzão pra nóis dois. Qué ouví?’
‘Craro!’

No dia e na hora da cirurgia, o nosso plano já tava todo montado. O Geraldo ficava de vigília do lado de fora do hospital e eu me prontifiquei a ficar do lado do paciente durante todo o processo (já que a família não quis nem saber dessa decisão, digamos, excêntrica do Tomé). Assim que todos entraram na sala de cirurgia (inclusive eu), senti que a coisa ia ser brava –não posso ver sangue que começo a ter vertigens. Mas me fiz de durão e, no momento da tesourada crucial, tossi. Tossi colpulsiva e convulsivamente; quase deixei meus pulmões sobre a mesa de trabalho. Uma vez chamada a atenção do doutor Menezes e das suas enfermeiras Marilene e Mariangela, vupt, embolsei aquela preciosidade de carne ainda fresca e pulsante pra dentro do jaleco. Como não tinha tempo a perder, tratei de sair de lá rapidamente e o depositei num aquário repleto de gelo previamente arranjado.
O segundo passo seria ainda mais arriscado. Tive que forçar o Geraldo a convencer um primo seu que era farmacêutico a dividir a porção da jeba em duas partes iguais e consumar o transplante. Devo dizer que não foi nada fácil. O farmacêutico –Tonico- não primava pelos bons modos nem pela higiene. Assoava o nariz em tudo e não dava a mínima pros sentimentos alheios. Assim que chegamos à farmácia, o Tonico foi logo dizendo pro Geraldo:
‘Mas que coisa hein! Que ocê era mal-servido eu já sabia, agora que tinha mais gente no mundo desgraçada que nem ocê pra mim é novidade!’
‘Guarde suas impressões procê Tonico, porque dessa vez eu vô te pagá e num vai sê pôco! Tu vai me implantá metade desse pinto e a ôtra metade no meu amigo Alcides’
‘Me pagando tá tudo certo, meu primo...vô te deixá com um pintão de dá gosto! Mas quem vai ficá com a cabecinha?’
Boa pergunta. Tantos detalhes e esse passou batido –o pinto podia ser gigante mas não era dois, portanto só havia uma cabeça pra dois transplantados. Ai que dilema esse!
Pelo sim, pelo não, resolvi manter a minha velha cabecinha e doei a nova pro Geraldo.
A operação aconteceu sem maiores contratempos, a não ser pelo fato de que o novo membro simplesmente engolia nossos velhos e por isso, passamos a chamá-lo de ‘jaquetão’. Pois então, nossos jaquetões já eram parte integrante de nós mesmos e daqui a poucas semanas poderíamos fazer total usufruto dessa magnífica aquisição!
A recuperação foi tranquila e na hora de testar nossas novas máquinas, o nervosismo era tão grande que quase que não conseguimos fazer bonito. Mas graças a deus a Marilene e a Mariangela foram compreensivas e carinhosas e fizeram tudo certinho –pra quem não se lembra, a Marilene e a Mariangela eram as enfermeiras do doutor Menezes.
Assim que começou o processo de convalescência, as duas irmãs se prontificaram a não deixar que nada nos faltasse (física e espiritualmente). Era tanto mimo que eu mais o Geraldo ficávamos até querendo que os ‘jaquetões’ não funcionassem tão cedo. Tudo era tão gostoso e elas tão amorosas que nossas vidas pareciam um mar de rosas.

‘Ops Mariangela, cuidado com a jebona! Num faiz assim tão brusco senão rompe!’
‘Mas eu só encostei os dentes’
‘Então num vai mais botá na boca até aprendê a fazê direito!’

Depois de um tempo só nas delícias que um pintão pode proporcionar a um homem, fui ficando desgostoso, desgostoso, até que nada, mas nada em absoluto me fazia feliz. Nem a idéia da jebona tinindo de nova, nem o fato de que agora as mulheres me amavam incondicionalmente me moviam pra frente. Queria algo novo na vida, algo mais construtivo e salutar. Foi então que resolvi me casar com a Mariângela -que há muito não me dava mais prazer-e fiquei assim: comedido e conformado.
Na véspera do casamento, o Geraldo veio me visitar e disse que também não sentia mais aquela sensação gostosa do começo com a Marilene.
‘Puxa meu amigo, eu num sei o que aconteceu. Fui ficando fraco, desanimado e daí resorvi procurá o Tonico que pode sê uma besta quadrada mas é farmacêutico e sabe das coisa, daí sabe o que ele me falô? falô que isso é anemia, cê acredita? anemia das braba porque o meu corpo num tava acostumado com aquela coisa no meio das perna e num tinha sangue suficiente pra bombá aquele guindaste...xii Alcides, ocê deve tá com anemia também né?’
‘Ah bobagem, Geraldo! Essas coisa num acontece com macho que nem nóis!’
‘Mas é que aconteceu uma coisa esquisita, Alcides... cê lembra do Serafim, aquele que virô a cabeça do Tomé? Então, rolô’
‘Rolô? Como rolô?’
‘Ué, rolô...ele veio vindo, veio vindo falando umas coisa no meu ouvido e daí rolô’
‘Cruz credo Geraldo!’
‘Então, eu também pensei isso na hora, mas rolô do mesmo jeito... daí foi que eu percebi que aquele negócio de anemia era tudo balela, porque com o Serafim vindo por trás a jebona ficô do tamanho da minha coxa, rapaz!’
‘Meu Jesus Cristinho! Tô de queixo caído!’
‘É, se eu fosse ocê também tentava’
‘Mas eu tô de casamento marcado’
‘Sei lá, isso é com ocê né?’

Aquela noite foi terrível. Fiquei acordado a noite inteira pensando ora no que o Geraldo me disse, ora na Mariangela, ora no Serafim. ‘Mas será o benedito que eu tenho que passar por isso mesmo?’

Tive. E vou confessar que não me arrependo. O Serafim compreendeu tudinho e não me perguntou nada além do que eu podia responder. Já a Mariangela...tadinha, acho que ela ficou meio magoada com a situação toda e resolveu se entender com o Tonico –o primo machão do Geraldo.
Hoje eu vivo uma vidinha pacata aqui no sul na companhia do Geraldo, meu amigo de velha data. Obviamente a gente não se ama (é só uma questão de amizade sincera) mas nós dois achamos que a convivência e a perspectiva de um futuro em comum vai fazer com que o amor surja naturalmente como uma flor que brota de tanto regar a terra morta.
‘Que Jesus Cristinho nos ouça, né Geraldo?’
‘É meu amor!’.

do curió tirei a resposta para minha vidinha besta (conto existencialista de auto-comiseração)



‘A moléstia do mundo é que faz a gente ser bacana e honesto!’. Vixe, como o meu pai sabia das coisas! Quando eu era pequeno e o escutava falar isso pra tudo quanto era gente, achava que ele tava ficando era gagá.
‘Mas que porra é essa de moléstia que faz a gente olhar pro próprio rabo e enfiar ele no meio das pernas pensando no quanto a gente é besta na vida?’

Ai que tristeza de ser besta!

No meio do jantar, o papai levantava o garfo assim como se fosse uma cimitarra e gritava:
‘Hoje eu vou meter esse garfo nos cornos da comida!’.
E a gente dava risada. A mamãe é que não gostava muito dessa história. Tinha razão né? Era ela que fazia a comida e o papai falava dos cornos da comida dela todo santo dia.
Mas a mamãe também tinha umas manias que deixavam a gente bem com cara de tacho. Coisas bacanas, eu diria agora, como falar pelos cotovelos uns negócios que ninguém entendia e depois gritar ‘agora chega!’ e ficar calada nos dias seguintes só se comunicando por bilhetes com os filhos, com o marido e com o mundo inteiro. Quem dera as pessoas adotassem isso na vida delas e deixassem a gente sossegado por uns dias. Alguma coisa que funcionasse assim:

Dona Arminda: ‘Ai Pedrinho eu hoje acordei com uma dor no ciático que tá me deixando louca, mas tudo bem, eu sei que isso é uma maneira de deus nosso senhor me testar e descobrir que eu sou mesmo uma santa que aguenta uma vida inteira de dor nas costas, na bacia, no cocuruco da cabeça -que foi aonde os médicos me tiraram aquele tumor no ano passado- sem reclamar um isso que seja, né Pedrinho?’
Pensamento do Pedrinho: ‘Calma Pedro Bó que a velha vai surtar daqui a pouco e daí ela só vai voltar a falar merda na segunda-feira que vem.’
Dona Arminda: ‘Cê sabe que eu sou assim mesmo, uma coitada resignada que a vida não é nada bolinho mas graças a deus que eu não reclamo de nada porque já pensou se eu fosse começar a desfiar o meu rosário pra todo mundo escutar? eu acho que a minha língua ia criar bolha porque eu ia falar sem parar da minha situação na vida que não tá fácil não mas AGORA CHEGA!’
Pensamento do Pedrinho: ‘Obrigado senhor!’

Minha nossa como eu ando nostálgico! A Janinha até ficou enciumada porque eu só falava de gente que já morreu e que ela não conheceu. Também pudera, ela tem só dezessete anos e eu já tinha vida útil quando ela foi parida, portanto, os meus amigos vão morrendo e ela nem tchum. Tadinha.
‘Janinha Janinha. No dia em que eu virar poeta eu vou fazer umas rimas pra você não se sentir assim tão burrinha minha querida’. Essa é outra que eu bem que gostaria que adotasse os hábitos sadios da mamãe.

A Janinha apareceu na minha vida assim: deprimido, eu via uns pontos pretos que me chamavam pro infinito. Esse infinito nada mais era do que a luz pros meus temores –que não eram poucos-, ou seja, significava a minha morte, meus queridos!
Céus, como eu amaldiçoava a morte –a minha, a dos outros, a de todo mundo. Não desejava a morte pra ninguém. Preferia a idéia de viver entrevado e vegetando numa cama do que apodrecer num caixão. E, numa dessas visões dos pontos pretos, eu vi a cara da Janinha –muito branquinha, muito graciosa.
A Janinha, explico, era uma velha fixação minha: a mulherzinha dos meus sonhos; a ninfetinha que eu queria pro resto da vida; a filhinha do papai que era euzinho. Putinha e santinha. Nem bonitinha nem feinha. Nem gordinha nem magrinha. A mulher ideal enfim.
E assim nos aconteceu como a Lilith e Adão: eu tanto pedi a deus que ele resolveu me atender e trouxe pra mim a Janinha direto dos pontos pretos dos meus olhos. Mas as semelhanças páram aí. Ela, a Janinha, sempre ficou junto comigo, nunca se rebelou por nada.

‘ Cadê o bidê desse banheiro Janinha?’
‘Nunca teve bidê esse banheiro meu amor’
‘Que besteira, Janinha! Como é que você se lavava então?’
‘Ué, como eu me lavava... no chuveirinho, oras!’
‘Mas Janinha, não é possível eu ter me enganado assim, eu moro aqui há mais de 20 anos!’
‘Pois é amorzinho, é por isso que eu digo: pára de sonhar acordado e olha ao redor. Bidê nunca teve mas uma mulherzinha louca por você, ah, isso sempre teve sim senhor!’

Eu tive dois irmãos na minha vida -digo tive porque hoje não tenho mais. O mais velho –o Jonas- sumiu na vida assim que o papai morreu e a mamãe foi internada porque resolveu que agora chegava mesmo. Nunca mais falou um ‘a’ na vida dela. Continua lá internada ainda, não a visito mais porque não adianta. Ela não interage, não se socializa. Parece um daqueles hamsters que as pessoas insistem em criar em casa e que só servem pra ficar na gaiola girando a roda. Mamãe tá bem assim.
Na juventude, ela era daquelas que faziam os homens chorar –sempre existiram essas mulheres que fazem os homens chorar por N razões: algumas de prazer, outras de raiva, outras de dor, outras de amor. Ela sentia um comichão nas pernas e nunca soube lidar com isso (também pudera, era involuntária essa coisa dos homens chorarem por ela). Papai, por exemplo, chorava sempre mas nunca pensou em largá-la. Eu e os meus irmãos, a gente vivia falando pra ele:
‘Putz pai, assim não é possível, você vai ficar um figo de tão seco. Pra que chorar? Mamãe é ciclotímica, o médico falou. Não bate bem e nunca vai bater. Vai cuidar da vida meu pai!’

Mas nada.

‘Filhotinho de onça, meu filhinho cuti cuti!
Mamãe é onça, grrrrrrhhhh’

‘Xá pra lá mamãe!’ - Eu morria de medo da mamãe!

Voltando ao Jonas. Ele sumiu. Ninguém mais soube dele e eu acho até bom pra falar a verdade. Sujeito esquisito aquele. Decidiu que ia ser engenheiro civil (dá pra confiar num sujeito que diz que quer porque quer ser engenheiro civil? Entrou na faculdade e tudo). Acho que ele sumiu porque tinha vergonha da gente. Nunca vi um engenheiro civil com a mãe louca internada no hospício.
De vez em quando alguém liga pra avisar que viu o Jonas em alguma cidade dessas dormitório. Eu não acredito porque ele podia ser esquisito e tacanha como todo irmão mais velho (quase todos), mas tonto ele não era e a gente podia ser louco (tudo louco na família) mas a gente era rico. Gente de posses entende? Então por que raios ele, um engenheiro civil, ia trocar o conforto de um lar pela paisagem caceta de uma cidade-dormitório? Nem uma mãe louca vale esse sacrifício.
‘Ai, vê lá o que cê fala, amorzinho!’
‘Xi, fica tranquila Janinha, não é por maldade não , mas ele bem que merece uns comentários assim pelas costas’
‘Amor no coração nem pensar né?’
‘Pra quê?’
‘Ué, pra distribuir palavras gentis pros queridos, amor!’
‘Ah, vai te fuder Janinha’.

O outro irmão ainda tá por aí, o Silvio. O Silvio também é mais velho que eu mas isso não quer dizer muita coisa no caso dele. Parece uma criança gigantesca. É até meio chato de ver porque a gente fica com pena. Acho que puxou todos os genes da mamãe e nenhum do papai. Pobre diabo inofensivo.
Um dia, quando todo mundo ainda vivia, o Silvio disse uma coisa que fez a gente ficar de queixo caído. Ele disse assim:
‘Eu sonhei que você ia morrer (apontando pro papai); que você não vai morrer mas vai ser como se fosse (apontando pro Jonas); que você vai ficar amarrada que nem mortadela na padaria pro resto da vida (apontando pra mamãe) e que você vai ser um idiota pra sempre (obviamente apontando pra mim)’.
Fiquei besta!
‘Ai mas que falta de educação benzinho!’ protestou a Janinha nessa hora.
‘É Janinha, você ainda tem muita coisa pra ver nessa vida, minha flor, não se preocupa não. Falta de educação é uma dádiva quando sai da boca de algumas pessoas. Não se esqueça disso’.

Se o papai que era sempre tão sábio não sabia o que responder na hora que o Silvio fez aquela profecia do cão, imagina a gente que era bem chucro feito um bode do sertão. A mamãe, num bravo ato de sanidade, soltou um ‘agora chega!’ mesmo sem ter falado nadinha antes e o Jonas olhou pra cima e bocejou como era de se esperar de alguém que vai ser engenheiro civil. Já o papai, no alto da sua sapiência e desenvoltura falou assim:
‘E você vai ficar dois meses comendo alho cru pra acordar com o teu arroto fedido toda vez que tiver um sonho estúpido desses!’ Estúpido mas profético. Deu dois anos e tudo aconteceu: papai durinho e branco feito gesso; a mamãe doidinha na camisa de força tentando escrever algum bilhete pro meu irmão Jonas que a essa hora já tava em outro país negando qualquer coisa que dissesse respeito a nós; e eu tava exatamente como sempre. Benditas palavras desse gigantesco do meu irmão!
Já o Silvio, quando viu o papai no caixão e a mamãe muda e amarrada, comeu todos os dentes de alho que tinha em casa. Acho que era pra se penitenciar por aqueles delírios todos que acabaram de vez com a nossa família.

Nos últimos tempos tava bem mais calmo. Só eu e a Janinha e de vez em quando o Silvio -que se casou com uma dona bem semelhante a ele, a Neusa, que -pelo menos à primeira vista- também parece uma criança gigantesca que dá dó só de olhar. Mas com o tempo eu aprendi que era só a primeira impressão. De tonta ela não tem é nada -forçou o Silvio a tomar jeito na vida e hoje ele não faz mais nada sem o consentimento dela (o que é bem bom também porque do jeito que ia ele não chegaria nem no ano que vem).
Inclusive foi do casal o curió que a gente tinha lá em casa. Toda vez que alguém ia pra lá sempre perguntava por que que o curió não cantava. Alguém por acaso pergunta por que que o índio tá sempre pelado? Por que que a Rosinha não depila a xotinha? Não pergunta né? mas sempre perguntavam por que que o pobre do curió não cantava. Segundo a Neusa -que comprou o bichinho de um velho que tem um viveiro cheio de espécies de avezinhas sem asas que ele mesmo corta-, o problema do curió é que ele é mudo. Simples assim.
Mas eu tô falando do caso do curió porque foi ele que trouxe pra nossa vida a Rosinha – aquela que não depila a xotinha. A Rosinha uma vez tocou a campanhia daqui de casa e quis saber se a gente não precisava de empregada. Era bem jeitosinha a Rosinha naquela época - impressionante como tem gente que fica acabadinha tão cedo né? A Rosinha é dessas - Mas então, a gente não precisava de empregada a não ser pra limpar a sujeira do curió. (e como aquele curió fazia sujeira minha nossa!)
Eu já sabia que a Janinha não queria mais saber do bichinho:
‘Ou você arruma um jeito de fazer essa ave estúpida parar de cagar no meu quintal ou eu dou um fora nesse curió que você vai ver só’.
Então resolvi não arriscar. Falei pra Rosinha:
‘Olha minha querida, o trabalho aqui é bem sossegado, você só tem que limpar a bosta do curió’
‘Só isso?’
‘Só minha querida, moleza’.
E desde então a Rosinha vive dentro de casa.

Quando a Rosinha chegou eu acho que nem pêlo ela tinha ainda. Era uma menininha muita da fornida, só que uma menininha de qualquer forma. Mas em dois meses, acho, tudo nela cresceu! Era uma beleza ver aquilo tudo tomando forma que nem bolo no forno! Daí a gente ia percebendo que de dentro da calcinha que, é claro, ficava embaixo da sainha florida, a Rosinha ia cultivando uma verdadeira relvinha que brotava a olhos vistos.
‘Ah mas precisa avisar essa menina que tem que aparar aquilo lá!’ dizia a amarga da Janinha –acho que com ciúmes do sucesso que a relvinha da criadinha fazia entre a gente (entre a gente, quero dizer entre eu e o Silvio):
‘Ah deixa disso vai Janinha, deixa a menina ser feliz lá com a relvinha dela! Que fertilidade! Que força!’
‘Ah, mas cê tá pedindo né seu paspalhão! Já vi tudo: que curió que nada, cê quer é podar aquela samambaia de pêlo com o teu próprio curió, safado! Ah, mas deixa eu saber que isso aconteceu que eu arranco a cabeça dos dois curiós com palha de aço que eu vou fazer com a buceta medonha daquela sonsa da Rosinha!’ ‘Puxa Janinha, isso são modos de uma moça fina que nem você?’ ‘Ah vai se foder brucutu!’

Outra do meu pai quando a gente ainda era criança. Ele tinha mania de correr atrás dos velhos na redondeza só com uma capa nas costas gritando ‘Tá vendo o que dá não morrer cedo!’ E caía na risada. Os velhinhos tadinhos, ficavam com o coração na boca. Não falavam nada de medo mas a gente tinha certeza que eles desejavam coisas bem ruins pra gente que era filho do papai. Ai que saudade daquela vida animada de antes!

‘Quem não tem medo de morrer que morra no meu lugar!’ Eu tinha certeza que a morte não era nem um pouco agradável (tem muita coisa que eu tinha certeza que não era nada agradável mas nada que se comparasse à morte. Quando alguém morre é que eu sinto que a vida é tão estúpida que não vale a pena ter filhos nem se apegar demais às pessoas que podem morrer antes da gente). ‘A morte é a liberdade da alma! Mas quem quer a alma vadiando por aí sem eira nem beira, né mesmo gente boa!’ , já dizia o papai.
Minha mãe naquela loucura que ela mergulhou também sabe que no fundo vale mais a pena ficar lá quieta no sanatório do que partir dessa pra outra ‘Vai saber aonde a gente vai parar?’ Não gostava nem de pensar nisso. Sou muito do medroso é verdade.
E foi pensando assim com essa certeza de que tudo vai ser muito pior do outro lado que eu morri. Acreditem! Eu morri não querendo morrer. Mas a realidade é essa mesmo. Sou um morto fudido que não tem idéia do que é descanso eterno. A Janinha é que não se conforma com a minha perda. Vive pra me acusar de abandono e outras coisas estúpidas que eu não tenho a menor culpa. Ai essas mulheres são tão burras meu deus do céu!

A Janinha -
‘ó meu senhor, por que levaste o amorzinho de mim? e eu meu deus do céu? e eu?’
‘ó seu puto desgraçado, por que você foi embora de mim? e eu seu puto? e eu? agora eu vou ter que te lavar, te vestir, te enterrar e depois chorar, chorar e arrumar coisas pra fazer até alguém se lembrar de mim porque eu não sei pra onde eu vou agora. Não tenho pai, não tenho mãe, não tenho ninguém. Minha alma eram os pontos pretos que você via e agora como morto não vai mais ver porque ou você se arranja no céu e vê tudo colorido ou vai pro inferno naquele escuro todo. Puto puto puto!’

‘não minha querida, enterrado não. Quero ser cremado sim?’

‘é pensando bem vou te cremar. Vou ter o prazer de ver você ardendo no fogo, puto puto puto!’

Custei a me acostumar com a minha nova condição de morto. ‘Isso não é nada, isso não é nada’ eu fico repetindo em pensamento desde o meu falecimento. Como se alguém acreditasse mesmo nisso. ‘Papai, a tua vida foi tão curta e a minha então nem se fala’
‘Meu filho, gente da nossa laia quando é vivo não tem serventia; quando é morto a gente vira herói’
‘Mas eu não quero ser herói, eu sou tão covarde que me dá raiva até’
‘Ah mas isso não interessa, aqui todo mundo é herói: herói covarde, herói valente, herói corno...todo corno é herói!’.
Fiquei a pensar nisso.

O Silvio confessou à Janinha que ele quer que a Neusa se exploda com aquelas regras todas que ela caga sem parar ‘Ela que morra, aquela bandida maluca’. Como são as pessoas né? A mulher tirou ele da lama, fez a vida dele parar de feder e agora ele vai e fala uma barbaridade dessas! Pilantra.
‘De onde, meu deus, eu vou tirar forças pra viver assim pra sempre?’
E deus tinha a língua presa: ‘E the onthe fozê thirou a ithéia the que fozê thá fifo? Botha na cabeza meu filho the que fozê thá mortho. Morthinho tha zilva e vai vicar azim athé o vim thos themphoz, ou zeza, phra zemphre, chriathurinha inzignifiganthe!’Entendeu?
Eu entendi. Tava amarrado a essa rotina de vivo-morto sem a piedade nem do thodo-phoderozo! Ai que situação.
Fui levando minha existência até onde eu pude mas isso não durou mais do que uns dias.
Numa manhã eis que surge o curió pra morar comigo. A Janinha deve ter cumprido a promessa de dar fim na ave estúpida porque é óbvio que o bicho não parou de cagar.
‘Ô curió da cabeça amarela, seja bem-vindo ao mundo dos mortos-vivos. Eu sei que você também morreu sem querer ter morrido, então a gente vai fazer companhia um pro outro até que o zenhor thodo-phoderozo fique com dó da gente e resolva que a gente saia daqui e renasça em flor. Eu não vejo a hora, ó curió amigo meu. Vem cá, ainda não cantas?’ ‘Canto sim meu caro. Sempre cantei, mas aquela molóide da sua viúva podava minhas aspirações’
E o bicho desandou a cantar até o anoitecer. Pássaro precioso esse!

No que a Neusa soube que o Silvio tava armando pra infelicidade dela, ela foi até a polícia e disse que tinha um estranho na casa dela, que ele era esquizofrônico e queria a todo custo se passar por seu marido. O delegado socou tanto o Silvio coitado que eu senti o cheiro de sangue daqui do limbo. Que tristeza isso de casal que vive junto e começa a se odiar e acaba tudo em pancadaria né? Tô falando que o ser humano é mais desumano que muito bicho louco por aí! Vide o curió amigo que não bate nem as asas, muito menos no semelhante.
‘Curió, se asas você tivesse, levaria-me em seu lombo para conhecermos o mundo?’
‘Claro que não,tu és muito maior do que eu e o mundo eu já conheço e posso lhe dizer que não é grande coisa em nenhuma parte’.

Hoje o mar amanheceu nervoso e a Janinha foi até lá no meio das águas movimentadas jogar minhas cinzas. Puxa vida, nem se eu quisesse voltar à minha vida antiga agora não poderia mais. Sem corpo, continuo sendo uma alma sem eira nem beira como o meu pai temia. Quanto sofrimento minha nossa! Não sei se a Janinha sofre tanto assim ou se sou eu que sofro demais da conta. Não deveria mais sofrer desse jeito, tô morto mesmo, afinal. Mas a Janinha chorava que dava pena em cima do bauzinho que carregava as minhas cinzas. E eu que tinha medo de ser cremado antes de morrer porque achava que a alma sentia a dor do corpo que nem aquelas lagartixas que perdem o rabo e o rabo não pára de mexer de jeito nenhum. Mas eu não senti nada. Pra falar a verdade, eu nem sabia que já tinha sido cremado até ver a Janinha indo pro mar com as minhas cinzas na mão. Fiquei meio chocado, vou confessar, mas agora eu tô com tanta pena da Janinha que eu dava tudo pra trocar de lugar com ela. Ela no bauzinho e eu entrando no meio do mar chorando feito bezerro desmamado perguntando pros céus ‘por quê? por quê?’.

Ninguém sabe o quanto eu amei a Janinha na minha vida. A minha mãe antes de ficar louca de vez falava que tanto amor não ia acabar bem. Que pena que a mamãe não fala mais. Eu queria tanto saber a quantas andam as impressões dela do mundo, de mim, da minha morte. Acho que ela nem sabe de nada, que eu morri, que eu fui cremado, que eu tô infeliz irreversivelmente.

‘Mamãe, você não fala mais, eu sei, mas eu queria tanto te contar as últimas da minha vida...’
‘Meu filhotinho amoroso, falar eu não falo, mas agora você também não fala tampouco...até onde eu sei os mortos não falam, confere?’
‘Mas então você sabe que eu morri?’
‘Claro filhotinho, eu te matei!’
‘Como assim mamãe, tá louca?’
‘Controla essa tua mente filhotinho! Não se esqueça que eu leio pensamento, hã!’
‘Vai me explicar ou não?’
‘Explicar o quê? Não tem nada pra explicar, eu vi que aquelas companhias que você tava metido não te faziam bem de jeito maneira. O único elemento saudável daquela corja era o curió! Daí que eu tive uma conversinha franca com o teu pai e ele me prometeu ajudar em nome dos velhos tempos’
‘Vocês me mataram? Meu próprio pai e a minha própria mãe se juntaram pra me matar? Ai que desgraça que caiu na minha vida!’ ‘Pára de resmungar filhotinho, a gente sabe o que é melhor pra você. Agora chega!’
‘Assassina!’
‘Opa-la-la’.

Essa foi a última vez que eu vi a minha mãe. O papai foge de mim desde que soube dessa conversa –justo ele que era o meu grande herói que não deixava pedra sobre pedra e depois caia na gargalhada! Grandes exemplos eu tive em casa! Mas deixa estar. Roguei uma praga pra minha mãe que se ódio de filho pegar, ela vai padecer na terra até os 108. Amarrada na camisa de força e muda. Mudinha a filha da mãe.
Do papai eu não tenho raiva. Só despeito. Eu também queria ter aprontado todas na vida e virar um rato nojento em morte. Mas não. Eu tô morto e a mesma lombriga chorona que eu era em vida. Tanto que ninguém foi jogar as minhas cinzas no mar junto com a Janinha. Nem mandaram rezar uma missa nem nada. E a Janinha também já deve ter esquecido de mim à essa altura dos acontecimentos. Pobre de mim.

Meus irmãos eu não tenho mais por perto. Que inveja deles. Estão livres de mim, sãos e continuam vivos. Do Jonas não tenho notícias, mas se ele não tá mais na terra, com certeza tá melhor do que eu que fico aqui entre os vivos-mortos. Ou foi pro paraíso ou foi pro inferno. Que feliz que ele deve ser agora, o engenheiro cretino. Só sinto pelo Silvio que vai morrer –óbvio- e que vai se instalar bem aqui do meu lado porque não se conteve na condição de retardado e se envolveu com aquela coitada da Neusa e ainda por cima não aguentou o tranco e passou a odiar a dona e planejar mil e uma formas de matá-la. Sujeitinho asqueroso, pensando bem daqui.
Das lembranças de infância a única que eu considero é aquela em que nós três estávamos a matraquear coisas bem horrorosas dos mais infelizes e desafortunados até que um raio caiu no quintal da nossa casa e uma voz anunciou ‘Calem a boca zeuz fethelhos abuzathos!’ O Sílvio saiu gritando ‘Eu não quero morrer, eu não quero morrer’ e então eu vi o rosto do Jonas e ele tava sorrindo –um sorriso meio perverso- que desapareceu quando ele me viu flagrando essa faceta dele que ninguém conhecia. Acho que ele era mau mesmo. Psicótico que queria ser engenheiro civil. Gozado, nem a mamãe nem o papai falavam muito do Jonas, tanto que eu ficava enchendo a cabeça fraca do Silvio dizendo que o irmão Jonas era adotado e que por isso ele queria ser engenheiro civil. Perda de tempo: o Silvio não sabe o que é engenheiro civil. Pra ele é a mesma coisa que dizer que alguém tem micose. É tudo pejorativo. Mas a verdade é que ninguém lá em casa ligava muito pro Jonas. Até que ele sumiu. E ninguém manifestou interesse em buscá-lo de volta. Tá certo que essa decisão deveria partir de mim –com um pai morto e uma mãe louca e sedada. Mas pra todos os efeitos ninguém foi atrás dele. E ele se foi.

Silvinho sempre foi daquele jeito. Nunca fez nada de efetivamente errado, o que denota uma certa instabilidade em seu caráter, que não era mal de fato, mas que também não deixava muitas brechas pra pensarmos que ele fosse um ser normal. Mas isso também era de menos. Meus pais nunca se prenderam a esse tipo de normalidade. O importante era que fôssemos alfabetizados e educados com as visitas –talvez pra contrabalancear as atitudes esquisitas do papai durante o jantar, por exemplo.
Minha família ficou todinha quebrada. Ninguém sabe de ninguém e o papai –que é o único que poderia dividir experiências comigo foge de mim porque se sente culpado pela minha morte, o rato escroto. O terrível é constatar que mesmo após a morte e a inevitável liberdade da alma, a gente não perde esse hábito de sentir culpa por tudo e todos a quem fizemos mal em alguma via. Terrível constatação. O curió que o diga -meu amigo curió, única companhia que me restou no mundo.

Quem veio me visitar dias desses foi a Rosinha: ‘Fiquei com saudades do curió’ .
Desde que eu parti daquele mundo, o curió foi ficando cada vez mais tristonho até que a Janinha resolveu acelerar o processo e deu na cabeça do bichinho. Eu já imaginava alguma coisa parecida com isso. O problema é que a Rosinha ficou sem função na vida, entrou em depressão e resolveu me visitar ‘Estou de passagem’ disse ela toda cerimoniosa.
‘Deixa disso, fica aí vai Rosinha’
‘Não posso não, tenho que cuidar da minha vida, isso aqui pra mim é férias. Toda vez que eu me canso eu tento me matar, me relaxa sabe?’
‘Puxa Rosinha!’.
A Rosinha sempre foi bem expansiva, apesar da vergonha de ser só uma limpadora de bosta de curió, mas ela pegou tanto amor no bichinho que a vergonha foi ficando pra lá. Até sentar na mesa pra tomar café e contar umas piadas ela fazia de quando em quando. ‘Que orgulho Rosinha, fico feliz pela tua visita’.

‘Ô curió, meu curió, cê tá bom?Lembra de mim? A Rosinha que limpava a tua bosta’
‘Tô bonzinho sim graças a deus obrigado’
‘Curió, lembra quando perguntavam por que ocê num cantava?’ ‘Lembro, ô se lembro’
‘Então, agora que ocê morreu, as visita da Dona Janinha fica perguntando pra mim por que eu tenho a xota tão altona e eu fico sem sabê o que dizer curió’
‘Ah mas cê é tonta mesmo né Rosinha! Diz pra eles que é porque não é xota coisa nenhuma, que é um três oitão engatilhado que cê tem no meio das pernas sô’
‘Ô curió, num se esquece que eu sou só uma criada’
‘Pois é, cê é que tem que lembrar que cê é uma empregada humana e não bicho de estimação como a Janinha tá pensando que cê é. Agora se ela insistir com essa putaria, diz pra ela contratar alguém pra limpar a tua bosta todo dia’
‘Credo curió, eu sei me limpá sozinha!’
‘Mulé, faz o que eu tô dizendo!’

‘Ó curió meu amigo sábio, eu tô achando que esse negócio de limbo tá me tirando dos eixos’.
Eu que vivia tão bem, falastrão como eu só, conformado com os defeitos dos meus queridos e nem praguejar eu praguejava quando eu podia porque era um mortal pagador de impostos. Agora eu sou um herói segundo o meu pai e um santo segundo a minha mãe. O que é que é isso que me deu?
Será que é só isso, minha gente?
‘E você curió amigo meu: por que você fica aqui comigo se agora você é uma alma livre e não precisa mais de asas pra voar? Vai voar amigo curió’
‘Ora cala a boca sim? Eu fico aqui porque a gente é igual, não percebe?Eu tinha asas e algum desgraçado cortou fora, tudo bem, viver na gaiola era melhor do que morrer de fome ou virar comida de cascavel. Daí veio uma dona que não aguentava a quantidade de bosta no quintal dela e deu uma martelada na minha cabeça, eu morri e agora tô aqui. Já você era feliz quando não tinha nada pra ser, daí cresceu, ficou deprimido e só pensava em não morrer, mas morreu mesmo assim porque a sua mãe achou que era melhor pra você, fazer o que né? E agora tá aqui junto comigo. A gente é idiota meu caro, i-di-o-ta! A gente não tem o menor controle pra onde vai a nossa vida, então que tal ficar calado por favor?’

Não posso ficar quieto!
Deus me torturou na vida, deus me tortura na morte e eu continuo crente; meus irmãos me largaram no mundo, meus amigos me esqueceram no limbo e os meus pais só me dão desgosto; não posso me matar porque eu já morri, não posso reencarnar porque a minha alma anda perdida; meu amigo do peito é uma ave sem asas e minha experiências não contam porque eu não existo mais.
O que foi foi feito de mim cristo-rei? Será que eu ainda chego a algum lugar? Quem teria a gentileza de me responder?
‘Me responda amigo curió’
‘Ara!’