terça-feira, fevereiro 13, 2007

dote de mulher feia é um caixão envernizado (conto romântico)



‘Vamos colocar da seguinte maneira: odeio sangue, mas nem por isso evito derramá-lo. O sangue dos outros, diga-se de passagem’.

A Carmem vivia a falar essas coisas, assustando as pessoas, mas não tinha coragem de matar nem um mosquito.
Ficava a preparar um quiabo na chapa que era divino e foi assim que ela me conquistou. Um bom coração e boa de forno e fogão. Mas tinha essas coisas que ela falava e as pessoas achavam um horror. Não sei. Tive que aprender a lidar com isso e não me arrependo. A Carmem tem me feito muito feliz.

Outro dia mesmo estávamos nos divertindo à beça com essas coisas todas -ela diz que fala sem querer, que é assim meio no instinto, auto-defesa, mas eu não acredito muito não. É como se ela - ao invés de vomitar, arrotar, peidar, esse tipo de comportamento - saísse por aí ofendendo as pessoas. Opção, talvez. Uma válvula de escape.

Carmem: ‘Hoje alguém precisa morrer! E se deus se demorar, eu mesma mato!’

eu: ‘Ó Carmenzinha, vais te fuder tanto na vida que tu não vais crer! Sempre fostes mal-criada, caprichosa e feia, devo dizer aqui. Vai, cão da peste! Vai amolar o boi, vai!’

Injuriados se amontoam no decorrer da vida da Carmem, mas Carmem não se incomoda. Para os desafetos ela diz:
Carmem:‘Se burra eu fosse, mataria-me agora. Mas como o burro és tu, o azar é teu’.

Certa feita, de acordo com minha fraca memória, um rapaz de fora –formoso, viril, sedento- veio conhecer a Carmem.
Carmem: ‘Mate-o por mim, mãezinha, mate-o sim?’
A mãe: ‘Ah, mas onde foi que erramos Cabral? Essa guria não presta, creio’
Cabral: ‘Não diga asneiras Josefina, se essa infeliz é indigna, a culpa é tua, Josefina, afinal, quem tem pai viado nessa família?’
A mãe: ‘Ai minha virgem Cristina! Será que nunca esquecerás desse episódio?’
Cabral: ‘Claro que não, ó Josefina, fui eu quem comeu o cu de teu finado pai, não foi? Como hei de esquecer?’
A mãe: ‘Mas o que é que a nossa filha tem com isso?’
Cabral: ‘E tu ainda me perguntas? Ela tudo viu, tudo ouviu e sorriu no final do coito’
A mãe: ‘Nivele suas palavras, Cabral!’
Cabral: ‘Foda-te, animal!’

A mãe não matou o rapaz e nem por isso a Carmem se deu por vencida. ‘Calma que tudo vem a seu tempo’ mentalizava a moça enquanto escolhia qual insulto deferir ao novo pretendente.
Quando indagada sobre suas preferências nas horas de folga, a Carmem se saiu com essa:
Carmem: ‘Mato porcos. Faço-lhes um talho no pescoço e então arranco o couro a dentadas’
O rapaz: ‘Ah, mas a senhorita é mesmo uma cousa, não?’
Carmem: ‘Sim sou’
O rapaz: ‘Então passar bem’
Carmem: ‘Isso mesmo, passarei!’
O rapaz: ‘Jumenta!’

Jumenta, jumenta...
Carmem: ‘Mas como é isso?’
A mãe: ‘Jumenta minha filha, aquele animal feio e gordo’
Carmem: ‘Ai, ai, ai, jumenta é a mãe’
A mãe: ‘Não minha flor, jumenta não sou não, mas que tu saístes feito o cão do inferno, ah disto não me resta dúvidas’


Doralice era um encanto. Fomos apresentados pelo pai da Carmem, o Cabral –o que comeu o sogro às vistas da filha problemática.
Doralice vinha a ser a nora do Fragoso, o sócio do Cabral. À época, fazia eu inúmeras negociatas junto à ‘Fragoso & Cabral Ltda’, uma empresa escusa, porém aparentemente solidíssima.
Os negócios não iam nada bem, então me ofereceram aquele encanto de mocinha como parte de pagamento.
Fragoso: ‘Ah, mas faço muito gosto nessa aquisição, viu Cabral?’ Cabral: ‘Eu sabia que a Doralice não nos decepcionaria’
Eu: ‘Mas o marido não vai estranhar?’
Cabral: ‘Quem? O Eduardinho? Imagina, ele nos deve tanto que a Doralice foi hipotecada tantas vezes até que resolvemos dar um lar melhor pra essa preciosidade’
Eu: ‘Ah, assim fico mais confortável, então levo a Doralice e ficaremos quites, certo?’
Cabral: ‘Como lhe agradecer por tamanha generosidade, senhor Antero!’

Uma vez em casa, Doralice se mostrou de uma eficiência ímpar: costurava, dava ordens na criadagem e ensinava o fagote para mamãe Minha mãe:‘Puxa, meu filho, desta vez acertastes em cheio! Que moça agradável essa Doralice! Acho que agora posso morrer em paz pois saberei que estarás em boas mãos’
Eu: ‘Deixe disso mamãe, tens ainda uma eternidade pela frente’ Minha mãe: ‘Nem tanto, Anterinho querido: já estou velha e o fagote está acabando com meus pulmões; logo, logo vou embora e tu ficarás com a Doralice aqui em casa e vais herdar minha cama de viúva que desde que seu santo pai se foi, nunca mais soube o que é diversão’

Eu: ‘Docinho, mamãe nos prometeu a sua cama quando nos deixar’
Doralice: ‘Ah, mas cama de defunto dá azar, amorzinho’
Eu: ‘Acreditas mesmo nisso? E se eu dissesse que fui concebido e parido nessa mesma cama?’
Doralice: ‘Ora, Antero amor, isso vem reforçar minhas convicções. Em tal cama não me deito e tenho dito!’
E assim foi feito. Mamãe nos deixou e a Doralice se foi. Nunca sequer tocou naquela cama de mogno maciço, escuro e de formas tão imponentes. Foi-se.

‘Em semanas terá seu dinheiro de volta, senhor Antero’- falou-me um Fragoso desconcertado e falido.
Eu:‘Como, senhor Fragoso? Como se não tens aonde deitar esse corpo fétido, horrendo e pobre?’
Fragoso: ‘Puxa, senhor Antero, entendo que estejas ferido por dentro e que a Doralice se mostrou uma vadia em todas as letras, mas isso são modos de tratar a minha pessoa? Assim falando, lembra-me a estranha da Carmem’
Eu: ‘Ora, agora és tu que me ofendes, e a troco de quê, senhor Fragoso?’
Fragoso: ‘ Pois saibas que é riquíssima a Carmem assombrosa!’ Eu: ‘Mas é?’

Nada de dinheiro em notas, nada da Doralice, mas uma Carmen acena no horizonte
Eu: ‘Não pode ser assim tão horrorosa, a insuportável’
Meu anjo da guarda: ‘Não, meu caro, eu diria: não pode ser tão insuportável, a horrorosa’
Eu: ‘Uia, meu anjo da guarda: pensei que anjos não emitissem tais comentários’
Meu anjo da guarda: ‘De onde tirastes essa teoria?’
Eu: ‘Teoria nada, fui dogmatizado, fui ludibriado: os anjos são belos, as mulheres que se aproximam de mim é que são medonhas’
Meu anjo da guarda: ‘Pobrezinho! Não sei que coisas andaram botando na tua cabeça mas eu lhe digo que minha língua é minha aliada: se não gosto, ela trata de afastar o desgosto de mim’
Eu: ‘Puxa, como faz a Carmem!’
Meu anjo da guarda: ‘Sim, por isso insisto: essa Carmem é um anjo que vaga por aí sem asas e nem cachinhos’
Eu: ‘Cachinhos? Cachinhos? Já reparastes, Querubim, o quão ruim é aquele cabelo? O quão constrangedor são as palavras entre os dentes daquela vadia?’
Meu anjo da guarda: ‘Ó sim, Anterinho dos olhos sensíveis, essa será sua missão na terra’
Eu: ‘Qual? Não entendo’
Meu anjo da guarda: ‘Vais cavar o orgulho, amaciar o nojo, fazer brotar amor e te forçar a ser feliz com essa cadela das trevas’
Eu: ‘Não sei se topo...’

Os dias seguintes foram impossíveis. O Fragoso, o Cabral, a mulher do Cabral – todos seres desprezíveis. Mas que zombeteiro é esse Nosso Criador! Enche o mundo de escroques e faz brotar no meio dessa gente a Carmem!
Ninguém faz uso do infortúnio estético tão bem quanto a Carmem – acho que foi isso que me encantou.

Fragoso: ‘Acorda doutor Antero, hoje é o grande dia! Irás desposar aquela que ninguém jamais ousou... és um bravo! Um herói! E serás recompensado com a Carmem –como uma cabeça de alce na sala; como uma piranha gorda na mesa de trabalho. Parabéns, doutor Antero!’

Enfim me casarei, é finda minha trajetória de solteiro farejador! Hoje a Carmem será minha! A cadela desbocada finalmente terá um dono, um nome gravado na coleira, um lar para voltar sempre que conseguir.
Fiz tudo o que costumo fazer em meus dias de rotina: comi fartamente, bebi fartamente - um Baco de tão bêbado no fim do dia.
Fragoso: ‘Ora, ora, bêbado não vale: tens que consumar o ato são pra valer a pena; depois não me venha reclamar que a caceta da noiva lhe abusou! Nessas infelizes não devemos confiar nunca!’

Casamentos existem para ser praticados. Eu que sei, né Carmen?
Eu: ‘Confesso que estavas até linda no vestido branco, de frente ao padre’
Carmem: ‘Eu sei, querido Antero...’
Eu: ‘Até sermos expulsos da casa de deus por suas palavras hereges, querida’
Carmem: ‘Mas foi com essa que aceitaste se casar; não iria eu lhe trair a confiança, meu amor’
Eu: ‘Pois sim, tu és boa, Carmen, cada vez tenho mais certeza disso’

Da boa parte da vida guardo ótimas lembranças. Da ruim, apenas a Carmem.
Bato na boca, isso é blasfêmia!

No coração das pessoas existe um buraco que vai crescendo com o tempo e, na idade adulta, alguns chegam a ostentar pêlos no lugar. Depois de muito me interessar por esse povo com o coração peludo, descubro que desses, apenas três ou quatro ainda vivem –os outros morreram de doenças pouco usuais e que fazem o indivíduo padecer no azedo de suas existências e procurar outras paragens para perpetuar seus órgãos internos –todos peludos, sebosos e desgrenhados; esses órgãos se proliferam nos ambientes áridos dos desertos e por lá ficam, porque a carcaça que os locomovia há muito já virou pó, detrito seco, inodoro. Que pena, porque eram gente boa até começar a nascer pêlo em seus corações.

Um dia, outro dia, olho ao lado e vejo a Carmem –ela tão pândega, tão maluca como nenhuma outra no mundo (eu que não conheço ninguém mais desbaratada que a Carmem!), que jaz aqui ao meu lado. Bonitinha, dormindo. Ontem mesmo, acordada, jurou que havia tido desejos fortíssimos de vociferar contra quem a fez assim. Concluiu ser o próprio pai e contou a quem quisesse, de fato, ouvir, que não foi o avô o enrabado da família, e sim o pai –seu Cabral- lá de pernas pra cima, recebendo com sorriso nos lábios a vara do vovô.
Dona Josefina gritava que não era assim que ela havia aprendido e que não era possível ser o marido –e não o pai- o grande viado da história. Coitada, a Josefina; mas antes que o estrago fosse maior, fizeram-na inalar clorofórmio, trancaram-na no sótão e negam até agora que tal fato realmente aconteceu. De nada sabe a Josefina, e o Cabral, pobre pederasta desmascarado, tentava recolher um pouco de dignidade perante à Carmem, ao Fragoso e a mim, jurando se tratar de misoginia e não de pederastia, e que aquilo tudo não passava de antiga vendetta contra quem colocou no mundo tal assombrosidade que agora era obrigado a reconhecer como filha.
De fato, misoginia e pederastia, naquele caso, não podiam ser confundidos. Virgílio, o pai da Josefina era um homem e tanto –muitíssimo indicado àqueles que querem passar ao largo de qualquer mulher. Já seu Cabral, sinceramente, não me parecia ser pederasta. Mas agora, quem se importa? A Carmem dorme ao meu lado.
Faço o desjejum e me sirvo antes dela; que delícia de desjejum! Adoro ovos e suco de laranja, mas a Carmem não acorda e o ovo esfria. Meu pai, quando a mamãe decidiu não colocar mais ninguém na cama de imbua, disse assim:
Meu pai: ‘Meu tesouro, e quem vai comer meus ovos pela manhã? Hã?’
Minha mãe: ‘Mas estás morto agora, Antero! Não fazes mais ovos como em vida’
Meu pai: ‘Você que pensa, Matilde’.
Tal incidente com os ovos frios me fez lembrar da infãncia e do delicioso sabor do passado.

Eu: ‘Carmen, acorda! É tarde e meus ovos endureceram’
Carmem: ‘Não me importo, afinal não os como há tempos...acho que não aprecio mais’
Eu: ‘Comê-los-ei sozinho então, se me permites’
Carmem: ‘Claro, como não? Coma e sacia essa tua fome matinal’
Eu: ‘Então aproveite para dormir mais um tanto de hora pois hoje é sábado e lhe farei uma surpresa’
Carmem: ‘Vais me matar, meu marido?’
Eu: ‘Como sabes?’
Carmem: ‘É só um palpite’
Eu: ‘Certeiro, eu diria’.

Um comentário:

Silvão disse...

Hauahahahaha!

genial!
estava procurando um conto para levar na aula de redação, devido a uma tarefa de casa, quando me deparei com esse conto, a professora pode não gostar, mas foi o melhor que encontrei até agora
simplesmente genial!!