quarta-feira, março 28, 2007

o meu ódio e a piscina da juliana abreu (lição de moral infanto juvenil)



Só um dia depois da mamãe explicar que sentir ódio não era uma coisa boa, eu estava explodindo de ódio da Juliana Abreu.
Eu achava a Juliana Abreu a criatura mais horrorosa que já pisou na minha escola desde que eu estudo lá, e olha que isso já faz um século!
Quando ela entrou há uns dois anos, eu bati o olho e disse pra Mari Cabrera, que era a minha melhor amiga nessa época: “Essa aí não é flor que se cheire!”
Batata! Não deu dois dias e a fulaninha já começou a botas as manguinhas de fora.

Então, eu vou explicar tim-tim por tim-tim tudo o que a Juliana Abreu aprontou com a minha pessoa nesse tempo todo.

Primeiro, é bom contar pra vocês como é a Juliana Abreu: ela é muuuito alta, muuuito loira, muuuuito meiga, muuuuito lindinha e muuuuuito metida. Apesar da gente ser obrigado a ir à escola de uniforme, ela sempre dava um jeito de colocar algum casaco, ou tiara, ou meia, ou qualquer coisa muuuuito linda, importada e cara. Daí as garotas mais fracas das idéias ficavam hipnotizadas com tudo isso e babavam um ovo tremendo dizendo que ela é super-legal, super-descolada, super-blablabla.
Como eu era mais esclarecida, conseguia enxergar direitinho o que a Juliana Abreu era na verdade: uma fútil filhinha de papai que não tinha nada na cabeça.
Até um tempo atrás, eu compartilhava a mesma idéia com a minha ex-amiga Mari Cabrera, mas essa um dia me fez o favor de passar pro lado de lá, engrossando o côro das puxa-saco tietes da Juliana Abreu. E o pior é que ela fez isso dizendo na minha cara que o que eu sinto por ela não passa de inveja, dor de cotovelo, despeito. Audácia da pilombeta!

Depois que eu me vi sozinha na cruzada anti-Juliana Abreu, resolvi que tinha que mudar a estratégia. Chega de espernear e falar pra quem quisesse ouvir que eu não concordava com o resto do mundo e que eu achava a Juliana Abreu o fim da picada. A partir de então, eu iria ser bem mais sutil e, em alguns momentos, poderia até parecer uma fã do “entojinho”.
Minha primeira medida foi me aproximar da fofa. Fisicamente. Assim, fiz que fiz até que consegui me sentar na cadeira ao lado esquerdo da Juliana Abreu. Ela achou esquisito mas não falou nada. Até deu um sorrisinho que, na minha opinião, deveria significar “bom dia”. Eu retribuí o sorrisinho e até falei: “Bom dia, Ju”.
É claro que ela sabia que eu nunca fui com a cara dela, mesmo porque nunca me preocupei em esconder. Se eu fosse ela, sentiria uma pontadinha de medo... eu tenho uma fama bem engraçada na escola. Eles acham que eu bato nos meus irmãos menores e que eu como carne crua. Essa parte é verdade. Será que eles nunca ouviram falar em kibe cru?

Quando a professora de história entrou, também estranhou a minha nova posição na sala. Eu sempre sentei no fundão e não fazia muita questão em prestar atenção na aula. Bem diferente da Juliana Abreu que além de tudo era a mais inteligente e aplicada da turma. Urghhhh!!!!!
A aula começou e o tema era a Inglaterra. E qual não foi a minha surpresa quando a “coisinha” disse toda orgulhosa que já conhecia a Inglaterra, inclusive aqueles lugares todos que a professora citava: Buckinham, Westminster, Yorkshire... e a Juliana Abreu do meu lado dizendo “ah... esse lugar é realmente incrível!” O que foi que eu fiz pra merecer isso?
No final da aula, eu respirei fundo, olhei pra ela e disse assim: “Nossa Ju, você é tão viajada... Deve ser legal ter pais como os teus que te levam pra conhecer o mundo inteiro, né?”.
Ela ficou meio sem graça como comentário e fez uma cara meio triste. Daí ela deu tchau e foi embora. Achei aquilo tudo muuuito esquisito, mas tudo bem.

No outro dia, ela já estava mais acostumada com “a nova amiga”. Me deu dois beijinhos e tudo! Engraçado é que de perto ela nem era assim tão absurda. Mas deixa isso pra lá.
No recreio eu fui apresentada às suas baba-ovos, digo, amigas, inclusive a Mari Cabrera que ficou com os olhos maiores do que duas laranjas-pêra quando me viu de braços dados com a Ju. Eu fiz que não vi, mas eu achei muita graça da cara dela.
Tomamos suco de laranja e comemos sanduíche natural de beringela porque eu descobri que a Ju era vegetariana! Olha só que coisa: eu a-do-ro carne vermelha, branca, suína, bovina, de frango, peixe, avestruz... e ela não colocava um grama de carne na boca.
Fui anotando tudo mentalmente pra um dia poder fazer um dossiê sobre o porquê que a Juliana Abreu era tão insuportável.

Quando eu voltei pra casa, perguntei pra mamãe como é que alguém pode não comer carne na vida. Então ela me explicou que essa é um filosofia de vida, não comer outro animal, porque essas pessoas acham que é muito cruel comer algo do mesmo reino que os dela, mas que isso deveria ser uma opção pros adultos porque criança precisa comer de tudo pra poder crescer saudável e inteligente. Daí eu, que como muita carne, juntei A + B e concluí que a Juliana Abreu só pode ser burra. Mas então por que ela sabia de tudo e ia bem em todas as provas? “Ah, se eu também conhecesse a Inglaterra também saberia de tudo e iria bem nas provas, óbvio!”.

Um dia o nosso grupo teve que fazer um trabalho de escola na casa de alguém. Eu fiz que fiz até conseguir convencer todo mundo que o melhor seria se reunir na casa da Juliana Abreu. Falei que era mais perto de todo mundo, que era mais perto e que a Juliana era tão legal que não iria se incomodar se a gente fosse estudar na casa dela. No começo ela fez uma cara meio contrariada, mas no fim acabou topando e dizendo que ia ser legal porque os pais dela não estariam por lá e que a gente ia se sentir à vontade. Bingo! Mais uma parte do plano dando certo! Finalmente eu iria conhecer o esconderijo do inimigo.
Quando a gente chegou na casa da Juliana, eu quase caí pra trás. Era uma mansão incrível com várias salas enormes e um teto muuuito alto. Isso sem contar nos jardins super-floridos e do monte de pessoas que trabalhavam por lá. Achei engraçado que eles chamavam a Juliana de senhorita Juliana e isso, convenhamos, é muito surreal.
A sala se abria pra uma parede de vidro que, por sua vez, dava pra uma baita piscina linda. Só que ninguém usava a piscina e nem nenhuma outra parte da casa. Isso era um desperdício imperdoável na minha cabeça.
A Juliana parecia bem feliz com a presença de todo mundo e ficava perguntando a toda hora se a gente estava com sede ou com fome. E é lógico que a gente estava sempre com sede e com fome. Daí aparecia uma das muitas pessoas que trabalhavam na casa e trazia muitos sucos e bolos e sanduíches pra gente comer. Foi bem bom!

Quando começou a anoitecer liguei pra minha mãe vir me pegar e então a Juliana Abreu perguntou se toda vez que eu ligava, a minha mãe vinha me pegar? Eu falei que sim e ela me disse que isso devia ser uma coisa bem legal. Eu perguntei, então, o que devia ser tão legal? “A mãe vir buscar a gente toda vez que a gente liga”. E eu respondi: “Ué? A sua mãe não vai te buscar quando você liga?” E ela respondeu: “Não... ela deixa um motorista na minha cola o dia inteiro”. Aiiii.... achei aquilo tãooooo chique: um motorista pra me levar pra cima e pra baixo. O que é ter uma mãe que te leva e busca se você pode ter um motorista só pra você? Mas a Juliana Abreu não parecia muito feliz com o motorista. Estranha, essa garota...
Na volta pra casa, eu contei tudo o que tinha de incrível e maravilhoso na casa da Juliana Abreu pra minha mãe. Eu estava tão animada com tanta mordomia que não parava de falar até que a minha mãe disse: “Nossa... mas a Juliana me parece tão tristonha.” Isso ficou martelando na minha cabeça.

No dia seguinte, como todo bom convidado, fui agradecer à Juliana Abreu por ter nos recebido na sua casa e que eu havia gostado muito de tudo. Ela disse que também havia gostado e que, por ela, a gente iria estudar lá todos os dias porque ela se sente muito sozinha todas as tardes. Confesso que fiquei com uma pontinha de pena dela, tadinha.
No final da aula, a Juliana me perguntou se eu não gostaria de ir lá na casa dela de novo pra tomar banho de piscina. Quase que eu pulei de alegria. Uma, pelo fato de poder descobrir coisas desabonadoras da inimiga; outra, porque tomar banho naquela piscina me parecia uma oferta dos deuses.
Entre um megulho e outro, a Juliana foi se abrindo. E isso simplesmente acabou comigo. Explico:
ela me disse que os pais nunca estavam em casa porque o pai trabalhava demais e a mãe estava sempre viajando. Depois ela disse que nunca chamava as pessoas pra irem na casa dela porque a mãe não gostava de bagunça e havia deixado ordens expressas à governanta pra controlar seus passos e não deixar que a casa ficasse de pernas pro ar... Que coisa! Uma casa tão bonita e ninguém pode ir lá conhecer. Então eu perguntei como foi que ela conseguiu que a gente fosse lá estudar e me convidar pra tomar banho de piscina? “Ah... a minha sorte é que a Dona Maria, a governanta, fica meio incomodada de me ver sozinha sem amigos e faz vista grossa de vez em quando”. Coitada da Juliana Abreu!

Naquela tarde, a Juliana Abreu contou muito mais coisas sobre a vida dela que acabou derretendo meu coração. No final, já com lágrimas nos olhos e paralisada de vergonha eu disse assim: “Olha Ju, eu tenho que confessar uma coisa horrível pra você: eu te achava uma chata de galocha, super-metida que se achava a rainha da cocada. Então eu resolvi ser sua amiga só pra provar pra todo mundo que você não era essa maravilha que todo mundo achava. Mas agora, eu te acho a pessoa mais legal que eu conheço e tô super-feliz de ser sua amiga. Você me desculpa?”
Então a Juliana me deu um abraço e disse que sempre me achou a garota mais sortuda do mundo e que tinha medo de chegar perto de mim porque ela sabia que não gostava dela.
Resumindo: a gente acabou o dia chorando feito duas bezerras desmamadas jurando que a partir daquele dia seríamos “melhores amigas”, daquelas que fazem pacto de fidelidade pro resto da vida, e só nos desgrudamos quando a minha mãe veio me pegar pra voltar pra casa.
Dentro do carro, eu estava tão animada quanto no dia anterior. Falei até ficar cansada sobre tudo o que aconteceu durante a tarde; sobre o quanto a Juliana era legal; sobre como é que eu podia estar tão errada a respeito dela; de que agora em diante a gente seria feito unha e carne; sobre como a Juliana se sentia sozinha porque os pais nunca estavam por perto; blablabla, até que a minha mãe perguntou: “Mas e a piscina?” E eu: “Piscina? Ah a piscina ... legal”.

3 comentários:

verde velma disse...

estava esperando que a srta. abreu fosse violentada pelo jardineiro ou alguma coisa assim, mas no fim entendi a intenção parabólica. conta pra gente quem é a pessoa-objeto?

verde velma disse...

thank you soooooo much :*

Mara-Liz disse...

eu conheci margarete abreu, também pessoa riquíssima, não sei que fim levou, mas parece que está ainda mais rica, hahahaha! bisous